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01/04/11

ESCUTANDO

Alcino Silva




Nos leves traços do dia que se esvai, surge do fundo da imensidão do tempo, uma voz doce, como uma ligeira brisa empurrando o ar, como um lamento que ecoa por esta planície de luz onde se estendem os meus olhos e sinto no pulsar do poema que solta angustioso pela garganta, o grito longínquo da história, com os seus horrores e as suas belezas, enquanto o som dolente prossegue como se eu não estivesse, não caminhasse em direcção ao sol que se agiganta nesse avermelhar que se espalha pelos desertos da vida. Sinto estremecer a tarde na serenidade deste cântico que solta lágrimas por todas as vivências tombadas ao longo desse rio milenar que os seres humanos percorreram em busca de si próprios. Este pranto só podia chegar soprado pela feminilidade de uns lábios que irradiam beleza e o seu timbre toca-nos, provocando uma explosão nos pulmões, um rebentar do sangue, que irreverente, se estende pelos leitos que ansiosamente procuram o mar. Ouço-te ainda, sinto-te chegar, nesse cansaço de tantas lágrimas derramadas pela humanidade, nessa tentativa de impedir que a noite cubra com o seu manto negro, a vida que irradia do castanho desses teus olhos que fazem renascer o tempo. Caminho, procuro oásis na solidão manancial dos sentidos, o silêncio humano rompe-se com o teu grito contido que projecta a musicalidade da melancolia e acende em tons de angústia as planícies sonhadas em alvoradas de desassossego. Há um torpor tardio que se levanta da poeira do caminho e a dança do teu clamor, cerca o horizonte que procuro. Por vezes, eleva-se esse grito humano no sentir a angústia do longe, da perda irremediável, do afastamento consumado do que amamos. As mãos estendem-se carentes pelo infinito espaço da memória e da tua garganta saem tecidos os sons do lamento que me encobre o olhar e sinto a vida presa nas horas tardias de um dia que acaba. Como um rio, procuro estrada e as lágrimas do teu canto inundam-me os olhos como um mar imenso, como essa extensão líquida de azul que alimenta sem descanso o sonho humano de chegar ao outro lado da terra. Não resisto, deixo-me ir e os sons tristes do teu cântico são agora a barca que desliza em mim por estes desertos estrelados. Remo, ou tento remar, já não sei. Sinto o peso da madeira fender a água num marulhar surdo de procurar o espaço de impulso e a cada intervalo, chegas de novo ao ouvido. Imobilizado demando as aldeias perdidas onde possa encontrar esse rosto no qual repousa a voz que me envolve que me retém nessa música que me chega como fiapos de desejo e desse amar que a alma já não pode reter. O teu lamento parece encher o ar de uma poesia que não sei traduzir e deixo-me sucumbir nessa magia de um porvir sonhado, mas sem existência. Como as cordas de uma harpa os teus dedos alongam as mãos na procura do amanhã e também eles contêm a musicalidade da ternura que se alberga no mais fundo da vida humana. Escuto a tua dor adormecida nessas notas melodiosas que se espalham, incendiando os ventos da alma dos seres que habitam apenas no meu imaginário. Chamas de rebeldia, estendem-se ao longo de vales e lagos de resistência enchem-se de labaredas fumegantes de amanheceres intranquilos. Prossigo ouvindo, essa tua súplica, soletrando as palavras, e os segredos ocultos nos tesouros sofregamente escondidos, envolvem-me como uma carícia, um gesto há muito aguardado. O cansaço, adormece a vontade que trago e pela escassa abertura dos olhos, procuro ainda a doce cor do teu lamento cantado e murmurado nesta hora tardia. A luz tende a desaparecer e as sombras do dia deambulam como fantasmas atordoados pela ansiedade dos sons que soltaste. Arrastado por essa energia interior que esmorece, alongo ainda os braços, mas já a tua voz se perde nessa distância que tudo nos nega, nessa privação do impossível. E vou ouvindo, escutando, até esse derreter das coisas nos verdes mares da eternidade.    

  
(1) escutando La Rosa Enflorece de um anónimo sefardita em gravação pela Capella Reial de Catalunya sob a direcção de Jordi Savall num álbum intitulado, Dinastia Bórgia: Igreja e Poder no Renascimento.


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