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01/12/12

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CONVERSAS

Alcino Silva
José Tolentino de Mendonça




Não sei se posso dizer que conheço a pessoa, creio que não. Encontrei-o uma primeira vez em casa de Saramago e ambos dissertavam sobre a Bíblia, talvez mais sobre episódios bíblicos, sobre a Igreja como instituição, sobre a fé dos homens e a sua crença em Deus. Talvez um diálogo um pouco académico, mas um diálogo sem dúvida, o que só por si já foi bom. Tem aquele ar calmo, bonacheirão, aquelas marcas que encontro em todos os que passaram pelos seminários. Não, não entendam como juízo de valor, mas apenas a forma como os vejo. Passou mais de um ano e não voltei a encontrá-lo. Até há umas semanas atrás quando o vi, na Bertrand. Aproximei-me a medo como sempre faço com as pessoas que não conheço. Sou dessas criaturas que nunca conseguiu mandar embora a timidez. O poeta iria em breve lançar um livro e a editora achou por bem iniciar o lançamento com a apresentação de um pequeno exemplar com algumas das suas afirmações emblemáticas. Foi através dessa leitura que a nossa conversa principiou. Não foi bem um diálogo, pois seria uma pena que as minhas tonterias pudessem impedir ou cercear a expressão de quem tem óptimas palavras para a vida. Com esse receio de quem pode estar errado, lá consegui soletrar a primeira pergunta, assim como a título de introdução, o que a correr bem lá me impeliria para outros voos. Então, está de acordo, meu caro Tolentino que os amigos, essas pessoas tão próximas de nós, tão necessárias à nossa vivência, são, digamos, um bem imprescindível? O poeta, sorriu e numa mistura de serenidade e boa temperança foi desenhando palavras, «Um amigo, por definição, é alguém que caminha ao nosso lado, mesmo se separado por milhares de quilómetros ou por dezenas de anos. Um amigo reúne estas condições que parecem paradoxais: ele é ao mesmo tempo a pessoa a quem podemos contar tudo e é aquela junto de quem podemos estar longamente em silêncio, sem sentir por isso qualquer constrangimento.» Digamos então que a amizade podendo adquirir múltiplas formas é algo que evolui e cresce ao mesmo tempo, balbuciei na tentativa de prolongar o diálogo. «A amizade é uma roda que se alarga como aquelas pedras que na infância atirávamos para o lago e nos fascinavam a desenhar, na água, círculos cada vez maiores». Começava a sentir-me mais à vontade, pois não só o poeta permitia perguntas como as contestava, reflectindo, procurando as palavras, trabalhando as frases para que os conceitos não caíssem num dogmatismo teórico sem qualquer semelhança com a realidade e a compreensão das pessoas. Mas a amizade não será antes uma forma de amor?, atrevi-me numa pergunta de ousadia. «O acento da nossa cultura está de tal modo colocado sobre o amor, que nos sentimos muitas vezes sem recursos para pensar devidamente as formas e o lugar da amizade». Após uma paragem pensativa, acrescentaria, «Para a definição do nosso caminho espiritual é importante percebermos a diferença entre o amor e a amizade. Com muita facilidade adoptamos o vocabulário do amor, que corre o risco de tornar-se uma gramática sonâmbula. Dizemos «amo» sem que isso traga um estremecimento qualquer.» O diálogo tendia a alongar-se em espiral, através da qual uma resposta origina nova pergunta e alonga o braço que se desenrola. Há amigos, dizia eu, que nos fazem transcender, nos fazem sentir úteis, nos ajudam e permitem, compreender melhor o que nos rodeia, uma mais perfeita percepção do espaço e do tempo. Meu caro, começou por dizer o poeta, «A verdadeira amizade transfigura e amplia a nossa humanidade, dá-nos competências afectivas, estimula-nos a abrir o círculo, a fazer mais, a ser melhor». De novo fez uma pausa, como se procurasse terminar um raciocínio em construção, como se estivesse a obter uma razão para o edifício que desenhava. «Alguns amigos», disse recomeçando, digamos, a resposta que interrompera, «tornam-nos herdeiros de um lugar, outros de uma morada, outros de uma razão pela qual viver. Certos amigos deixam-nos o mapa depois da viagem, ou o barco em qualquer enseada, oculto ainda na folhagem, ou o azul desamparado e irresistível que lhes serviu de motivo para a demanda. Há amigos que iniciam-nos na decifração do fogo, na escuta dos silêncios da terra, no entendimento de nós próprios. Há amigos que nos conduzem ao centro de bosques, à geografia de cidades, ao segredo que ilumina a penumbra do templo, à bondade de Deus». Deus, o Deus de Tolentino chegou já no fim do diálogo, sem perturbar, sem estar a mais. Se os meus amigos estiveram presentes em toda a nossa conversa, porque não haveriam de o estar também os amigos do poeta? Nas minhas palavras ainda balbuciadas, procurei explicar-lhe que sentia os amigos como essas margens que guiam e ajudam o nosso rio nos caminhos do mar e que talvez por esse sentimento tão premente em relação a esses companheiros de viagem, experimentava cada despedida como uma perda, como algo que se deixa de forma quase irrecuperável. «A despedida talvez seja a parte mais difícil da amizade. Não se pode dizer muita coisa. Acho que aprendemos devagar, por vezes com muito custo, por vezes mais serenamente, e ambas as coisas estão certas”. Acrescentou ainda que parece haver uma tradição russa na arte da despedida. Antes de partirem, os amigos ficam juntos e em puro silêncio por uns instantes e de seguida, despedem-se com leveza como se não fossem ausentar-se. Creio que foi um pouco assim que nos despedimos. O aperto de mão suspendeu-se uns segundos e só depois terminou. Creio que ambos sorrimos e assim fomos com destinos opostos. Metros volvidos, olhei para trás e pensei, nem eu irei para o Céu, nem ele será comunista, mas que importa se podemos caminhar juntos na Terra?



As citações foram retiradas do livro, Nenhum Caminho será Longo, José Tolentino de Mendonça, Paulinas Editora, Outubro de 2012

INTERNATO DE S. JOÃO DO PORTO

Manuel Joaquim

Internato de S. João



A Associação Protectora do Internato de S. João do Porto comemorou o seu 120º aniversário, no passado dia 17 de Novembro, registando as partes principais da sua história, num belíssimo livro, muito cuidado, que teve a prestimosa colaboração do escultor José Rodrigues, e cuja coordenação, concepção, pesquisa documental e texto pertenceu a Dra. Maria José Moutinho Santos, professora Associada da Faculdade de Letras da Universidade do Porto/Departamento de História, investigadora do Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória.

A Nota Prévia ao livro “Memórias – Internato de S. João do Porto” do Provedor da Instituição, Carlos da Silva Teixeira Mourão é um texto de recordações da sua infância, marcadas, certamente, por o que significava a Calçada do Gólgota por onde passava, hoje, também presente, por ser o local da residência de uma das grandes escritoras, nascida em Vila Meã.

A Associação nasceu nos finais do século XIX, como tantas outras nascidas naquela época, e que ainda perduram na região do Porto. “ Ao invés do que nesse tempo já distante era regra, em que a caridade descia a rua vinda dos palácios e conventos, o Internato de S. João, nasceu da angústia social e da vontade firme de alguns homens que acreditavam na solidariedade como dever, sem vestir o hábito franciscano, mas tendo em vista a construção da nova sociedade.

Vale a pena por isso recordar, ainda que ao leve, o que era o Porto em princípios do século XIX, a fervilhar de multidões fugidas à miséria dos campos, em busca de trabalho na cidade sem habitação e saneamento que Ricardo Jorge tão corajosamente denunciou. Nesse tempo, as taxas de mortalidade infantil eram trágicas e verdadeiramente assustadoras.”

O livro utiliza a documentação da própria Associação e fotografias de autoria de homens da época, hoje consagrados da arte da fotografia e do início do cinema: Emílio Biel, Fotografia Universal e Aurélio da Paz dos Reis, que foi sócio fundador.

Nas fotografias publicadas no livro encontrei pessoas conhecidas que passaram por lá. Umas, pelos órgãos sociais, outras, como educandos. Entre elas encontrei um colega e Amigo, dos tempos da Mutual, que, nos anos sessenta, era eu ainda muito jovem, me falou do Internato de S. João e me deu a conhecer que tinha sido lá criado e educado. Passava uns bilhetinhos para angariar fundos para a instituição que estava a atravessar dificuldades. Chegou a quadro superior da Companhia.

Tive, então, curiosidade em conhecer as instalações do Internato e passei pela Rua da Alegria para as observar. Há poucos anos voltei lá, mas, dessa vez, pedi autorização para as visitar. Fiquei surpreendido pela grandeza do espaço envelhecido. Manifestei isso a alguém ligado à instituição. Estavam a trabalhar para restaurar todo o edifício e melhorar as condições de alojamento.

O livro revela fotografias do presente que me deixaram muito contente. Das novas instalações e dos actuais dirigentes. Alguns, antigos educandos, desempenham ou desempenharam funções importantes na vida profissional e na sociedade.

A Nota Prévia termina com estas palavras “As nossas metas futuras determinam um encontro com aquilo que Goethe preconiza: “a coisa mais importante neste mundo, não é onde nos encontramos mas em que direcção caminhamos”. Neste caminho tranquilo, mas decidido, carregados de esperança, contamos com o apoio e amizade de quantos entendem que as crianças são o Futuro da Humanidade. É, nelas, por isso, que vamos continuar a investir, haja o que houver, custo o que custar.”

ISABEL JONET E A POBREZA


Mário Faria
Cilinha Supico Pinto



Tive a oportunidade de ver e ouvir Isabel Jonet na SIC Notícias, mas não tomei atenção que o fazia na qualidade de Presidente dos Bancos Alimentares contra a fome, cargo que desconhecia pertencer-lhe. Pareceu-me, na altura, um discurso alinhado pelos Chicago boys cá do sítio, que arquivei sem dramatizar, pois fiquei imune a este tipo de discurso, depois de o ouvir - nas sua versões soft ou hard – quase todos os dias pela TV&Cia.

Mais do que as críticas a que foi alvo a sua intervenção, muito particularmente nas redes sociais ou em blogs, posicionados como senda da esquerda radical, a que não acedo com regularidade, anotei um variado coro de críticas aos críticos, uma mais teológicas outras mais doutrinárias, mas todas claramente alinhadas politicamente, como gato escondido com rabo de fora.

Este animado debate, motivou a pesquisa que fiz e de que retirei quatro momentos para se perceber do que falámos e da importância da discussão destes temas. Faço a apresentação, de forma aleatória e sem conotação prévia, de parte de alguns artigos que, que considero relevantes para integrar o melhor (ou o pior) da discussão . A cada um a sua verdade. A minha opinião, essa, deixo mesmo no encerramento deste artigo.

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“Por isso acho intolerável a ideologia de Isabel Jonet sobre este ponto, quando diz: «Eu sou mais adepta da caridade do que da solidariedade. A caridade é muito mais. A palavra está desvirtuada por ter uma conotação religiosa, mas para mim a caridade é a solidariedade com amor. Com entrega de si mesmo. A grande diferença é que caridade é amor e solidariedade é serviço.». Colocar os direitos, e a solidariedade organizada como meio de os fazer valer, em segundo plano face à caridade, é ideologicamente um regresso ao salazarismo. Que recuso liminarmente.” Porfírio Silva, blog ”a sala de cima”.

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“Porque a realidade actual é diferente. Mesmo as pessoas que sobrevivem a custo e que nada têm, que se podem considerar como os novos miseráveis de uma Europa que falhou nas promessas de bem estar e nas expectativas que criou, jamais voltarão a misturar-se com os animais, por muito que Merkel e a sua gente não se importassem com isso. O limiar da pobreza está hoje mais acima.

Quem vive além das suas possibilidades e vai ter de mudar de hábitos é certa classe média deslumbrada que se deixou levar pela febre consumista e pela inveja social, sem se esforçar por gerar os proventos que lhe permitam recorrer à necessidade de adquirir para ser. São esses que não vão poder comer bife todos os dias e que terão de fechar a torneira quando lavarem os dentes. Não por culpa da troika, mas pelo elefante branco da gula: comer mais do que se precisa, gastar mais do que se ganha, parecer mais do que se é.” Alexandre Pais, Record.

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“- Porque é contra a fome. Mas um banqueiro não pode ser contra o dinheiro, nem a presidente do Banco Alimentar contra a fome! Até porque a fome é necessária: as revoluções fazem-se em jejum. Com a barriga farta, não há quem proteste! Os obesos não apedrejam polícias! As sopinhas do Banco Alimentar querem dar cabo da raiva proletária, em nome da resignação cristã, mas, com conformismo, fica entornado o caldo revolucionário. É preciso ler Marx - não o Groucho ! - e aprender que o que faz falta é exasperar a malta, para que seja carne de canhão para a revolução.

- Porque é católica, o que é um insulto para a laicidade das instituições sociais. Há muito que os pobres foram nacionalizados, antes até dos bancos. Por sinal, capitães de Abril, por que raio é que o Alimentar ainda o não foi?! Já não há pobrezinhos paroquiais: agora são todos do Estado, são todos do povo, são nossos. Se a Igreja quer ter os seus próprios pobres, para promover bazares e canastas de senhoras bem, que os arranje à sua custa, mas os pobres nacionais não são de nenhuma religião, porque estão ao serviço das ambições políticas da esquerda! É que, se nos tiram os pobres, que nos resta?! Se já nem valores ou ideologia temos.”

(Manifesto de um imaginário esquerdista ululante, presidente de um não menos imaginário Banco Alimentar a Favor da Fome de autoria de Gonçalo Portocarrero de Almada, no Público)
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“Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam.

O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos…

... e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse: Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis."

(Parte de um texto de Lobo Antunes do seu Livro de Crónicas)

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Na rua onde morava, em miúdo, também tínhamos um pobre nosso : o Sr. Acácio. Era idoso, doente, humilde e muito solícito. Fazia pequenos fretes aos moradores e recebia uma semanada de 5$00, da nossa parte. Também dávamos roupa. Não durou muitos anos: a tuberculose foi mais forte que ele. Depois ficou apenas a Muda que ia todos os dias buscar pão e comida. Era assim, há mais de sessenta anos.

Do que li e vi, Isabele Jonet faz-me lembrar Cecília Supico Pinto,. cada qual com o seu registo. Num quadro histórico bem distinto, apresentam imensas semelhanças, apesar das suas diferenças políticas: a primeira uma democrata liberal e mais tecnocrata, a segunda uma figura de proa do Estado Novo e mais “tia”. Ambas têm em comum : a prestação de serviços “estimáveis” embora dirigidos a grupos bem diferenciados, e a falta de vontade política, uma para atacar a pobreza a outra para se bater contra a guerra colonial.

Concluo com algo que li a propósito da “virtude” e que cito de memória : Quando se trata de “caridade” ou de “solidariedade”, talvez fosse bom começar pela questão do “reconhecimento” : não há vínculo social equilibrado onde as pessoas não são reconhecidas no mesmo grau de dignidade.

E Bom Natal para todos !




OS NÚMEROS OBTUSOS

António Mesquita

http://www.forbes.com/sites/sap/2012/10/10/why-stubborn-is-an-undervalued-trait/



Depois de Isabel Jonet, a prestigiada presidente do Banco Alimentar, nos ter aconselhado a ser mais frugais, 'caíu o Carmo e a Trindade'.

Tudo está na forma e no lugar. Medina Carreira vem a dizê-lo há vários anos e ainda há duas semanas deu 7 anos de vida ao actual Estado Social. Mostrou os mesmos gráficos impressionantes que é impossível que os que nos governam desconheçam. O colapso parece certo como o destino, a não ser que a euforia suicida do crédito regresse a alguns crânios embriagados (como quando ganhavam dinheiro com lixo, vendido depois em embalagens irresistíveis) ou a economia comece a crescer a taxas próximas da chinesa.

Voltar a ter os pés assentes no chão só é possível depois duma terrível ressaca, que já começou. Como é natural, quase ninguėm está convencido de que mudar não é justo nem injusto, mas necessário. E podemos estar certos de que temos nos partidos desta democracia os melhores servidores de toda a gama de paliativos. Para todos os gostos. Desde os que acreditam que se deve começar do zero aos que nos prometem que em 2013 vai bruxulear, enfim, 'a luz ao fundo do túnel', sem mais impostos e com um pequeno 'corte de cabelo' nas pensões e nas outras prestações sociais. Se fosse do outro lado do Atlântico, onde existe outra organização, poderia, talvez, ser assim. Mas o caso é que estamos desamparados na putativa União e quem nos 'ajuda' com a ruína da nossa economia faz com isso um grande negócio.

Portanto, é caso para dizer, como das árvores que morrem de pé, cairemos democrata e europeisticamente, no melhor estilo do Conde de Abranhos. Que importa se chegarmos ao milhão de desempregados, se fomos cumpridores (e até mais além do que era preciso) do programa da Troika?

Mas a urgência e a dimensão dos nossos problemas não se explicam pela mediocridade da política doméstica (que tranquilizador seria se Sócrates pudesse continuar a expiar os pecados dele e os dos outros! O antigo primeiro-ministro foi o produto duma época e duma mentalidade governativa, daquela euforia a pedir castigo que hoje já não está na moda), nem pelos vícios estruturais da nossa economia.

Por detrás de tudo está a crise económica do chamado Ocidente, a começar pelos EUA que são o centro da tempestade, com a loucura da desregulação, o desemprego tecnológico e a desindustrialização a favor de países como a China.

É por isso que o dinheiro fácil não voltará em muitos anos. É que o 'negócio' perdeu a fé com a queda dum banco que pensava ser demasiado grande para falir: o Lehman Brothers.

Com a incompreensão do fundo do problema, não podemos contar com amortecedores. E tornaremos Medina Carreira mais do que um profeta da desgraça: uma espécie de cientista da loucura colectiva.

Será assim enquanto não percebermos que se trata do nosso presente e do nosso futuro e não de encontrar culpados. Quem? Poderíamos ficar pelos governos ou pela 'classe dominante'? Não temos leis para os prender, nem tribunais para os julgar. De resto, é de temer que não exista apenas uma corrupção localizada nas elites. Seria preciso, ao mesmo tempo, levantar um processo à classe média.

O pensamento mágico da Revolução torna a situação insuportável e sem outra esperança. Mas seria a maneira de contar os degraus que o povo tem ainda para descer até ao Inferno.

OS PARTIDOS EM VOTOS

Mário Martins



g1.globo.com





Olhando em perspectiva os resultados em eleições legislativas, desde o 25 de Abril, dos cinco grandes partidos bem como do “partido” da abstenção, entende-se melhor a evolução eleitoral da partidocracia portuguesa e a questão das alternativas. As percentagens de 2012 resultam de uma sondagem efectuada em Setembro pela Universidade Católica, no auge da crise política suscitada pela proposta governamental de alteração da Taxa Social Única. 





01/11/12

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DESMORONAMENTO

Manuel Joaquim


alanandtilde.travellerspoint.com


Historicamente, o período que vivemos é particularmente importante. A sociedade vive uma crise com repercussões em todas as suas estruturas. É a organização política e social do Estado que está em questão. Já não consegue resolver os seus problemas e contradições e os seus alicerces vão cedendo e acabarão por se desmoronar.

O descontentamento, os protestos, as lutas sociais, sindicais e políticas, manifestam-se diariamente e a qualquer hora. A perda de direitos pelos trabalhadores, reformados e pensionistas, conquistados em lutas passadas e recentes e pagos com as suas contribuições e impostos, o alastramento do desemprego aumentando a fome e a miséria, está a trazer para a luta sindical e política, não só a “chamada populaça”, como, preconceituosamente, alguns bem-pensantes chamam aos trabalhadores organizados, mas também um número crescente de população da classe média. Os próprios papagaios de serviço na comunicação dita social já não conseguem justificar, quanto mais defender, a política em curso. Na Assembleia da República algumas intervenções são classificadas como salazarentas. As tentativas para rasgar a Constituição da República e suspender a democracia são cada vez mais claras. O fascismo, de certa forma, aparece nas soleiras das portas das casas onde tem estado a hibernar. É bom ter presente que o fascismo em Portugal foi instituído com a publicação do Estatuto do Trabalho Nacional em 1933 e não com o golpe de estado de 1926.

Só não vê quem passa o tempo a saborear as delícias do ócio, sentado numa cadeira, em casa, de janelas fechadas, sonhando com viagens lindas pelo mundo imaginário ou com histórias lidas em livros que refletem visões pessoais de tempos de outrora. Ócio que lhes é permitido pelo desafogo económico que desfrutam e que os levam a contemplar sociedades imaginariamente assépticas à intervenção do homem. Mas, na realidade, essas sociedades não existem. Tom Hodgkinson, no seu livro “Os Prazeres do Ócio” diz que “Jesus foi um revoltoso: derrubou as mesas dos vendilhões do templo, abrindo um precedente para muitos milhões de visionários idealistas a partir desse momento”. É uma referência bíblica perfeitamente actual, justificando a violência para repôr valores para uma sociedade mais justa. Será que os valores defendidos por Jesus eram o resultado da razão ou será que Jesus pertencia já naquele tempo à maioria da Duma?

Tantas histórias se contam sobre revoluções e personalidades que de uma forma ou de outra intervieram nesses processos. Os “pensadores”, à distância do tempo (e do espaço) tomam a posição mais confortável, mais cómoda, não comprometida, alimentando-se filosoficamente dos valores das classes dominantes, muitas das vezes expelindo-os venenosamente, sem terem consciência disso. Mas a questão que se tem de colocar num processo político é sempre: de que lado se está? Do lado de Jesus ou dos vendilhões do templo?

O tempo político que vivemos vai obrigar a tomada de posições. É a hora da verdade que se aproxima.

IMPRESCINDÍVEIS

Alcino Silva
(joshbrewsterphotography.com)


“Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Escrever, por exemplo: a noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe.
O vento da noite gira no céu e canta.”



Os sons da tua música, chegaram-me numa tarde de sol em caminho de montanha, nesse tempo em que nos sentimos sós rodeados de gente, e volteavam por entre a folhagem verde e desciam até mim, procurando unir a sua melancolia à que em mim viajava. Mas esta noite neva. Por entre a escuridão do espaço, flocos de neve tombam na terra em pingos de tristeza. Pousam no chão e na minha alma, pelo que também poderia eu esta noite, escrever os versos mais tristes e silenciosos enquanto vejo os teus dedos baixar sobre as teclas e escuto a melodia assombrosa que sai do interior de ti. Vejo as tuas mãos descerem, Ludwig e os dedos quais estrelas cadentes iluminando a noite, pousarem com doçura nos pequenos rectângulos brancos e negros do piano e uma sonoridade magoada ergue-se como um pranto de silêncio.


“Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Eu amei-a e por vezes ela também me amou. 
Em noites como esta tive-a em meus braços. 
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.”




Ouço-te e lembro-a, recordo-a nesse cântico silencioso que brota, como ramos de uma árvore cansada e só, do teu génio criador, das tuas mãos que descem como um sentimento, como essa carícia que era o seu rosto quando também as minhas mãos desciam reclamando galáxias de ternura, essas infinitas constelações de estrelas que viviam nos seus olhos e enchiam o universal abraço com que a minha imaginação lhe rodeava o peito, lhe cercava a alma e tu absorto, dedilhando melodiosamente, umas vezes com os dedos constantes, outras com essa mágoa que sinto no teu pensamento com essa grandeza que inunda o meu e como lembro de a ter em meus braços nessas noites em que um cântico de silêncio planava sobre o meu sonho. Sim, sobre o céu infinito e quantas vezes a amei. Talvez também ela me tenha amado nas palavras que me escrevia como a tua música, cadente e silenciosa, escritas em brancas letras que só eu lia.

“Ela amou-me, por vezes eu também a amava. Como não ter amado os seus grandes olhos fixos. 
Posso escrever os versos mais tristes esta noite. 
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.”



Como traduzir em palavras a melodia serena, tranquila, melancólica, desgostosa que sai dos teus dedos e se espalha em mim, como traduzir esses sons de beleza que o teu prodígio produz e embalam esta minha solidão que qual mar dolente humedece a praia dos meus sonhos perdidos. Como traduzir em palavras, Ludwig o amor daquela mulher que por vezes também me amou e hoje voa em espirais de vapor lembrando as primaveras mágicas da adolescência. E por vezes, também a amei. Por vezes? Quão injusto consigo ser nesta noite de lágrimas correndo pela memória. Ela foi pretérito e futuro, foi olhares e sorrisos, foi sol e lua, mar e terra, foi nau descobridora e porto de abrigo. Os teus dedos parecem pousados sobre o mesmo espaço, subindo, descendo, acelerando, e essa carícia que me envias em música, limpa o pranto desta noite em que posso escrever os versos mais tristes e pensar que não a tenho e sentir que a perdi.




“Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela. E o verso cai na alma como nos pastos o orvalho. 
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la. 
A noite está estrelada e ela não está comigo.”



Uma e outra curva, a montanha iludindo os meus olhos e os sons procurando-me e o meu pensamento voa, inclina-se na melodia cadenciada dos teus dedos e aqui e ali paras, deténs a tua tristeza como se ficasses incapaz de andar, de prosseguir para de seguida retomares sem tropeço o teu caminho. Mas agora é noite e neva lá fora, sinto o frio percorrer as arestas dos meus sonhos onde ela vive e eu a guardo e corro com a tua música na procura do tempo que se diluiu na escuridão quando eu a amava e também ela talvez me tenha amado. Também agora sinto soçobrar a fantasia, aquela onde vivi sobre as muralhas de altos castelos de vento, em cujas ameias estendia os braços e embrulhava a planície de encontro a mim como se fosse a ela que guardava com os seus olhos mágicos e o seu rosto calado, sereno e belo como a tua música. Não, não acredito em pessoas imprescindíveis. Tudo passa e todos somos substituídos. Parece até uma verdade imutável, mas de facto, quem te substituiu a ti, Ludwig, quem foi que construiu serenidades musicais como  esta que me embala nesta noite fria, nesta noite estrelada em que ela não está comigo e me faz lembrar que não a tenho e sentir que já a perdi? Não, Ludwig na verdade não mais alguém foi capaz de construir esta beleza de sons excepcionais, este Silêncio que me faz viver. Não há pessoas imprescindíveis, mas tu e ela não podem ser substituídos. Por isso te escuto nesta noite fria, triste e nevada e a lembro, a recordo com o seu olhar de encanto e a minha alma não se contenta com havê-la perdido.


Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe. A minha alma não se contenta com havê-la perdido. 
Como para chega-la a mim o meu olhar procura-a. 
O meu coração procura-a, ela não está comigo.”

 

Lendo a poesia de Pablo Neruda e escutando o Silêncio de Beethoven

QUANTO CUSTAM OS PARTIDOS?

Mário Martins


(p3.publico.pt)



Diz-se, e compreende-se, que a democracia não existe sem partidos políticos livres e que, por essa e outras razões nem sempre bem fundamentadas (como se viu na recente polémica do uso de carros de luxo), é cara. Vejamos então quanto custam ao erário público (nomeadamente aos portugueses que pagam os impostos sobre o seu rendimento) os partidos que alimentam o regime que, em Portugal, passa por ela. Não sem antes clarificar que o autor deste texto não se conta entre os 87% dos portugueses que, segundo uma sondagem realizada no passado mês de Setembro, se afirmam desiludidos com a democracia, pela simples razão de nunca ter esperado dela justiça e prosperidade mas tão-só liberdade e cidadania. Isto sem prejuízo da indispensável reforma do “regime de direito democrático” como, em ocasiões mais solenes, lhe chamam, mas que, em todo o caso, prefere a qualquer ditadura. Em Portugal, pelo menos para as gerações adultas ao tempo do 25 de Abril, mais do que uma questão de gosto trata-se de uma questão de memória.

Destaquemos, em primeiro lugar, alguns aspectos essenciais do enquadramento legal do financiamento público dos partidos políticos (Lei 19/2003 de 20 de Junho, com a alteração introduzida pelo artigo 31º do Decreto-Lei nº 287/2003, de 12 de Novembro):

“Artigo 4º

(Financiamento público)


Os recursos de financiamento público para a realização dos fins próprios dos partidos são:

a) As subvenções para financiamento dos partidos políticos;
b) As subvenções para as campanhas eleitorais;
c) Outras legalmente previstas.

Artigo 5º



1 - A cada partido que haja concorrido a acto eleitoral, ainda que em coligação, e que obtenha representação na Assembleia da República é concedida, nos termos dos números seguintes, uma subvenção anual, desde que a requeira ao Presidente da Assembleia da República.

2 - A subvenção consiste numa quantia em dinheiro equivalente à fracção 1/135 do salário mínimo mensal nacional (3,6 euros) por cada voto obtido na mais recente eleição de deputados à Assembleia da República.

4 - A subvenção é paga em duodécimos, por conta de dotações especiais para esse efeito inscritas no orçamento da Assembleia da República.

5 - A subvenção prevista nos números anteriores é também concedida aos partidos que, tendo concorrido à eleição para a Assembleia da República e não tendo conseguido representação parlamentar, obtenham um número de votos superior a 50.000, desde que a requeiram ao Presidente da Assembleia da República.

Artigo 17º



2 - Têm direito à subvenção os partidos que concorram ao Parlamento Europeu ou, no mínimo, a 51% dos lugares sujeitos a sufrágio para a Assembleia da República ou para as Assembleias Legislativas Regionais e que obtenham representação, bem como os candidatos à Presidência da República que obtenham pelo menos 5% dos votos.

3 - Em eleições para as autarquias locais, têm direito à subvenção os partidos, coligações e grupos de cidadãos eleitores que concorram simultaneamente aos dois órgãos municipais e obtenham representação de pelo menos um elemento directamente eleito ou, no mínimo, 2% dos votos em cada sufrágio.”

Quanto ao financiamento público anual dos partidos, a conta é fácil de fazer: 3,6 euros por cada voto arrecadado na última eleição legislativa (realizada em 5 de Junho de 2011), significa que o erário público paga actualmente aos cinco grandes partidos políticos portugueses cerca de 18 milhões e 400 mil euros por ano, com a seguinte distribuição:



Votos
Euros
PSD
2.159.181
7.773.052
PS
1.566.347
5.638.849
CDS
653.888
2.353.997
CDU
441.147
1.588.129
BE
288.923
1.040.123
Totais
5.109.486
18.394.150

No que respeita ao financiamento público das campanhas eleitorais, podemos dar o exemplo da subvenção recebida pelos partidos nas últimas eleições legislativas:

                                                          

Euros
PSD
3.187.221
PS
2.187.261
CDU
836.357
CDS
796.715
BE
653.598
Total
7.661.152


Todos estes valores estão, evidentemente, muito longe de representarem o custo financeiro do regime, mas julgo que será pertinente concluir que este suporte financeiro público dos partidos políticos mais fundamenta a necessidade de uma opinião pública cada vez mais exigente relativamente à sua acção ou falta dela.


Os valores em euros são da responsabilidade do autor do texto, com excepção dos valores da última tabela.

SOFISMA

António Mesquita

Umberto Eco



"Não há nada de relativista no defender que a realidade é sempre definida de um ponto de vista particular (o que não significa subjectivo e individual);"

(Umberto Eco)



Como se sabe, uma opinião não partilhada por mais ninguém pode ser mais objectiva do que outra, colectiva e partilhada por muitos.

A diferença é que, no primeiro caso, se parte 'dum ponto de vista particular' sobre a realidade e que, no segundo,  se parte da opinião dos outros.

Não se pode 'pensar pela própria cabeça' e 'beneficiar' do conforto intelectual que qualquer grupo nos dá em troca de afundarmos todos os pontos de interrogação em calor humano e gordura.

É também sabido que o argumento de que todas as opiniões são relativas ao 'ponto de vista' de cada um e por isso que nada há nelas de 'universal', impede o estabelecimento da verdade.

Note-se que, porém, existe um sofisma por detrás deste raciocínio. O que a maior parte das pessoas entende por 'ponto de vista' é semelhante àquilo que consideram como opinião.

No entanto, o ponto de vista de que fala Eco é mais um lugar no espaço e numa situação. Quem quer que seja que realmente pense a  partir desse lugar e dessa situação pode atingir o universal, isto é, o que é válido para todos os que fizerem como ele. Isto é quase dizer que o real  tende para o único. Quanto mais particular, mais universal.

Parece um paradoxo, é claro, que o que é válido para todos seja a sua qualidade de serem exclusivamente eles próprios.


A VIDA CONTINUA...

Mário Faria


dearscotland.com


Estou furioso. A crise não me tinha atingido em cheio, e eis que agora, me vão ao bolso, com uma enxurrada de impostos colossal : um autêntico confisco que abala os alicerces do nível de vida (relativamente) desafogado a que estava habituado, e que fora sustentado na reforma a que tenho direito, capitalizada pela via dos descontos (salariais e empresariais) sempre realizados, ao longo de mais de quarenta anos de trabalho, e apenas interrompido pelo cumprimento de mais de quatro anos de serviço militar obrigatório. 

Se sempre estive solidário com os mais expostos a esta política de austeridade que atinge com extrema violência os mais fracos, não seria sério se não reconhecesse que a solidariedade é bonita e que a caridade fica bem, mas que essa proximidade é muito semelhante à que me fica quando estou perante as notícias trágicas da devastação provocada pelos efeitos de cataclismos naturais, da guerra ou da fome. Fico perturbado, mas fecha-se o jornal, apaga-se a TV, e o choque, provocado pelo terror do testemunho das palavras e das imagens, esfuma-se suavemente no limbo da memória. Os problemas pessoais e familiares, que exponencio desmesuradamente, toma toda a minha atenção, como se a maior parte deles não fossem triviais, face às terríveis desgraças alheias. 

Vou no mesmo barco, mas ainda não viajo no porão. Apenas, estou muito mais perto. Sinto a ameaça, mas ainda não sou pobre. E, isso, ainda faz toda a diferença. Há muitos indignados, mas vamos reagir? resistindo e lutando ? esperando que os feitos “novos proletários” se rebelem e criem caminhos para uma alternativa ? ou vamos entrincheirar-nos na defesa do pouco que temos, como se fora um rico espólio a manter, ainda que se nos exija o silêncio ? Não sei. Só sei que as forças são poucas e os actores das alternativas políticas em presença, não seguem o mesmo trilho, nem apresentam soluções credíveis, ora porque foram responsáveis por parte do problema, ora porque não fazem (ou não os deixam ser) parte da solução. 

Há quem refira que a “dificuldade de controlar a dívida pública (pode bem ser) um traço estrutural português, só resolvido em ditadura (César das Neves)”, há quem pense que “a ideia de que em democracia não se pode impor a austeridade é, em si mesma, uma ideia autoritária, uma ideia que menoriza a capacidade dos eleitores, mesmo rangendo os dentes, escolherem um caminho diferente do que nos encheu de défices e dívidas (José Manuel Fernandes)”, ou quem diga que “a posse é liberdade, dá liberdade, defende as pessoas da servidão. Se se transformam homens livres em proletários, que nada têm a perder a não ser as suas grilhetas, estes começam a portar-se como proletários (Pacheco Pereira)”, mas pela parte que me toca, e porque tenho mais dúvidas que certezas, o que me constrange é constatar que os imensos progressos científicos e tecnológicos produzirem um efeito contrário, ou seja: um modelo de desenvolvimento económico que apela, nestes tempos, por mais horas de trabalho, baixos salários, menos regulamentação, mais precariedade e menos apoios sociais, o que contrasta de forma escandalosa com a sociedade aberta e democrática prometida, de pleno emprego, pão para todos, de lazer e bem estar acrescidos. O que falhou está na génese do capitalismo globalizado, tóxico, sem rosto, e que um recente artigo Ricardo Pereira sintetiza assertivamente, quando escreve sobre o Prestige - que se afundou há dez anos ao largo da Galiza deixando um enorme rasto de poluição –, concluindo assim : “o julgamento do Prestige avança com quatro réus, três dos quais são tripulantes do navio. Num petroleiro com bandeira das Bahamas, de dono liberiano, certificado nos Estados Unidos, com um armador grego e fretado por uma empresa suíça, não espanta que seja mais fácil encontrar os culpados a bordo”. Um julgamento idêntico corre por cá : os detentores do poder estão a punir os pobres, os trabalhadores e a pequena burguesia, os únicos capazes de democratizar a economia, como se fossem os únicos culpados do endividamento. Para ultrapassar a crise, o governo alia-se, de forma servil, aos poderosos que se aguentam à tona e sempre em cima, acolitados por uma legião de burocratas, técnicos e pensadores, todos juntos pelas melhores razões, na manutenção (e aprofundamento) do status quo. A maioria dos portugueses vai a bordo de um barco que navega à vista e corre o sério risco de encalhar. Se a tragédia acontecer quem vai pagar ? Os de sempre, a não ser que o saibamos evitar, o que duvido. Até lá, a vida continua e a esperança também. 



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