StatCounter

View My Stats

01/12/09

29

IL DIVO

António Mesquita


Giulio Andreotti, à frente do partido da Democracia Cristã, sete vezes no governo da Itália, até o escândalo da "Tangentopolis" e do envolvimento da Máfia, condenado pela Justiça e mais tarde absolvido pelo Supremo. Conhecido por Belzebu, o Corcunda, a Raposa ou o Divo. Hoje, senador vitalício por nomeação presidencial.

Magistralmente interpretado por Toni Servillo, no filme de Paolo Sorrentino, "Il Divo", diz logo no início que "tirando as guerras púnicas, foi acusado de tudo em Itália", mas nunca se defendeu porque tem sentido de humor.

Lívia, a mulher, companheira de tantos anos, no fim de contas não conhece a esfinge melhor do que os outros. Um dia decide interromper o seu apoio e tentar criticá-lo por "sentir a necessidade de dizer a verdade". Resposta: "quem não tem necessidades, vive mais tempo".

O que se passa na cabeça deste Maquiavel tão seguro de si próprio que a necessidade de ser verdadeiro nunca se lhe impõe?

Um jornalista, velho conhecimento, confronta-o com uma série de circunstâncias que o incriminam e não podem ser o produto do simples acaso. Andreotti também não acredita no acaso. Acredita na vontade de Deus. Este argumento (foi por acaso que…?) é sempre simplista da parte de quem julga saber. E a Raposa lembra-lhe que foi ele quem salvou o jornal de cair nas mãos de Berlusconi (já ele). O outro retorque que as coisas foram um pouco mais complicadas do que isso: - "Pois é. Mas esse argumento também se aplica no meu caso. Foi mais complicado do que isso".

Tem remorsos este homem que acusam de ter deixado assassinar o amigo Aldo Moro? Parece que isso, pelo menos, o impede de dormir. Mas foi necessário. A "estratégia de tensão", com a manipulação do terror, foi necessária para formar um grande partido ao centro que salvasse a Itália da anarquia ou do comunismo.

Como se veio a revelar à luz do dia, o regime estava corrompido até às entranhas e a DC não escapou ao seu destino. Mas este político excepcional tinha a doutrina (da vontade de Deus) e o sangue frio necessários para administrar o monstro, e fê-lo com mestria durante os 44 anos que o seu partido esteve no poder. Andreotti foi a cabeça de que esse corpo corrupto precisava. Nenhuma outra faria "melhor". Foi preciso uma ideia exterior ao regime (a que está por detrás da "Operação Mãos Limpas") para lhe pôr fim.

A vontade de Deus é sempre a justificação do status quo. Andreotti tinha razão em reclamar-se dela. Por isso, como diz George Bataille, "Deus é pior ou está para além do mal. É a inocência do mal."


IMPÉRIOS

Alcino Silva

Diana Bar (http://mw2.google.com/mw-panoramio)


Era uma tarde de sábado como tantas outras vividas entre silêncios e solidões rodeadas de gente. O Diana Bar albergava-​me as leituras e naquele fim de dia os ares do Outono sopravam cânticos com as suas nostalgias espalhadas nas águas mansas e acinzentadas do oceano enquanto sobre a areia gaivotas paradas admiravam em espanto o atrevimento das pombas que lhes sobrevoavam o espaço ao mesmo tempo que alargavam as asas prontas a descolar em novas descobertas. A placidez do olhar ajustava-​se a um cenário que se desenhava entre o romantismo das ideias e os encontros marcados com o impossível. Quando a orquestra ligeira começou a tocar quis acreditar que os seus sons me levariam a embarcar nas caravelas que os meus olhos criaram no horizonte prateado entre o mar e o céu e que tinham como destino o infinito do tempo. Preparado estava para tão longa aventura e quando os primeiros toques chegaram até mim, acreditei que voava nas asas das aves marinhas que na praia iniciaram o seu voo. Contudo, o pensamento voou de facto, mas até à memória, e desta para a história, esse passado longínquo dos Homens no tempo. Era na verdade um fim de tarde de um dia longo e o mar estendia-​se ao longe como um poema cantado em glória da humanidade, mas este velho Café não existia, antes apareciam os meus olhos escondidos e protegidos pelas pedras acasteladas da Cividade. Corria o ano cento e trinta e sete antes da história iniciar uma nova contagem do tempo e ao longe na planície que conduzia ao oceano as romanas legiões apressavam o passo para o assalto mortal à aldeia. Em breve, a liberdade iria voar pelo céu azul, prisioneira e cativa do império.

A dupla cortina de muralhas onde julgavam repousar a sua tranquilidade nessa vivência diária de uma estabilidade com breves sobressaltos, parece agora vacilar com o som das notícias que chegam do sul. Viriato perecera nesse momento ignóbil de que a história nos deixou ecos e Roma, enviara um dos seus cônsules, Decimus Junius Brutus para de vez fazer dos galaicos um povo sem identidade. Ocupada Olissipo, dirigiu-​se para norte, desprezando a guerrilha lusitana e passando a ferro e fogo os povoados que encontrara. Atravessaram o Durius junto a Portus, dirigem-​se ainda mais para norte e os ecos da sua marcha chegam já ao interior do pequeno povoado encastelado sobre o mar. A vida agita-​se e apressa-​se no âmago das pequenas ruas e vão chegando os que no exterior labutavam. Olhos ansiosos e temerosos espreitam agora pelas frestas nessa angústia de um fim previsível. No dealbar do dia, percebe-​se o movimento na planície, observam-​se os estandartes e a cor púrpura dos panos. Uma imensa massa guerreira alinha-​se em direcção a nascente. A noite não conheceu luar. O símbolo branco do universo escondeu-​se no temor das horas que se avizinhavam. A luminosidade do dia surgiu nesse romper diário por trás da pequena montanha e quando se elevou estendeu os seus braços pela planície, esmagou a alma dos homens que tentavam perceber o seu destino. A extensão oceânica, nessa beleza que deslumbra os seres humanos aparecia ofuscada pelo corpo legionário que se aprestava para o assalto.

A poderosa máquina de guerra da civilizada Roma, moveu-​se e o silêncio que até ali abafava a voz dos homens, desapareceu, entre os gritos, o desespero, a morte e os berros guerreiros. A resistência durou escassas horas. Derrubada a pedra das muralhas, invadidas as casas, saqueada a aldeia, alinhados os cativos, o exército imperial apronta-​se para prosseguir a sua missão de conquista para norte, ainda mais para norte.

Adivinha-​se ao longe o crepúsculo. O silêncio como uma ave ferida, sobrevoa o pequeno lugar, as chamas que ainda se elevam fazem tremer o olhar de quem procura à distância o azul profundo do mar nessa amplitude imensa que nos lembra o caminho da humanidade.

O crepitar do fogo na destruição do que resta, acorda-nos os sentidos enquanto vagueamos entre os destroços na tentativa de percepcionarmos a história. Corria o ano de cento e trinta e sete antes de recomeçarmos a contagem do tempo. A civilizada e grandiosa Roma tinha passado sobre a Cividade de Terroso e tal como os outros civilizados impérios que lhe seguiram, deixou a sua marca de terror e destruição sobre os povos que lhe sustentaram o corpo.


Início

UM PONTINHO AZUL

Mário Martins

A Terra é o pontinho à direita da fotografia tirada pela sonda Cassini em 2006

"Ou estamos sozinhos no Universo, ou não estamos. Qualquer uma dessas hipóteses é assustadora."
Arthur C. Clarke

Vista da Lua, a cerca de 400.000 quilómetros de distância, a Terra é uma Lua grande (uma vez que o seu tamanho é quatro vezes o do nosso satélite), mas visto de Saturno, que fica a uns 1.300 milhões de quilómetros, ainda assim muito para cá de Neptuno ou Plutão, a 5 ou 6.000 milhões de quilómetros, o nosso planeta não é mais do que um pontinho azul.
É nesse pontinho azul que a humanidade, há muitos milhares de anos, geração após geração, época após época, vive o seu fado existencial, entregue a si própria, sem ter com quem falar. Bem temos procurado, de modo sistemático, com poderosos radiotelescópios, sinais de vida inteligente no "éter" galáctico, mas até agora, nada.
Não que não se tenham descoberto já 208 exoplanetas (planetas que orbitam em torno de uma estrela fora do nosso sistema solar), o último dos quais, do tamanho de Júpiter, a 650 anos-luz, mas ou são gigantes gasosos, ou superterras quentes, ou gigantes gelados, todos sem características típicas para a existência de vida, tal como a conhecemos. Por isso, a Nasa acaba de enviar para o espaço o telescópio Kepler, com o objectivo de nos próximos 3 a 5 anos identificar planetas parecidos com o nosso e com uma orbita similar à volta de estrelas "solares".
A hipótese de existirem outros seres inteligentes na nossa galáxia e no universo é, evidentemente, mais provável do que a de estarmos sozinhos. Basta atentar nas espantosas escalas galácticas. No entanto, o limite da velocidade da luz (300.000 km/segundo) imposto à comunicação entre civilizações eventualmente separadas por milhares ou milhões de anos-luz (ano-luz = distância percorrida pela luz no período de um ano), pode explicar a ausência de sinais e de contacto.
Apesar disso, um dia pode muito bem acontecer, como em "Contacto", o livro (que deu filme) de Carl Sagan, que detectemos um sinal. Aí começariam os problemas: desde logo, os governos divulgariam o sinal? E como reagiriam as pessoas? E as religiões? E quem nos representaria, o Secretário Geral das Nações Unidas ou o Presidente dos EUA? Imaginando a hipótese, mais simples, de o sinal provir da área orbital da estrela mais próxima de nós, a Próxima Centauro, "apenas" a 4,3 anos-luz, e de o sinal ter sido emitido recentemente, isto é, há 4,3 anos, e não há milhares ou milhões de anos, (sinal antigo que, por qualquer razão, os radiotelescópios não teriam ainda identificado), será possível o contacto, quer dizer, será possível a comunicação? Tal não é seguro, uma vez que, como os cientistas gostam de dizer, nós só conhecemos a vida que conhecemos, pelo que é possível que outros seres inteligentes sejam fisicamente diferentes de nós, e culturalmente sê-lo-ão de certeza; de qualquer modo, se for possível o uso de uma linguagem comum, não é óbvio que a conversa corra bem, porque se extrapolamos a probabilidade de existência de vida inteligente extraterrestre a partir da nossa realidade, também é razoável extrapolar o nosso carácter dominador, individual e colectivo, para outros seres; isso significaria uma avaliação mútua de forças (ou dos respectivos estádios evolutivos) e, no melhor dos casos, uma coexistência pacífica; de todo o modo, a enorme distância colocaria a humanidade em respeito uma vez que não teríamos tecnologia para lá chegar em tempo útil, se um confronto se verificasse nos tempos mais próximos.
E se, contra toda a lógica, estamos, de facto, sozinhos? Julgo que é praticamente impossível sabê-lo, tendo em conta a vastidão do universo. De toda a maneira, se o soubéssemos, isso não significaria que estivemos sempre sozinhos (poderiam ter existido civilizações que entretanto se extinguiram) ou que estaremos sempre sozinhos (outras civilizações poderão estar ou vir a formar-se).
Como afirmou Arthur C. Clarke, o famoso autor de ficção científica, ambas as hipóteses são assustadoras. Um eventual contacto com seres inteligentes de outra espécie não será a mesma coisa que um encontro entre grupos humanos em diferentes estádios civilizacionais. Mas eu direi, simplesmente, que, à partida, é sempre bom termos com quem conversar.

01/11/09

28

OS CASTRADOS

António Mesquita

George Fluke, Harry Entwhistle, Albert Catflap and Freddy Lozenge in 1886 and 1898
http://www.dioceseofwenchoster.co.uk/choir.htm



O lançamento duma recolha de música escrita para os "castrati", organizada por Cecilia Bartoli, é a ocasião para trazer à nossa memória (e à nossa consciência) alguns factos históricos que só podem chocar a sensibilidade moderna.

A documentação que acompanha os 2 CDs é de primeira água e ajuda-nos a perceber, por um lado, que a voz de Bartoli, por magnífica que seja, é apenas uma aproximação da das vítimas do "coltellino" (a faca com que barbeiros e charlatães cortavam os testículos das crianças por módico preço) e, por outro, que esse sacrifício, de mais de quatro milhares de miúdos por ano, por toda a Itália, dos quais a maioria nem chegava a ser aproveitada pelos teatros de ópera e se via reduzida ao opróbrio e à vagabundagem, não podia deixar de estar presente no espírito dos aficionados de tão cruel "delicatezza", como um motivo que hoje chamaríamos de sádico e o luxo dos luxos, visto que ao amor desse canto se sacrificava o futuro.

A mutilação das crianças em tão grande escala era impossível sem a venalidade dos pais e sem o pretexto das mulheres não poderem cantar nos Estados Papais, conforme o interdito de S. Paulo, na Epístola aos Coríntios: "Que as mulheres guardem o silêncio nas igrejas: porque não lhes é permitido falar."

O Romantismo provocou uma mudança nos gostos do público que afastou os "castrati" dos teatros e, acrescenta Bartoli, "não menos porque a sua condição era cada vez mais considerada não natural e desumana."

Num tempo em que a escravatura florescia ainda nalguns países, que as mulheres não tinham direito de voto e o "pater familias" mantinha um poder incontestável, a tragédia dos "castrati" era apenas mais um sinal de desgraça. Mas vimos num filme recente ("Slumdog Millionaire", 2008-Dany Boyle) como há ainda quem fure os olhos das crianças para mendigarem de modo mais rentável para o "impresario". O amor da música não é melhor pretexto do que a miséria ou a voracidade.

Hoje, como ontem, são bem precários os benefícios da civilização e já nem sequer há tabus que os defendam dos que só recuam diante da superstição e do medo.


…E O INVERNO TÃO PERTO

Mário Faria
/tigermoon.co.uk/

Estamos no Outono. Acompanhamos a mudança da estação de forma sentida. O corpo renova a perda de sinais de vitalidade e a memória, essa, trai-nos com uma frequência que nos atrapalha e inquieta.
Deitamos mão aos fármacos mais apropriados, fazemos análises e rastreios que não raramente são motivo de desassossego e uma motivação para outros tantos exames que servem para encher o bolso aos laboratórios e às farmácias. Não vivemos nem sobrevivemos sem os abençoados químicos, que a maior das vezes são meros paliativos dos quais nos tornamos dependentes.
É a queda da folha. Sentimos a rudeza do tempo e nem estamos a contabilizar as ameaças de pandemias que anunciam . Apesar das rugas e dos elementos caducos que lhe sobejam, a árvore mantém-se garbosamente de pé, camuflando o melhor que sabe os efeitos perversos provocados pelo desgaste do tempo.
E se o Outono da vida é uma fase complicada, a situação agrava-se quando para além dos problemas próprios têm de resolver situações bem mais complicadas daqueles que se situam no topo da (sua) árvore genealógica, bem no Inverno da vida com poucas esperanças de sobreviverem para além da(s) próxima(s) primavera(s).
São pessoas solitárias, com o cardápio repleto de maleitas, que vivem da memória e exigem o reconhecimento e a atenção por se situarem nesse topo hierárquico. A sua dependência é quase tão grande quanto o seu grau de exigência. Assumem o direito de reclamar dos descendentes mais próximos o dever de os apoiar, incondicionalmente. As suas necessidades são ilimitadas e os meios humanos disponíveis são mais que escassos. E sentem-se, na degradação do corpo e do espírito, cada vez mais carentes e insatisfeitas pois o que recebem não mitiga tanta dor.
A situação da 3ª idade é muito complicada e difícil. Os 90 anos são uma meta bonita, mas o declínio está lá e não pára. Os que estão dispostos a colaborar raramente estão disponíveis e, por isso, sobram muito poucos e são sempre os mesmos para ajudar. E quando acontece serem os que já estão numa fase adiantada do Outono, raramente encontram forças para resolver tudo e apagar todos os fogos.
Então acontece que a relação que deveria ser pautada pelo amor e afectividade, resiste mal a este convívio entre o sofrimento permanente (real ou forçado para que a dor seja reconhecida sem qualquer dúvida) e o labor de apaziguamento que fica a cargo exclusivamente de quem não tem forças, jeito, vocação e paciência suficiente para o fazer de forma cuidada. E, por muito que se faça, é reconhecível que se faz sempre menos do que se devia, mas mais do que se pode. Ou dito de outra forma : quem recebe acha sempre pouco, quem dá acha sempre muito.
Felizmente que no meio da tempestade de um inverno rigoroso, surgem boas abertas. A bonança sossega e a vida nesses momentos toma um sentido mais sereno, mais solidário e mais afectivo. A questão dos direitos e deveres não está tão presente e a proximidade é quase tão familiar quanto foi em décadas de normalidade.
Sabemos que esses momentos não são duradoiros, mas são saborosos. O Outono que sabe que caminha inexoravelmente para o Inverno, quer ter a sabedoria e a paciência para ajudar quem sofre : de dor e de medo. Mas, como é difícil !

EM JALALABAD PARA SEMPRE

Alcino Silva
Jalalabad

Não recordo o momento em que conheci o jornalista, esse instante em que me deixei cativar pela escrita, pela riqueza das suas reportagens e pela grandeza dos seus valores suportados por esse caminhar humano através da história. Quando procuro no tempo da memória, só consigo reviver as montanhas brancas dos cumes dos Himalaias que entravam pelas janelas do IL62 quando sobrevoava as estradas da rota da seda, mas certamente que esse não foi o momento. Certeza apenas uma, foi com ele que cheguei a Cabul, a essa cidade escondida entre montanhas que se erguem altivas e serenas sobre o vale onde em tempos remotos o homem se sedentarizou. Olhei em redor com aquele misto de admiração e reflexão, tão comum nos seres humanos quando são colocados num estádio cultural diferente do seu. Com aquele homem da imprensa aprendi a assimilar o que contemplava, antes de concluir. Em cada rua percorrida, em cada rosto que olhava, em cada gesto que presenciava, percebia a riqueza da diferença. O novo penetrava-me o pensamento com essa rapidez que nos deixa estonteados e as velhas ruas da cidade, esse espaço antigo, perdido num tempo impensável, deslumbrou-me de tal forma que me deixou estático, nessa imobilidade que nos provoca o encanto de tudo aquilo que nos aparece como existindo no domínio da fantasia. Acordei daquele torpor, com outro instante de fascínio. Por sobre a algazarra das vozes, por entre o movimento desordenado das gentes, surgiu o cântico do muezzin apelando à oração, à veneração a Deus, a esse Altíssimo e Misericordioso ser que vela sobre os homens. Como uma ave planando sobre a terra, com o vento a alterar a tonalidade dos sons, era como se o sol da manhã descesse em voo lento sobre Cabul.
A presença armada não era muito visível, mas sentia-se o pulsar daquela revolução que procurava arrastar o Afeganistão para o exterior de tempos medievais. Percebia-se no rosto dos jovens, no olhar das mulheres que recuperavam a dignidade e em todos aqueles que procuravam o infinito para além das montanhas que cercavam a cidade. Havia uma excepção nesse fervor de transformação, representada por esses guerrilheiros, que se escondiam no interior daquelas encostas, de Deus, diziam eles, mas não daquele que saía em apelo da alma do muezzin que no parapeito do minarete chamava os crentes em apelação divina. Aquele Deus, era outro mais violento, construído pelos homens, não à sua medida, mas antes, dos seus interesses.
Quando a primavera se aproximava, o jornalista segredou-me que viajaríamos para Jalalabad, aproveitando o facto da guerrilha ainda ter dificuldade em percorrer as veredas nevadas das montanhas. A saída da cidade deixou-nos essa sensação de esmagamento perante a grandiosidade da paisagem, da pedra nua, quase sem árvores, sem vegetação, antes a brancura da neve, o frio gélido da temperatura e o tumulto das águas do rio Cabul que nunca soube que mar procurava. Os túneis e os precipícios derretiam-nos o olhar num misto de fascínio e temor. Tudo o que era humano, resultava minúsculo naquele cenário avassalador. As extensas rectas do planalto que nos avisavam da proximidade do destino, faziam-nos transportar para um mundo que apenas sabíamos existir nos sonhos da imaginação. Nunca cheguei a conhecer a razão, mas não regressaria de Jalalabad.
As encostas despidas perderam-se nos últimos desfiladeiros onde a estrada, rasgava a pedra, comprimida pelo curso do rio. O ruído das águas apressadas num misto de verde e cinzento eram o único som a quebrar aquele silêncio imposto pela grandeza da natureza. A paisagem abre-se e a cidade acolhe-nos na verdura das suas árvores, na riqueza dos seus jardins, na beleza das suas flores que nos acolhem com as suas cores lembrando-nos a poesia milenar das antigas terras da Bactria.
A jornalista chegou muitos anos depois. A revolução fora vencida pela intolerância dos homens que dizem falar em nome de Deus. Na verdade, apenas falam em nome da sua própria ignorância, da sua incapacidade em compreender a humanidade, dos interesses dos senhores que recusam, mesmo sem o saber, abandonar uma época que já não existe. A cultura, as tradições, os valores não são preservados pelo fanatismo, mesmo quando exercido em nome de um Deus que os homens imobilizaram em medievais tempos e em subterrâneos inquisitoriais. A sua preservação resulta antes da liberdade do pensamento e da beleza dos gestos humanos expressos em sentimentos que não se podem esconder, nem por trás de véus, nem na renúncia à dignidade. Jalalabad nunca se rendeu a estes homúnculos. A revolução tombou com a dignidade dos homens que olham o infinito e agarram as estrelas como palavras com que aprendem a escrever futuro. A cidade entregou-se por acordo e foi dessa forma que mergulhou nas trevas de uma guerra e de um tempo que tolda de secura a garganta da história. Seduzido pela beleza da sua cultura, pelos seus jardins repletos de poesia, pelas Primaveras em que a neve derretida tombava em caudalosas águas, pela resistência à estupidez de uma revolta sem sentido, deixei-me ficar para esse sempre sem fim, bebendo séculos da vida humana nessa terra milenar que os rios da história atravessaram de forma sucessiva. Despedi-me da jornalista na saída da cidade, onde as cores tendem a unificar-se no tom ocre da montanha, junto à barragem que o Cabul e as águas que descem dessas neves que não derretem, alimentam. As palavras esgotaram-se por momentos. Se voltar, não me procure entre os soldados mercenários da NATO, disse-lhe. Procure-me antes entre os homens livres, no bazar entre as cores e os aromas, persiga o canto que desce das mesquitas, ou entre os livros de antigos poemas em dari. Se não me encontrar, não desista. Procure ainda entre as rosas que as mulheres afegãs guardam no interior dos seus olhos, escondidos atrás desses panos, mas que cintilam como as estrelas do universo.

VÉNUS DE MILO

Mário Martins
A Vénus de Milo (Louvre)



Há dias, ao ver na televisão um documentário inglês sobre o ideal da beleza feminina expresso pela arte da escultura, experimentei de novo a sensação de não estarmos, de facto, a ver o passado tal e qual era quando admiramos a ruína de um templo ou o que resta de uma estátua de civilizações antigas.

Tive já essa sensação quando, há 16 anos, desembarquei no continente grego, armado com as leituras de alguns clássicos gregos e o meu imaginário. Maravilhei-​me com Delfos: meia-​dúzia de colunas delicadas ao sol abrasador, a bancada de um anfiteatro e um museu, entre montes não menos delicados, sobre o vale sinuoso a perder de vista. Mas há cerca de 2500 anos Delfos era, de facto, uma cidade de pessoas e casas com telhado e um grande e afamado templo, o oráculo, onde as sacerdotisas faziam as previsões mais convenientes. O que nós hoje admiramos é outra Delfos, a beleza física de algumas colunas nuas no meio de nada, uma Delfos ideal, de gregos antigos merecidamente ideais, pelo seu legado artístico, científico e filosófico, uma Delfos em que a passagem de dois milénios e cinco séculos depurou o seu carácter sagrado.

O autor do documentário mostrava-​nos, no museu do Louvre, em Paris, a mais famosa estátua da deusa grega do amor e da beleza Afrodite (ou Vénus, sua sucessora romana), a chamada Vénus de Milo, dado que foi acidentalmente descoberta em 1820 por um agricultor da ilha grega de Melos (ou Milos), e que remonta ao século II a.C.. O que nós vemos e admiramos hoje é uma estátua de dois metros de altura em mármore branco quase sem braços, mas, sem dúvida, de uma excepcional beleza e harmonia de formas. No entanto, a estátua original tinha, naturalmente, braços, e segundo o renomado historiador de arte Ernst Gombrich "pertenceu provavelmente a um conjunto de Vénus e Cupido e foi idealizada para ser vista de lado (Vénus estendia os braços para Cupido)"; além disso, como foi salientado no documentário, os gregos costumavam pintar as estátuas.

Demasiadas nuvens se interpõem entre a realidade viva do passado e a visão futura, para permitirem a sua apreensão objectiva pelos sentidos de hoje: a ruína das coisas, a ausência do contexto, os diferentes caldos civilizacionais e culturais, o imaginário individual. Uma ruína ou uma estátua que resistiram à acumulação dos séculos adquirem uma realidade própria que os nossos sentidos só idealmente podem ligar às suas origens. Apenas o estudo especializado nos pode dar uma aproximação, não mais do que isso, do que foi, possibilitando a sua reconstituição virtual, mau-grado esta chocar com este modo quase sagrado como nos ligamos aos nossos antepassados.

Início

O VIOLINO

Manuel Joaquim
http://www.cosmosmagazine.com


Quando começou a dar os primeiros passos e a ouvir os sons que o rodeavam, um belo dia, descobriu que em cima da mesa da cozinha estava uma grande caixa cheia de botões onde seu Pai, à noite, depois do jantar, mexia e logo se ouvia homens e mulheres a falar e sons que o faziam sonhar.

Mais tarde, sem que a Mãe o visse, punha-se de joelhos num banco e fazia o que aprendeu ao ver o Pai. Ligava o rádio e ouvia, extasiado, as palavras e a música que passavam através do pano e tentava mirar o estranho interior do aparelho.

Alguns dias mais tarde, verificou, com os seus próprios olhos, depois de o Pai ter tirado a tampa, que o rádio não tinha ninguém lá dentro. Tinha lâmpadas acesas e muitos fios e que era através deles que os sons eram transmitidos.

Foi assim, de joelhos em cima de um banco e debruçado sobre a mesa da cozinha, muito juntinho àquele precioso rádio, que começou a gostar de ouvir musica, a aprender, através dos sons, a conhecer o nome dos instrumentos que nunca tinha visto, a maravilhar-se com o som do violino.

Não descansou sem que o Pai lhe mostrasse um violino numa tarde de passeio dominical. Não conseguiu mais do que isso, pois o preço e a aprendizagem eram inacessíveis.

O seu amor pelo violino não morreu. Guardou-o na mais profunda da sua intimidade.

Já homem, enamorou-se por uma jovem, linda, simpática e bem cheirosa, mas, com o tempo, o deixava triste e infeliz, porque o brilho de ambos foi-se esbatendo e desapareceu.

O fim deste amor fez renascer o outro que estava bem guardado. Como se estivesse loucamente apaixonado, foi comprar a toda a pressa um lindo violino, dentro duma caixa de pele, forrada a veludo vermelho, e começou a ter lições de música para aprender a tocar.

Com juras de grande amor e fidelidade nunca mais abandonou o seu violino. Acariciava-o com grande ternura, falava com ele quando se sentia só, acompanhava-o para toda a parte e na roda dos amigos alegrava-os com os seus belos sons.

Num certo dia, em viagem, faltou a gasolina no carro. Para quebrar as arrelias dos amigos que acompanhava, sentou-se numa pedra, à beira da estrada, e começou a tocar o seu violino. Entretanto, mais gente se aproximou para ouvir tão linda música, até que um voluntário prontificou-se a ir buscar gasolina à bomba mais próxima. O violino tinha semeado flores nos corações presentes.

Há uns tempos deixou-se de ouvir o violino. A professora do yoga, Dinorah, disse-nos:

" O Senhor Dias foi-se".

O violino estava agora sem o seu companheiro de muitos anos. Estava triste e a envelhecer sem que ninguém lhe desse vida.


Início

01/10/09

27

E ASSIM SE ABATEM OS MITOS!

Mário Faria


Ouvi, ontem, o nosso Presidente. Muito crispado, irritou-me o tom e o conteúdo. O homem é arrogante até dizer chega. E medíocre. Não permito que me tirem o que é obra minha . Vou contar tudo direitinho. Confesso que fui o autor e mandante das escutas e da vigilância informática sobre a casa do Presidente.

Primeiro vou explicar o plano e sua execução e depois quais os motivos que me empurraram para este procedimento.

1 – Plano : Execução

Falei à Svetlana (licenciada em engenharia informática e actualmente empresária de um bar que está na moda) para lhe dizer que precisava de um serviço de espionagem electrónica. "Não contes comigo. Não posso arriscar." Deu-me um nome : Vespa. Vive em Lisboa. Um génio da informática. A russa prepararia o encontro. Telefonou-me ao princípio da noite e disse-me que tinha combinado o nosso encontro para o Elefante Branco (EB), em Lisboa, a partir das 23,30 H do dia seguinte, e que o meu nome de código era Peste.

Segui no Alfa Pendular para Lisboa, em segunda classe para não dar nas vistas, onde cheguei cerca das 20H. Jantei frugalmente, relaxei um pouco e dirigi-me para o EB. Cheguei ás 23h. Entrei com o meu cartão Vip. Havia pouco movimento e as meninas escasseavam. Sentei-me numa lugar que me permitisse controlar a entrada . Pedi um irish coffee para ajudar à espera.

Ás 11,30 H entrou um homem ainda jovem : era quase careca, com uma barba loura, de jeans e casaco de couro. Pelas coordenadas que me foram dadas, parecia o homem que esperava. Levantei-me e perguntei :

- Vespa ?

- Peste ? Trocámos um aceno de cabeça.

Saí com a promessa de voltar ao (EB) no calor da noite, quando o ambiente aquece. Estava uma velha carrinha VW, estacionada do outro lado. Vespa apresentou-me o sócio Bob the Cat. Subimos para o espaço de carga e sentamo-nos em bancos dobráveis presos aos lados da carroçaria. Enquanto Bob navegava entre o tráfego de Lisboa, acertámos o negócio.

- Pelos bitaites que a Svetlana me passou, o que pretendes tem a ver com um serviço crashbang. Não é ?

- Quero escuta telefónica e controlo de e'mails dum computador, durante Agosto e Setembro. Se isso é crashbang, é isso mesmo que quero. Trata-se da casa e do computador do Presidente. Quero saber tudo que possa ser suficientemente relevante para influenciar o relacionamento entre o presidente, o governo, o partido no poder e a principal força da oposição. Achas que consegues ?

- É canja, disse Vespa.

Acertamos as condições e outras minudências, nomeadamente como se faria o trânsito da comunicação entres as partes : Vespa e Peste.

2 – O Plano : Objectivos

Criei esta plano para avaliar a saúde da nossa democracia e o estofo dos seus principais interpretes. À media que a informação me chegava de Vespa ia seleccionando os assuntos com interesse para a minha tese e depois bastava seleccionar um conjunto de computadores de bons rapazes, e fazer-lhes chegar a informação e contra-informação que ia catalogando e enviando segundo uma ordem lógica, o que foi conseguido sempre por intermédio de Vespa e de Bob. Contava que pudesse causar alguma confusão, mas nunca me passou pela cabeça que isto desse neste tsunami institucional, onde não consta haver muitos inocentes, com o Presidente completamente desvairado, possesso com o PS e Sócrates. Estalou-lhe o verniz (democrático) e provou que não tem estofo para ocupar o lugar. E assim se abatem os mitos !


Início

O BLOQUEIO A CUBA

Manuel Joaquim

http://further-left-forum.blogspot.com



No passado dia 23 de Setembro foi inaugurada em Nova Iorque a 64ª Assembleia Geral das Nações Unidas com a participação dos 192 países membros.

O novo Presidente dos Estados Unidos, BaracK Obama, na sua primeira intervenção "apelou para uma nova era de compromisso mundial e que só com a cooperação de todos será possível vencer os difíceis desafios globais" palavras muito saudadas, conforme se pôde ler em praticamente todos os jornais que se referiram ao acontecimento.

No entanto, a generalidade desses mesmos jornais e da restante comunicação não noticiaram que o mesmo Barack Obama tinha decidido no dia 14 do mesmo mês de Setembro prolongar o embargo a Cuba, tal como fizeram os anteriores presidentes, apesar dos apelos de muitas e várias organizações internacionais, designadamente o Grupo de Defesa dos Direitos Humanos da Amnistia Internacional em virtude de confrontar direitos humanos básicos, como é o direito à saúde.

É importante lembrar que nas últimas dezoito Assembleias Gerais da ONU o bloqueio efectuado pelos Estados Unidos A Cuba foi sistematicamente repudiado por um número crescente de países, tendo atingido no ano passado o repúdio de 185 países.

O jornal espanhol El País, do passado dia 18 de Setembro, noticiava que Cuba e os EEUU estavam a dar pequenos e tímidos passos no sentido da normalização das suas relações. E referia que uma simples carta enviada de Havana para Miami, que ficam a 145 quilómetros de distância demora largos meses a ser entregue e que é frequente que nunca chegue ao seu destino.

Muitas pessoas ouvem falar do bloqueio a Cuba mas têm dificuldades em precisar em que consiste e as suas consequências tanto para Cuba como para todos os países com quem negoceie directa ou indirectamente.

O bloqueio imposto pelos EEUU contra Cuba vai fazer 50 anos. É económico, comercial, financeiro, científico, cultural e desportivo e teve como objectivo deliberado provocar a fome, a miséria, a doença e o desespero da população cubana para destruir o processo revolucionário. O bloqueio foi sempre acompanhado de actos de sabotagem, da disseminação de pragas para destruição das culturas agrícolas e das próprias pessoas através de doenças. Pelo que se sabe até ao momento, os 10 governos sucessivos dos EEUU nada mudaram, bem pelo contrário, verifica-se o reforço político, administrativo e repressivo da legislação que tem sido invocada e aplicada.

- Lei de Comércio com o inimigo (TWEA). Foi promulgada como medida de guerra em 1917 para a restrição do comércio com nações consideradas hostis. A sua aplicação foi alargada posteriormente para dar poderes ao Presidente. As primeiras regulamentações do bloqueio contra Cuba, em 1962, baseiam-se nesta lei.

- Lei de Assistência Exterior. Esta lei, aprovada pelo Congresso dos EEUU e promulgada em Setembro de 1961, autoriza o Presidente a estabelecer e manter um embargo total sobre o comércio entre os Estados Unidos e Cuba e proibiu o oferecimento de qualquer ajuda a Cuba.

- Lei de Administração das Exportações (EAA). Aprovada em 1979 deu poderes ao Presidente para controlar as exportações e reexportações de bens e tecnologia.

- Lei para a Democracia Cubana (CDA). Esta lei foi aprovada em Outubro de 1992 pelo Presidente Bush pai e é conhecida como a Lei Torricelli. Reforço das medidas económicas contra Cuba, dando extraterritorialidade ao bloqueio. Proibiu às empresas norte-americanas em terceiros países realizar transacções com Cuba ou nacionais cubanos e a entrada em território norte-americano, durante um prazo de 180 dias, dos navios de terceiros países que visitem portos cubanos, além de outras restrições.

- Lei para a Solidariedade Democrática e a Liberdade Cubana. Esta lei foi aprovada em Março de 1996 pelo Presidente Clinton e é conhecida como a Lei Helms-Burton. Dificultar o investimento estrangeiro em Cuba e internacionalizar ainda mais o bloqueio. Limitou as prorrogativas do Presidente para suspender esta política e ampliou o seu alcance extraterritorial. Proibiu a entrada nos EEUU aos dirigentes de empresas estrangeiras (e seus familiares) que investissem em propriedades "confiscadas" em Cuba e estabeleceu a possibilidade de apresentação de acções judiciais nos tribunais dos EEUU.

- Regulamentações de Administração das Exportações (EAR). Entre várias, a proibição das exportações para Cuba salvo caso das excepções que apareçam especificadas na própria regulação ou aquelas que são autorizadas através de licenças outorgadas pelo Bureau de Indústria e Segurança, do Departamento de Comércio. AS regulamentações são estabelecidas pela Lei de Comércio com o Inimigo e pela Lei de Administração das Exportações.

Este conjunto de leis e regulamentações é demonstrativo de que nenhum bloqueio tem sido tão abrangente e tão brutal contra um Povo como o que os Estados Unidos da América tem mantido contra Cuba e o seu Povo. De acordo com a Convenção de Genebra de 1948, é um verdadeiro de acto de genocídio. E de acordo com convenções internacionais é um acto de guerra económica. O bloqueio afecta legítimos interesses de empresas e cidadãos de terceiros países e a soberania de muitos Estados.

Cuba é um país pobre, do chamado terceiro mundo. Os recursos disponíveis são limitados e as suas necessidades e desejos são ilimitados. Por isso, existe um problema económico, aliás existente em todos os países do mundo. Daí a razão da Economia. E para responder aos problemas das necessidades existe o comércio internacional. O bloqueio pretende destruir o comércio internacional com Cuba.

Segundo cálculos efectuados até Dezembro de 2008, os prejuízos directos de Cuba ultrapassam os 96 bilhões de dólares, mas a preços actuais atingem 236 mil 221 milhões de dólares.

Ao arrepio do crescente movimento dentro e fora dos Estados Unidos para que seja eliminada esta política, o Vice-Presidente dos Estados Unidos, Joseph Biden, em declarações efectuadas na Cimeira dos Líderes Progressistas, realizada no Chile em 28 de Março de 2009, referiu que "Os Estados Unidos da América manterão o bloqueio como ferramenta de pressão contra Cuba".

Como conciliar toda esta política com as declarações de Obama de que quer uma nova ordem de cooperação?


Início


OS INTELECTUAIS E A SUA DEMOCRACIA

Alcino Silva


O livro chegou às livrarias com muito alarido, muitos anúncios, muitas palavras elogiosas e, se hoje em dia tais atributos devem gerar em nós o activar das defesas do pensamento, não significa que a curiosidade e o desejo de conhecer não nos levem à procura do que parece ser diferente. Uma ou duas vezes olhei de soslaio para o "Um Mundo sem Regras" deste Amin Maalouf que nos havia mostrado "As Cruzadas vistas pelos Árabes" e fui deixando para ocasião próxima o conhecimento do que nos diz este intelectual francês de nascimento árabe. Até que mão amiga me trouxe à leitura o pensamento deste escritor que já foi ou ainda é jornalista. Tenho de confessar que a desilusão nasceu com as primeiras linhas. Percebi de imediato, não por inteligência minha, mas pela clareza do discurso que não nos vinha trazer esperança mas apenas o consolo da servidão, dessa que se aloja em nós e nos mostra um mundo de vencidos com a sorte já trazida nos genes da nascença. Acresce que nem sequer é novo o discurso. Já outros, noutro tempo e noutras crises do capitalismo nos trouxeram este discurso amaciador. Sim, capitalismo, a palavra que o poder descobriu no ano transacto. Guardada em gavetas sebentas, voltaram a reeditá-lo para explicar essa trombada que se abateu de novo sobre os pobres, sempre sobre os pobres e de alguma forma sobre todos aqueles que lhes estão próximos, mesmo que a vida lhes possa proporcionar algum conforto material e espiritual. Maalouf utiliza apenas cinco vezes a palavra capitalismo, a medo e quase escondido. O que gosta de falar mesmo este intelectual francês que se serve do nascimento e adolescência libanesas para melhor se colocar numa posição de crítica ao mundo árabe, o que gosta mesmo de falar é do Ocidente e da comunidade internacional. Ah, senhor Maalouf as coisas que poderíamos contar do nosso Ocidente e da comunidade internacional. Creio que sabe do que falo, mesmo não dizendo. Diz-nos a certo passo, que "Após a queda do Muro de Berlim, soprava um vento de esperança no mundo". Para quem soprava esse vento? Não me diga que acredita no que escreve. Não consigo levar tão longe a sua ingenuidade. Ao longo das quase 200 páginas do livro coloca-se no pedestal de uma pretensa esquerda que por cima das calamidades, das desgraças, das violências, dos dramas, que esta casta que nos governa provoca no mundo, para perguntar o que pensam uns e o que pensam outros, ou dito talvez de outra forma, o que pensa a esquerda e o que pensa a direita. Sim, pois, que eu Amin Maalouf aqui estou para com o meu discurso de alta moral dizer o que está errado no mundo e o que está errado na acção de uns e de outros, enquanto no seu conforto e no seu comodismo, vai usufruindo das migalhas que essa casta vai deixando nas margens do caminho. Enquanto leio este "Um Mundo sem Regras" o canal Odisseia vai passando o documentário sobre os acontecimentos no Chile há 35 anos atrás. A vitória de Allende, a esperança, sim a esperança senhor Maalouf, mas dos pobres, não dos pobres de espírito como o são alguns intelectuais ou seus imitadores, mas daqueles que são capazes de sonhar com um mundo diferente, mais justo, mais equilibrado, mais equitativo, sem Ocidente e sem comunidade internacional, esses pobres a quem Allende passou a distribuir um litro de leite por dia. Sabe senhor Maalouf o que pode ainda hoje significar um litro de leite por dia? Não sabe e se já se apercebeu, certamente que disfarça como o faz no seu livro. E finalmente o golpe, os militares chilenos utilizando as armas para defender os interesses do Ocidente e da comunidade internacional, os mesmos interesses pretorianos que vão sustentar 25 anos no poder esse excremento que deu pelo nome de Augusto Pinochet. Diga-me senhor Maalouf que fala horrorizado dos mais de 3 000 cidadãos dos EUA que morreram nas Torres Gémeas, porque não diz uma única palavra sobre os mais de 30 000 chilenos que morreram nas prisões, desapareceram ou ficaram prisioneiros e exilados durante largos e largos anos, também no dia 11 de Setembro? Sim, é verdade o senhor diz que há certas coisas que não deviam ser feitas mas com que condescendência o diz, o menciona. O resto são críticas ao mundo árabe unindo na mesma expressão essa elite bastarda que está no poder e faz parte do seu Ocidente e da sua comunidade internacional e aqueles que mesmo seguindo caminhos errados, quem não erra quando se percorrem caminhos novos?, procuram uma estrada diferente para as populações árabes. Que cómodo que é o seu discurso. Pena é que o canal Odisseia nos traga novo documentário, desta vez sobre as crianças de Faluja que nascem deformadas, monstruosas nas suas formas e feições para desespero das mães que se recusam a gerar filhos para não viverem esse drama de amamentarem crianças disformes que foram deixadas pelas bombas do seu Ocidente e da sua comunidade internacional plena de liberdade e de liberdades.

Não, o meu mundo não é nem podia ser o seu. O senhor Maalouf é um escritor famoso, conceituado, ganha certamente muito dinheiro, tem mesa farta e permite-se dar recados ao mundo, sobretudo ao mundo que obedece. Sou tão só uma pessoa simples que do mundo apenas pode escutar e não deixarei de reflectir nas suas palavras, mas não se iluda, pois estou crente, sem fé, apenas acredito, que muitos outros como eu seguirão outro caminho, não o da obediência, não o da sujeição, não o do pensamento castrado ao conforto e ao comodismo de alguns valores materiais. Com muitos erros, muitos defeitos, imensas imperfeições, mas sobretudo, com muitos sonhos e muitas utopias a gerar certezas continuo a escutar vindo dos subterrâneos da Terra, da lonjura dos tempos, talvez até do infinito das estrelas, vou escutando todos os dias provindo do fundo da estrada da vida, a voz doce dessa Simone brasileira murmurando em poema cantado,

"caminhando e cantando e seguindo a canção (…) Vem, vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer".

Início

MEMÓRIAS DA MEMÓRIA

Mário MartinsHadrien (Imperator Caesar Traianus Hadrianus Augustus: 76/138)


Pobre almita tão meiguita
Deste corpo sociazita
Que para uns duros lugarzitos,
Escuritos, desertitos,
Sozinha ao presente vás
Ai nunca mais brincarás…
P. Élio Adriano, Imperador

Foi em mais uma deambulação por terras de Espanha, esse país ímpar em que, por via de regra, as pessoas não respondem que são espanholas mas sim andaluzas, bascas, catalãs, galegas e por aí fora, que fortuitamente li que os imperadores romanos Trajano e Adriano, pai e filho adoptivo, haviam nascido em Itálica, nos arredores de Sevilha. Já não me lembrava, eu que há uns bons pares de anos me maravilhei com esse livro extraordinário de Marguerite Yourcenar "Memórias de Adriano"*, mas não há dúvida, está lá, logo na página 12: "mas lembro-me das minhas corridas de criança nas colinas secas de Espanha".
É com o relato de uma vulgar consulta médica mas onde, a um tempo, desfilam a tragédia humana e a elevação literária, que o livro começa.
Meu caro Marco (Aurélio), escreve ele pelo punho de Yourcenar:
"Fui esta manhã a casa de Hermógenes, o meu médico, que acaba de regressar à Villa depois de uma viagem bastante longa pela Ásia. Devia ser observado em jejum; tínhamos marcado a consulta para as primeiras horas da manhã. Deitei-me num leito depois de ter tirado o manto e a túnica. Poupo-te a pormenores que te seriam tão desagradáveis como a mim próprio e à descrição do corpo de um homem que avança na idade e se prepara para morrer de uma hidropisia do coração. Digamos apenas que tossi, respirei e retive o fôlego conforme as indicações de Hermógenes, alarmado, a seu pesar, pelos progressos tão rápidos do mal e disposto a atribuir as culpas ao jovem Iolas, que me tratou durante a sua ausência. É difícil permanecer imperador na presença de um médico e difícil também conservar a qualidade de homem. O olho do prático só via em mim um montão de humores, triste amálgama de linfa e de sangue. Veio-me esta manhã, pela primeira vez, a ideia de que o meu corpo, este fiel companheiro, este amigo mais seguro, melhor conhecido por mim que a minha alma, não passa de um monstro dissimulado, que acabará por devorar o seu dono (…)".
Dezanove séculos depois, já no ano I do 3º. milénio da nossa era, pude ir a sua casa, a Villa Adriana, ali nas colinas de Tivoli, nos arredores de Roma, que dessa vez imperialmente ignorei, emocionar-me entre as suas ruínas, com o livro debaixo do braço. Guardo como um tesouro esse momento único e sei que voltarei a ler o livro, eu que já o li e reli.
* Editora Ulisseia


NÃO DEVEMOS DESESPERAR

António Mesquita
L’usine Renault-Billancourt (Christin/Goetzinger/Dargaud)


"Il ne faut pas désespérer Billancourt"

(slogan político)


Billancourt é um subúrbio a oeste de Paris, onde se encontra a fábrica da Renault, palco de grandes lutas operárias, como, no princípio do século XX, as que se opuseram à introdução do método "taylorista".

Aquela frase tem uma origem literária (a peça de Jean-Paul Sartre: "Nekrassov"), embora com um sentido contrário ao que lhe foi dado mais tarde. Na peça, a personagem de um "renegado" pretende mesmo desesperar os que acreditam na Revolução, descrevendo a União Soviética com as cores mais negras. Ulteriormente, são as cores da realidade (os crimes do regime e os campos de concentração) que não se tem o direito de revelar para não desmoralizar a luta operária. Esta última versão é, erradamente, também atribuída a Sartre.

A ideia é a mesma do argumento, tantas vezes utilizado entre nós, de que o importante é "tratar dos nossos problemas", sem nos deixarmos enredar nas consequências que a doutrina possa ter tido noutro lugar. A dúvida, na medida em que suspende a acção, é o maior dos perigos. Mas merece o belo nome de acção, o que se faz de olhos fechados? Ou estaremos antes no reino da mecânica?

A dúvida é inerente ao pensamento vivo. Contra ela, apoiados nela é que mantemos o contacto com o tempo e a mudança, com a realidade, enfim. "Não devemos desesperar Billancourt" é, pois, um slogan que revela a face dogmática e defensiva duma doutrina que já vive só dentro das suas muralhas.

Querem alguns que a dúvida ganha o seu carácter da vontade com que a exercemos. Se não quisermos agir, a dúvida fornece-nos o perfeito álibi. Mas esta pode ser uma escolha legítima se à lucidez se atrelar a impotência.

Se queremos, porém, a acção, pode perguntar-se se dar lugar à dúvida não é querer e não querer ao mesmo tempo. Em nome da eficácia (a curto prazo), deveríamos então simplificar ao extremo o que está em jogo e lançarmo-nos no desconhecido. Parece-me que é isto o que acontece quase sempre.

Nesse sentido, impõe-se uma espécie de sequestro da realidade enquanto dura a acção, e os partidos políticos são a moderna instituição desse sequestro. Com o seu código exclusivo e o espírito colectivo do seu ambiente que se torna o único meio do pensamento, eles são uma espécie de máquinas para a acção.

E voltamos à questão de saber se esse funcionamento se pode confundir com o verdadeiro significado da palavra acção.


01/09/09

26

OS CÂNTICOS NEGROS

Alcino Silva


Gosto muito da tua pequena cidade. Tem história, ruas estreitas e aquelas pedras seculares que guardam a passagem dos Homens pelo tempo, e o rio, lento apesar da proximidade do mar, com os seus estaleiros marginais onde juntavam madeira trabalhada que projectavam na imensidade do oceano na procura da aventura, do novo, da descoberta, e ainda aquele soberbo mosteiro, altaneiro sobre a margem direita, dominador do espaço e dos povos envolventes. Apesar desse fascínio não parei, segui para norte na peugada dos teus passos e por aí me instalei. Também tu o fazias nas manhãs certas da tua permanência. Tinhas mesa reservada naquele Café tão emblemático. Protegido pela coluna, escrevias e deleitavas o olhar pelo horizonte oceânico na procura de inspiração que te ajudasse a construir as palavras que tinhas para nos legar. Esse espaço acabou depois de teres partido e nos teres deixado neste vazio. Agora já não nos trazem café, é antes um espaço de cultura, bem, diria mais, de leitura. Mas reservaram-te a mesa. Mantêm-na como se, todos os dias, chegasses e prosseguisses o teu labor. Têm lá o teu nome e a tua fotografia e deixaram a chávena do café para que não se atrevam a ocupar o teu lugar. Afinal, quem o poderia fazer? Bem, outro dia, fizeram-no. Um desses leitores de Verão. Sentou-se e queria deslocar a tua chávena de café, o tolo. Sento-me por ali, próximo, para poder conversar contigo, trocar ideias com os teus poemas. Deitei-lhe um olhar severo, mas não reagiu, manteve-se sentado com o seu jornal desportivo aberto. É certamente um desses muito democratas que andam por aí, e votam, democraticamente como é natural e legítimo, e assim tudo vai ficando como dever ser. No teu tempo não haviam democratas destes, nem dos outros, sim desses que te venho falar, mas fica entre nós, como todos estes diálogos que aqui temos no intervalo da minha leitura e da tua escrita. Sabes que vivo com o teu "Cântico Negro", já to disse. Ajuda-me a encontrar caminhos, sobretudo quando tropeço na estrada com seráficos democratas que me sorriem ao mesmo tempo que me dizem, "com olhos doces,/estendendo-me os braços, e seguros/de que seria bom se eu os ouvisse/quando me dizem: "vem por aqui"!" Pedi-te conselho uma vez, recordas? E olhamos o mundo, de ontem, de hoje e, sobretudo, o de amanhã, o que desejamos, e sabemos que chegará, pese embora, os caminhos escuros e as agruras das esquinas, pelo que não os contesto, olho-os "com olhos lassos", "cruzo os braços", e simplesmente "nunca vou por ali…". Não compreendem que arrastados para os seus medos, os seus fantasmas nocturnos, perdidos nas suas teorias estreitas deixaram de perceber os contornos das grandes avenidas do futuro, só vislumbram atalhos estreitos e rendem-se ao conforto de um banco acolchoado de jardim. Ao longe, acenam-me, dolentes, na preguiça de prosseguir uma caminhada com percurso de estafeta. Chamam-me, escondem a voz entre a concha das mãos e dizem-me "vem por aqui". Sorrio pela sua insistência e digo-lhes que o meu tempo é continuar. "Prefiro escorregar nos becos lamacentos, /redemoinhar aos ventos,/como farrapos, arrastar os pés sangrentos,/a ir por aí…". Suspenderam a viagem da vida, confortam-se uns aos outros nessa imobilidade temporal e crêem que a História parou com a sua própria vontade, cegos e surdos a um movimento que prossegue na procura do novo e do desconhecido. Insistem em cada dia no seu chamamento sedutor, repetindo para consolo próprio, "vem por aqui"! Só lhes posso responder com as tuas palavras, pois tal como tu, também a mim só "Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém" E digo-lhes "Ide! tendes estradas,/tendes jardins, tendes canteiros,/tendes pátrias, tendes tectos,/ e tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios./Eu tenho a minha loucura!", os meus sonhos, se quiserdes as minhas utopias, minhas e da Humanidade que me projecta que me agarra nesse ancestral sonho de liberdade, de justiça, de dignidade e vós acenais-me a ficar parado na dolência da servidão que se aloja no pensamento dos homens derrotados nas suas ideias. Mas não, não é possível. Em vós corre "sangue velho dos avós,/e vós amais o que é fácil!" Por mim, "amo o Longe e a Miragem,/amo os abismos, as torrentes, os desertos…". Ah, meu poeta, meu escritor de Deus e dos Homens, lembro-me de ti quando me acenam e resisto, brinco com a proposta e lembro-me do outro poeta, transmontano, "a honra era lutar" e creio que pretendem de mim essa desonra de me acolher aos salões aquecidos dos ladrões. Ouço-os naquela calma de quem sabe que tem tempo de chegar e conhece o destino do seu voo e, repito-lhes as palavras de Galileo, Galilei ditas pelo poeta, outro:


"E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo

tal qual conforme suas eminências desejavam,

e dirias que o Sol era quadrado e a lua pentagonal

e que os astros bailavam e entoavam

à meia-noite louvores à harmonia universal"

É o que lhes vou contando para conforto das suas almas democraticamente perdidas, mas na verdade aos seus repetidos apelos escutam de mim apenas essas palavras que dizem "A minha vida é um vendaval que se soltou/É uma onda que se alevantou/É um átomo a mais que se animou…" e "sei que não vou por aí".


O CÓDIGO EX MACHINA

António Mesquita


Até que ponto poderia, numa sociedade em que o trabalho faz parte dum determinado sistema de produção, uma lei como o "Código do Trabalho" ser feita pelos trabalhadores ou pelos amigos dos trabalhadores?

Poderia sê-lo, independentemente da lógica económica e tendo apenas em conta conceitos como os direitos e a dignidade do trabalhador? A tese materialista diz-nos que isso não pode ser, pois são as condições materiais que sustentam a "super-estrutura" jurídica e moral.

Então o que temos é a relação de forças e qualquer coisa como a luta de classes, mesmo se as classes já não são as de Marx. E se há um equilíbrio, as leis podem ser mais ou menos "justas" (isto é, necessárias). No caso contrário, é, de facto, a lei do mais forte. Com a agravante de quem deveria representar o papel de árbitro não saber que força aplicar e em que ponto (se for bem intencionado).

Por isso, quando se diz que o Código de Trabalho é contra os trabalhadores, isso reflecte, por um lado, o sentimento duma relação de forças desfavorável e, por outro, o desejo de ignorar que frequentemente, e em última análise, se deveria culpar a organização do trabalho e a lei económica. Mas tais exorcismos fazem parte, no entanto, da retórica própria da "luta de classes".

2. O grande amortecedor desta sociedade conflitual é, de facto, a ideologia consumista, em que as forças que se confrontam no mundo da produção se descaracterizam e mais ou menos se conciliam.

O consumo é para a nossa versão do capitalismo o que era a religião para os autores do Manifesto: o ópio do povo. Mas agora não é no céu que as injustiças e as desigualdades se reparam, mas no acesso geral às compensações do mercado de bens materiais. Já nada separa as classes (elas deixaram de ser, como na zoologia, de espécies diferentes), porque todos podem, em princípio, ter o gadget desejado, como na democracia americana qualquer americano pode aspirar a ser presidente. O símbolo desta osmose anti-política é o telemóvel. Nunca no passado, um objecto se tornou assim um passe-partout entre estatutos sociais. Independentemente das diferenças de gama que, naturalmente, reflectem o poder económico, a posse, tão generalizada, desta tecnologia é como a afirmação dum novo "processo histórico" e duma democracia virtual que antecipa a superação da democracia real.

Mas o que a sociedade de consumo faz, a economia política desfaz.

As teorias da suspeita e da irredutibilidade dos conflitos podem em certos momentos compensar os trabalhadores ao conferir-lhes maior poder negocial ou poder tout court. Outros momentos há em que podem romper os equilíbrios necessários e virar-se contra os próprios trabalhadores.

Como ninguém sabe quando é que é oportuno ser irredutível, o que se passa é que este é um mecanismo cego e tanto se pode esperar dele um bom como um mau resultado.

Neste caso, parece que a única justiça é, como diziam os Antigos, a da "medida justa".

Nesta aferição, os ideólogos tendem a querer ser justos para além da medida.

PERGUNTAS DA DIREITA

Mário Martins

http://raulmarinhog.files.wordpress.com/2009/03/subsidio_pyme.jpg


Habilmente, de mansinho, um partido clássico de direita vem atirando para o palco eleitoral do costume umas quantas pitadas de sal, na forma de perguntas de agrado popular garantido. Um dos cartazes pergunta se "é justo dar rendimento mínimo a quem não quer trabalhar". Ignoremos a aparência demagógica e populista e a resposta óbvia para nos determos na questão séria que a pergunta oculta. A questão é a de ponderar se é correcto e justo a sociedade, representada pelo estado, atribuir prestações sociais regulares, tais como "rendimento mínimo" ou "subsídio de desemprego", como se salários fossem, a pessoas na idade activa, sem contrapartida de serviços à comunidade. A questão assume especial pertinência relativamente aos jovens sem emprego. Será saudável atribuir-lhes rendimentos ou subsídios regulares a troco de preguiça e desresponsabilização social? Não será possível antes, embora complexo e trabalhoso, organizar a prestação de serviços à comunidade, criteriosamente remunerada? Reconheço que a organização não é fácil mas para que servem a política profissional e os políticos a tempo inteiro?

À pergunta da direita respondo com perguntas decerto importunas neste quente final de Agosto. E o que responde a esquerda?


View My Stats