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01/12/16

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AMÉRICA


António Mesquita





"Interpretar é não saber explicar. Explicar é não ter compreendido."

(Fernando Pessoa)

Por que é preciso interpretar o que sucedeu na América? Digo América e não o nome do país, porque a América tem sido, mais do que qualquer outra nação, a grande reserva dos mitos modernos.

Não perdeu, sobretudo, a sua ligação simbólica à ideia de um 'Novo Mundo', que é, por estranhos caminhos, também a ideia do 'Mundo Novo' de um nosso poeta popular.

Como diz Pessoa, só interpretamos o que não sabemos explicar. E porque, até agora, dávamos algum crédito aos meteorologistas da política e a métodos estatísticos cada vez mais refinados, não compreendemos como todas as sondagens e todas as opiniões encartadas falharam tão rotundamente.

É muito provável que o que se passou seja menos um fenómeno político (a vaga do chamado populismo ou o desencantamento das 'massas' em relação à 'coisa pública'), do que a revolução tecnológica de que tanto se fala, mas que não tinha mostrado ainda este seu efeito disruptor sobre a própria democracia.

Na verdade, o fenómeno das redes sociais baseadas na Internet está a impor, cada vez mais, a agenda da imprensa tradicional e da televisão e a provocar o seu esvaziamento. Com isto, a opinião reflectida do leitor de jornais e do espectador da 'boa televisão', embora 'enquadrados' na tendência ideológica desses mídia, está a ceder o passo aos agrupamentos de ideias miméticas que se espelham umas às outras, sem que se possa dizer que há um 'pastor' no comando de redes digitalizadas como o 'Facebook' ou o 'Twitter'. Mas quando se sabe que o vencedor usou os chamados 'bots'(*) e as suas mensagens geradas automaticamente (e replicadas depois por eleitores de carne e osso) para distorcer o sentido do voto, temos que admitir que algo de enorme aconteceu. A democracia parece ter perdido o seu eleitorado, o mítico Povo legitimador de todo o sistema. E os próprios partidos parecem ter os dias contados.

Pode-se considerar estas eleições como fraudulentas por causa de manobras como esta (e outras formas mais sofisticadas de 'dar expressão' ao sentimento dos cidadãos). Mas a democracia está cheia de golpes tão ou mais graves do que este. O anti-semitismo de Hitler foi uma opinião tão fabricada como a das redes sociais, cavalgando o medo, como aquele.

Não importa que Trump dê realmente voz a um descontentamento real. Porque agora nunca saberemos a que povo atribuir esse descontentamento, que representa esse povo em termos nacionais?

Ora, o que é mais grave é que este bloqueio da democracia só pode mudar para pior. Trump foi o primeiro a utilizar, sem quaisquer escrúpulos, esta nova arma cujo último significado é a implosão do 'povo democrático'.

A América está em vias de reciclar os seus mitos e de perder a capacidade de os regenerar. 



(*) "Bot, diminutivo de robot, também conhecido como Internet bot ou web robot, é uma aplicação de software concebido para simular ações humanas repetidas vezes de maneira padrão, da mesma forma como faria um robô. No contexto dos programas de computador, pode ser um utilitário que desempenha tarefas rotineiras ou, num jogo de computador, um adversário com recurso a inteligência artificial. Bots também podem ser considerados ilegais dependendo do seu uso, como por exemplo, fazer diversas ações com intuito de disseminar spam ou de aumentar visualizações de um site. O seu uso mais frequente, entretanto, está no Web crawler, em que um script realiza buscas automáticas, analisa informações de arquivos e servidores em uma velocidade extremamente alta, muito superior à capacidade humana. Além desses usos, o bot pode ser implementado em sites em que há comunicação com o usuário, como sites de jogos ou simplesmente onde é necessária comunicação semelhante à humana.[1] O uso mais recente de Internet bots foca-se na publicidade, como o Google Adsense, que exibe a propaganda mais adequada a cada pessoa dependendo de seu comportamento na Internet." (Wikipedia)

A ALDEIA DOS MACACOS E O DIREITO À PRIVACIDADE

Mário Faria

(Jornal de Mafra)


Como todos os mancebos, por aqueles anos, tive de cumprir o serviço militar obrigatório. A recruta e a especialidade foram cumpridas em Mafra. Seis longos meses. A aplicação militar mais dura, desenrolava-se na Aldeia dos Macacos. Por lá, erámos submetidos a um teatro de guerra imaginário e os exercícios de risco e de superação do medo, pouco se ajustaram à realidade que encontrámos, mais tarde. “O rei manda marchar, não manda chover” justificava a rudeza. No fecho daqueles seis meses, fomos levados para a Serra de Montejunto onde fizemos manobras militares durante uma semana. A guerra suspende os direitos humanos e a preparação seguia o guião. Os instrutores tinham um enorme poder sobre os formandos. Em Angola, fomos atirados para a mata sem experiência e com escassos meios. Já por essa altura os comandos e os paraquedistas eram grupos de elite. Melhor preparados e equipados, obviamente. E muito arrogantes, em função do reconhecimento dessa superioridade operacional. A morte recente de dois jovens no curso de comandos, veio a público e há quem lamente o ocorrido mas encontre justificação neste tipo de práticas, na certeza dos riscos acrescidos para que estas tropas estarão a ser preparadas. Na minha perspetiva, quanto mais for exigente o treinamento mais apertado deve ser o seu controlo, para impedir abusos, exercícios brutais e humilhantes. Tenho para mim que a cadeia de comando conhecia os métodos, os instrutores e preferiu ignorar as enormidades normalmente ocorridas no terreno e que, de uma forma ou outra, são divulgadas baixinho no interior da instituição. Pensavam que ia correr tudo como habitualmente e sem ruído. Mas, não foi assim. E falhou. E deve responsabilizada e julgada por isso.

O Processo de recapitalização da CGD continua a marcar a agenda política. O governo prometeu e mudou o que não devia; os administradores consideraram não ser obrigados a depositar a declaração de rendimentos depois da alteração legislativa que os retirou desse estatuto; a oposição cavalgou as debilidades dos procedimentos governativos que transformou em chicana política das mais agressivas que me foi dado assistir, ressabiados pelo facto do diabo não ter aparecido ao seu chamamento, conforme combinado. Na esquerda o PCP foi muito cauteloso e aos costumes disse nim; o Bloco juntou-se à direita na eliminação da excepção criada pelo Governo e que obrigou mesmo à entrega da declaração de rendimentos. Essa aliança contranatura foi feita em nome da transparência como tiveram oportunidade de esclarecer os bloquistas. Fiquei muito dividido acerca do processo e dos procedimentos. Porque prezo muito o direito à privacidade, porque o uso e abuso da palavra transparência banalizou o conceito que frequentemente não é sujeito a prova e finalmente porque me custa muito engolir este pacto entre o bloco e as direitas. O bloco é da minha família política, os da direita são adversários e custa a engolir um convergência desta natureza e por esta altura de luta política intensa entre as partes. Não conheço Domingues, nem tenho saudades. Mas tem deveres e direitos. O da privacidade, pois então. Se o homem acha que o deve defender e que o seu património não deve ser sujeito a devassa por quem lhe aprouver e se tal lhe foi garantido, porque há-de abdicar desse entendimento? Um homem só contra o mundo. Domingues é a parte mais fraca desta triste história. Não alinho em julgamentos populares ou populistas, ainda que o arguido seja um tipo arrogante que se faz pagar principescamente.

CARTAS DE SANTA MARIA





Córdova, 30 de Novembro


Atravessei a fronteira, essa linha geográfica e invisível, inventada pelos humanos, em lugar ermo de gentes e casas através de uma ponte de aspecto recente sobre o rio Chança. Foi a terceira vez que senti com a profundidade da ruptura a passagem entre territórios que a separação secular tornou diferentes, não na paisagem, mas na posse. A primeira foi há muito, ainda os traços da juventude conseguiam alcançar qualquer quasar, num momento em que o crepúsculo descia fazendo crescer os sons que chegavam interrompendo a tranquilidade do entardecer, enquanto a alma, a minha, viajava num mundo de esperança sonhadora. Um tiro seco ao longe e o silvo da locomotiva em manobras pareciam dar irrealidade à travessia através de um campo lavrado, aberto e amplo. A segunda foi na visita ao teu país. Inebriado pela doçura do teu olhar não me apercebi que o visto de permanência caducara e quando procurei a saída apressada, fiquei retido durante anos na terra de ninguém do aeroporto até me esquecer de quem era. Foi nessa época que iniciei a escrita do meu Diário dos Sonhos, pois naquele espaço só dois momentos me eram consentidos. De noite sonhava, e de dia, escrevia os sonhos sonhados. Nesses meus sonhos tudo era permitido e todas as mulheres tinham o mesmo nome e um só rosto. Por fim, consegui partir e iniciei esta viagem sem regresso a caminho de um lugar sem estrada e de toponímia desconhecida. A vida torna-se insuportável quando nos afastam de quem plantava flores no jardim da nossa alma, de quem a cobria com a espuma do mar adormecendo na praia, envolvendo em lentos abraços a penedia do litoral, quem semeava sorrisos pelos caminhos dessa alma, agora refugiada na torre de menagem de um antigo castelo há muito olvidado. Caminho no silêncio profundo do amanhecer. Recuso voltar a cabeça e olhar o que ficou para trás, mas sinto que a saudade do que não regressa, rasteja no meu encalço e alcança a leve sombra que o meu corpo deixa, projecção tímida de um sol nascente que teima em fazer renascer a vontade de viver. Assim, cheguei a Córdova. Escrevo sentado no Pátio de los Naranjos, olhando para a Porta do Perdão. Um Outono ameno acomoda-me neste espaço onde me isolo. Não esqueci as velhas ruas da cidade Património da Humanidade, as casas brancas, os recantos, mas perdi-me de todo no interior da Mesquita. Por entre as suas colunas, a arquitectura de um deslumbre que fascina, as cores que chegam a perturbar pela elegância. Em meu redor vivia um silêncio perturbador carregado de sons, de cânticos, de chamamentos e olhava para as pedras que me envolviam como quem contempla o olhar de uma mulher que acaba de nos encantar. Creio que foi Platão que disse que pela escada da Beleza se ascende à verdade e ao ser. Por entre as colunas pressinto a Córdova de Abderramão III, a cidade cultural mais importante da Europa naqueles séculos árabes a ombrear com Damasco, Bagdad ou Constantinopla, a sua biblioteca com quatrocentos mil livros, Maimónides e Averróis com a sua presença, a aumentar-lhe a grandeza. Quando saio daquele espaço marmóreo sinto a pequenez humana perante as obras que é capaz de criar e quando tento escrever esta cónica tão ligeira, as palavras não se soltam, como se estivessem ainda retidas no esplendor daquela casa de Deus, em nome do quem somos capazes de erguer monumentos de uma riqueza ímpar como forma de o alcançarmos. Caminho por este Pátio procurando a saída, mas parece que todos os trilhos se encerram na minha frente, como se, após a visita, ficasse cego por tamanha beleza.
Fernão Vasques*

* Por favor, não me confundam com o corajoso alfaiate que em 1371 ousou desafiar, em nome do povo, O Formoso e a futura rainha. Sou apenas um sonhador, digo eu, dos finais do século XX com endereço em Santa Maria das Júnias. São duas ruínas que se amparam, as minhas e as do mosteiro.

O MESTRE CAEIRO


Mário Martins


https://www.google.pt/search?q=o+guardador+de+rebanhos+alberto+caeiro

A poesia daquele “poeta bucólico de espécie complicada”, que o próprio Fernando Pessoa considerava seu mestre, afigura-se, paradoxalmente, ela que tanto desdenha da filosofia e dos filósofos, como a mais desafiadora, em termos filosóficos, do universo pessoano. Ricardo Reis diz que “Caeiro é, em filosofia, o que ninguém foi: um objectivista absoluto” e que “nada o demonstra melhor que um verso que é talvez o superior da sua obra: A Natureza é partes sem um todo”. Já Álvaro de Campos conta que ele, Caeiro, lhe referira “que não sei quem lhe tinha chamado em tempos poeta materialista. Sem achar a frase justa (…) disse(lhe), contudo, que não era absurda de todo a atribuição. E expliquei-lhe, mais ou menos bem, o que é o materialismo clássico. Caeiro (…) disse-me bruscamente: Mas isso o que é é muito estúpido. Isso é uma coisa de padres sem religião, e portanto sem desculpa nenhuma (…) Essa gente materialista é cega. V. diz que eles dizem que o espaço é infinito. Onde é que eles viram isso no espaço? (…) Homem, disse eu, suponha um espaço. Para além desse espaço há mais espaço, para além desse mais, e depois mais, e mais, e mais…Não acaba…Porquê? disse o meu mestre Caeiro (…) Suponha que acaba, gritei. O que há depois? Se acaba, depois não há nada, respondeu (…) Mas V. concebe isso? (…) Se concebo o quê? Uma coisa ter limites? Pudera! O que não tem limites não existe. Existir é haver outra coisa qualquer e portanto cada coisa ser limitada. O que é que custa conceber que uma coisa é uma coisa, e não está sempre a ser uma outra coisa que está mais adiante? Nessa altura senti carnalmente que estava discutindo, não com outro homem, mas com outro universo (…). E numa carta de 25 de Fevereiro de 1933, Fernando Pessoa expressa a João Gaspar Simões, que “para dizer qualquer coisa parecida com a verdade, gostaria que vocês publicassem O Guardador de Rebanhos (…)”. É a este poema que pertence o verso talvez mais conhecido de Caeiro: “Há metafísica bastante em não pensar em nada”, a que se seguem outros que ilustram bem a radicalidade desta poesia: “Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?/A de serem verdes e copadas e de terem ramos?/E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,/A nós, que não sabemos dar por elas./Mas que melhor metafísica que a delas,/Que é a de não saber para que vivem/Nem saber que o não sabem?/«Constituição íntima das cousas»…/«Sentido íntimo do Universo»…/Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada./É incrível que se possa pensar em cousas dessas./É como pensar em razões e fins/Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores/Um vago oiro lustroso vai perdendo a escuridão/(…)O único sentido íntimo das cousas/É elas não terem sentido íntimo nenhum(…).

PS: Talvez inspirada pelo artigo crítico de Fernando Pessoa, “Régie, Monopólio, Liberdade”, de 1926, no qual o ilustre autor defende que “(…) a administração de Estado é o pior de todos os sistemas imagináveis (…)” e que, “de todas as coisas «organizadas», é o Estado, em qualquer parte ou época, a mais mal organizada de todas”, a pessoana Clara Ferreira Alves escreve com a sua “pluma caprichosa” (revista do semanário Expresso, de 2016-10-29), que “por razões ideológicas, a querela apresenta uma série de impronunciáveis. O que o primeiro ministro (…) tem de querer, é um banco público (a CGD) que seja gerido com os critérios de competência, exigência e rentabilidade de um banco privado.” Donde se conclui que estes critérios são, por definição, inerentes à gestão de um banco privado e, consequentemente, estiveram presentes na gestão do Lehman Brothers, do BPN, do BPP, do BCP, do BES, do BANIF, do…Realmente, a querela apresenta uma série de impronunciáveis…

OS VENDILHÕES DO TEMPLO

Manuel Joaquim

António Aleixo, o poeta do Povo, visto pelo neto Vitor Aleixo ...


Numa conversa com um Amigo meu, depois de comentarmos os acontecimentos que enchem a  rádio, a televisão e os jornais, este,  concluiu com um dito, que o carcereiro de Vimioso, o Carricinha, utilizava quando observava assuntos que lhe chamavam a atenção: “O que aqui anda!”

1 – O folhetim da Caixa Geral de Depósitos, que parece que nunca mais acaba.

É público que o  homem demite-se, como é público que, depois disso, entregou a tal declaração de rendimentos que faltava entregar e que os jornais diziam que se recusava entregar. Se calhar, não era ele quem  não queria entregar a declaração.

Pelo que veio a público, terá sido a aprovação de uma proposta na Assembleia da República pelos dois partidos da direita, apoiados  por um outro partido,  o mesmo que se recusou a acompanhar o Presidente da República na sua deslocação a Cuba, e que apoia o governo, que o levou a apresentar a demissão. Mas não acredito nisso.

Acredito mais na falta de condições políticas para aplicar o seu plano de reestruturação, depois de tudo o que se disse. Os valores necessários para a recapitalização serão, certamente,  insuficientes;  os despedimentos de centenas de trabalhadores com pesados encargos financeiros e consequente encerramento de balcões, particularmente no interior do país; a venda de negócios lucrativos no estrangeiro, são situações  muito discutidas e nada pacíficas a nível do actual poder político.

A direita continua a incriminar o Vara como se fosse ele o único responsável pelos prejuízos. É uma parte da verdade. Mas há outras partes da verdade sobre que  ninguém fala. Os valores do Vara, multiplicados por cinco, são valores da responsabilidade dum tal  Faria de Oliveira. Responsável pelos prejuízos da Caixa em negócios em Espanha, juntamente com outro que agora está no BP.

Alguns riem-se por o BCE obrigar alguns administradores indigitados a fazerem formação para exercerem os respectivos cargos. Desconhecem o que se passa actualmente na área financeira.

Uma Caixa Económica, pertencente a uma associação de socorros mútuos, procedeu à realização de eleições para os seus órgãos sociais. Aconteceu que o Banco de Portugal teve que aprovar os respectivos nomes e considerou necessário que alguns elementos da Direcção fossem submetidos a formação, não obstante serem  bancários qualificados.

2 – Eleições nos Estados Unidos e  o  seu  sistema eleitoral. Apesar da grande campanha eleitoral feita nos EUA e no mundo, contra o candidato republicano Donald Trump, acusando-o, quase, de ser um traidor, foi eleito presidente.

A maior parte dos comentadores, antes e depois das eleições, não falam do seu programa eleitoral, nem de alguns dos seus discursos onde retrata a situação económica e social dos EUA.

A candidata derrotada teve mais de dois milhões de votos do que ele. Não é a primeira vez que o candidato com mais votos perde as eleições. O princípio fundamental de um “homem um voto” não se verifica nos Estados Unidos. Os mecanismos existentes permitem esta situação não democrática.

 Os tais comentadores também  não falam sobre o sistema eleitoral. E se falam sobre ele é para tentarem justificar o injustificável, como aconteceu esta semana com um safado desta cidade, filho de um profissional de seguros,  deputado no PE, referindo-se à existência  do colégio eleitoral por os EUA serem uma república federal. Há mais países que são repúblicas federativas e nada se passa assim. Mais de dois milhões de votos de cidadãos que valeram zero.

É bom saber que nos EUA há quem considere que o processo eleitoral é obsoleto e não democrático, contrariamente ao português magrinho.

A senadora do estado da Califórnia Barbara Boxer apresentou no Senado um projecto que prevê a eliminação do Colégio Eleitoral e a transição para uma sistema de eleições presidenciais directas. Considera que o sistema actual “é absoleto e não democrático” E disse “ Somos o único país no mundo onde é possível obter a maioria dos votos e mesmo assim perder as eleições”.

É evidente que nada vai mudar. Era preciso que o Senado aprovasse e três quartos dos estados ratificasse no decurso de sete anos.

3 – Aprovação do orçamento do Estado.

Foi aprovado o orçamento do Estado para o ano de 2017 nos prazos constitucionais.

As medidas aprovadas representam ganhos muito significativos para grande parte da população. Ganhos que se traduzem em dinheiro. Benefícios para pequenos agricultores, pescadores, proprietários de prédios rústicos abaixo dos 50 hectares, isenções de IMI para baixos rendimentos, , alargamento do abono de família, preços dos medicamentos, apoio às artes, não actualização das custas judiciais, redução do pagamento especial por conta, aumento das reformas, etc,

Tudo isto resultou da alteração política que se verificou em Portugal.

É preciso que  os portugueses sejam mais felizes.

Comecei com um dito popular de Trás-os-Montes, quero acabar com um poema de um grande poeta popular, do Algarve, de Vila Real de Santo António, António Aleixo.

Os Vendilhões do Templo

Deus disse: faz todo o bem 
Neste mundo, e, se puderes, 
Acode a toda a desgraça 
E não faças a ninguém 
Aquilo que tu não queres 
Que, por mal, alguém te faça. 

Fazer bem não é só dar 
Pão aos que dele carecem 
E à caridade o imploram, 
É também aliviar
As mágoas dos que padecem, 
Dos que sofrem, dos que choram. 

E o mundo só pode ser 
Menos mau, menos atroz, 
Se conseguirmos fazer 
Mais p'los outros que por nós. 

Quem desmente, por exemplo, 
Tudo o que Cristo ensinou. 
São os vendilhões do templo 
Que do templo ele expulsou. 

E o povo nada conhece... 
Obedece ao seu vigário, 
Porque julga que obedece 
A Cristo — o bom doutrinário. 

António Aleixo in "Este Livro que Vos Deixo"






04/11/16

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UMA SEMANA DE GREVE!

Mário Faria



Entrei em greve. Modesta como a idade obriga. Continuei a comer e beber. Apenas deixei de ver a TV e de ler jornais. À socapa, fiquei-me por espreitar as notícias desportivas e a sorte do homem mais procurado de Portugal. E sobre este, já não sei por quem sou. Criei uma simpatia pelo tipo que tendo a disfarçar. Cheguei a este ponto sem retorno. E sem critério. Por outro lado, não sei o que dizer. E dá jeito para fugir da escrita. E da controvérsia. E dos figurões e das figurinhas. Falo muito comigo. E a intervenção é cada vez mais escassa, embora tenha a minha experiência em muito boa conta. Poderia ser de outra maneira? Podia e devia, mas era outra coisa. Falo e escrevo da forma que me dá mais jeito. E tenho sempre razão quando discuto com os meus botões. Felizmente, a minha mulher tem-me ajudado muito neste período de privação e não se cansou de me pôr ao corrente de tudo o que é importante, sendo muito meticulosa na descrição meteorológica cá da nossa terra e de todo o planeta. Num ápice, sentia calor, frio, chuva, as tempestades e a terra a tremer. Cheguei a este estado de negação, de fuga para a frente ou o que seja, por três motivos principais: a reeleição do Kadafi dos Pneus e o bombardeamento de directos de propaganda ao acontecimento, sempre a favor do figurão que é presidente do SLB e as notícias do Público e, em especial, do génio que dá pelo nome de João Miguel Tavares. Ele denuncia, julga, condena e perdoa. Um liberal à moda de Thatcher. A terceira, a gota que entornou o frasco, foi a aparição nas pantalhas da TV de Teodora Cardoso, a senhora UTAO. Não há pachorra. Não posso com a mulher, nem com “sus muchachos”. A lengalenga sobre o défice estrutural, tornou-se viral na direita. E estes vírus são resistentes. Repetem a receita de Schäuble, ad nauseam. E com a mesma arrogância. Sem repelentes eficazes, resta o desabafo injurioso. E insultei-os com os palavrões da ordem. Para ficar completamente deprimido, vi com os meus olhos que a Livraria Torres fechou. Muitos anos viveu e sempre próxima. Não era tão antiga, nem tão bonita como a Lello, mas cumpria dignamente a sua função e era lá que ia espreitar e folhear as revistas de cinema nos meus tempos de adolescente, disfarçadamente, antes de comprar o lápis ou esferográfica, conforme a disponibilidade financeira e a necessidade do momento. E depois, sempre que o disfarce resultou, ficava deslumbrado com os belos corpos das estrelas. E sonhava. Como pode ser: tanta loja de perfume e tanta pomba assassinada? Fico triste ao assistir à “morte lenta” do nosso comércio tradicional. Pieguices. Fugi. Refugiei-me em San Agustin del Guadalix. Por lá, não faltou entretimento. Em conversa com familiares e amigos, dei conta do meu desgosto. Confortaram-me e explicaram-me que o comércio vai voltar em força ao centro das cidades, que as lojas serão simples expositores de produtos, as compras feitas on-line e entregues em casa. Tudo direitinho. E que os grandes centros comerciais dos subúrbios, têm os dias contados. E que as lojas tradicionais têm de se actualizar ou morrem. Perguntei: e os saldos vão acabar? Sorriram de forma condescendente e não responderam. Este admirável mundo novo, veio para ficar. Asseguram-me. Não consegui ficar feliz. Regressei ao Porto. Fui ao Lidl: apalpei os figos, comprei laranjas e o pão acabado de sair, quentinho, quentinho, que devorei num ápice. Reflecti e decidi levantar a ordem de greve a que me impus. O debate sobre o orçamento reclama toda a atenção, ansioso que a esquerda dê uma “tareia” à direita que anda a pedi-las.



OS POSSESSOS



António Mesquita
(Ernst Hanfstaengl à direita) 


"Para ele (Hitler), falar era um modo de satisfazer um desejo violento e esgotante. De repente, o fenómeno da sua eloquência tornou-se-me compreensível. Os oito ou dez minutos finais de um discurso assemelhavam-se a um orgasmo de palavras."

(Ernst Hanfstaengl, chefe do serviço de imprensa do partido)


Nada disto é novo. Freud abriu a porta das interpretações auto-referentes. O mundo perdeu a impenetrabilidade da natureza que reclamava os seus próprios deuses, e a palavra separou-se da sua origem mágica para se adaptar à perfeição do discurso científico.

A ideia que o chefe de imprensa nazi viu no seu führer entusiasmado (à letra, possuído pelo deus) não era totalmente 'alienada'. Hanfstaengl era um homem do seu tempo e, aqui, permite-se uma espécie de juízo crítico, senão blasfemo, sobre o líder, ao 'denunciar' a natureza sexual do fascínio que exercia nos comícios. Há então uma destruição de valor simbólico, na área religiosa, como a visada por alguns que contestam a 'pureza' (aqui a ausência de um interesse ou de um prazer próprios) na vida dos santos.

Por outro lado, Hitler é visto não como um homem inteiramente responsável pelos seus actos, em razão da dita possessão, e antes como uma energia auto-destruidora. Como um 'medium', no momento supremo, engasgado pela serpente da metamorfose.

Se se pode falar em fascínio é precisamente por que por detrás da violência das palavras e dos gestos, a multidão pressente que o 'possuído' se encontra num altar onde ele e a Alemanha romântica vão ser, de facto, sacrificados.

Pode compreender-se este fenómeno unicamente com as categorias da política?

Esta 'história alemã' vive uma quase-repetição nas eleições americanas. Mas, aí, o demagogo não está possuído, razão por que o elemento trágico está completamente afastado. É, sem dúvida, uma ideia da democracia e da história do país que já foram sacrificados por um apoio massivo. Mas tudo se passa, como disse Marx, sob o modo da farsa.

O que, apesar de tudo, nos dá alguma esperança...



NUNCA COMO NO OUTONO

Mário Martins


Chopin e George Sand
http://www.polishnews.com/index.php?option


Nunca como no Outono
os telhados são tão oblíquos
a luz tão coada 
tão românticos os jardins e as fontes 
a paisagem tão quieta
o éter tão propício a uma balada de Chopin
As árvores mais atrevidas 
indiferentes a gripes e constipações
despem-se na praça pública
lançando a roupa mais secreta
aos pés de quem passa
Tonificados pelas viagens
pelo sal do mar 
pelo ar das serras
ou pela festa da aldeia
reentramos no habitual 
onde, diz Agustina, o amor é invisível

NOVOS POETAS


Manuel Joaquim





Ainda a propósito de Tavira,  para além do movimento contra a exploração de petróleo e gás que observei  em todo lado, conforme referi no artigo do passado mês de Outubro, registei, com curiosidade e simpatia,  o nome de Álvaro de Campos em restaurantes, em lojas, numa associação culturalque tem precisamente esse nome, em sessões de poesia e a preparação de uma iniciativa  cultural para comemorar o seu aniversário.

Como se sabe, Álvaro de Campos, filho do fingimento do poeta fingidor, nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890,  pela uma e meia da tarde,  engenheiro naval, tipo vagamente judeu português, estudou na Escócia e viajou pelo Oriente. Segundo dizem os entendidos, seu pai, deu-lhe mais 26 irmãos. Sendo, provavelmente, o mais culto de todos, vale a pena conhecer as suas obras: Opiário, Ode Marítima, Ode Triunfal, Passagem das Horas, Tabacaria, Aniversário, Lisbon Revisited

O pai, considerava que, naquela época,  havia uma grande falta de literatura, pelo que, através dos filhos, poderia ser ele a própria literatura.

Assim, através de fingimentos, nasceu em Tavira um movimento cultural muito interessante com resultados muito positivos. 

E novos poetas vão realmente nascendo em Tavira, como é o caso de:

URGÉLIA SANTOS



Tavira
No seu ventre corre o Séqua e o Gilão
Pelas suas encostas, escorre a tradição
Tesouros escondidos nos seus telhados
Onde gaivotas espalham os seus gritos 
molhados
As águas do rio espelham o colorido
casario
Onde se está tão bem, no calor do verão
ou no inverno frlo
La no alto de Santa Maria, o relógio 
espreita
Comunhão com o Castelo, que tão bem o 
aceita
Terra de tanta história e lendas 
encantadas
E tanta Fé...
Vê-se nas suas inúmeras igrejas caiadas
As suas pontes ligam as gentes e as 
margens
Os turistas passeiam e roubam as suas
imagens
Tavira, esculpida entre a Serra e o Mar
No Sul, luz e calor, de braços abertos... a 
vos esperar

CARTAS DE SANTA MARIA


(Mértola)

Mértola, 31 de Outubro

O Outono alcançou-me a meio do mês entre a chuva branda e a torrencial, esta breve mas mais caudalosa, arrastando na sua força a terra que resistia, e quantas vezes as construções humanas que se erguem a eito a mando dos interesses abjectos e gananciosos de gente que entende que o mundo deve viver sem lei e sem normas, acabam alagadas ou destruídas. A lei do Mercado, dizem alguns, plenos dessa sapiência bacoca que além de apalhaçarem a comunidade colectiva do território, demonstram, quantas vezes, que ainda não chegaram a estrear a cabeça. Depois, chegam estas águas, reclamando espaço e leito que lhe foi subtraído. Mas por agora, ressalta mais a amenidade do tempo. As folhas vão tombando nessa dor final de se transformarem, e como alento definitivo da sua amargura, emulam-se em cores sobrenaturais, adquirindo uma beleza que nos deixa também nessa melancolia amarga e bela do que se está a alterar à nossa volta. Já tombadas arrastam-se ainda pelo chão, numa recusa em partir que só a acção do vento e humana consegue por fim vencer. Estou sentado na esplanada do “Terra Utópica”, como se estivesse numa varanda sobre o rio, a meio da encosta. Invade-me um desses encantamentos de serenidade que certos locais nos proporcionam. O Guadiana, vencido o Alqueva, deixa-se ir, vagaroso, sem pressa, contemplando a paisagem das margens. Ainda tem sessenta quilómetros de passeio até que o mar lhe salgue as águas. Esta pequena cidade, oferece-nos também assim um momento de placidez, de devaneio das ideias ou, se o desejarmos, de profunda reflexão do tempo dos Homens. E este espaço brinda-nos com razões acrescidas para isso. Há visitas que deviam constituir obrigação e aqui, nesta terra onde me encontro, o Museu Municipal, com os seus núcleos romano e de arte sacra e o campo arqueológico, devem fazer parte desse conhecimento que não devemos, nem rejeitar nem ignorar. Não há presente sem passado. Há três polos a que chamo, com um pouco de elasticidade académica, civilizacionais, que atravessaram Mértola, como aliás parte substancial do país que hoje somos. Os Romanos deixaram-lhe Mirtilis Júlia como testemunho da sua presença. Dos Visigodos que planaram sobre a Península ao longo de duzentos anos e ainda menos na parte ocidental, pouco ficou. Serviram-se das estruturas romanas e ajustaram-se ao que encontraram. Algo me diz e se retém no meu pensamento que os Visigodos não eram propriamente um povo que se recomendasse. Diz-nos Eduardo Manzano que desde que se instalaram na Hispânia, entre 507 e 711, 14 dos seus monarcas, entre 27, foram depostos por, conspirações, assassinatos ou mortos em batalhas pelo poder. Por fim, chegaram os Árabes à península e para além de representarem um avanço civilizacional, transportavam uma nova religião, um outro Deus que muito se ajustava à intensa luz que a Sul se usufrui. Assim se instalaram na sua Martulá por quinhentos anos. Os trabalhos arqueológicos das últimas décadas com destaque para a acção de Cláudio Torres, permitiram trazer ao presente essa herança islâmica que viaja em nós e que ao longo dos séculos, viveu afundada pelos diversos regimes que se assumiam com esse catolicismo intolerante. Esse renascimento do árabe que também somos, permitiu que hoje uma das figuras da cidade, seja, Ibn Qasi, um sufista que chegou a liderar uma Taifa de Mértola que teve vida breve e morreu com o seu criador. A travessia do Alentejo, as pequenas ruas de Mértola, a tranquilidade arrebatadora destes espaços, impelem-nos naturalmente para o pensar reflexivo. Por todo este espaço territorial a que chamamos «o nosso país», passaram vários Deuses, únicos e verdadeiros. Ao longo da nossa história, encontramos 500 anos de um Deus islâmico, levamos 700 anos de um Deus cristão, além de um Deus judeu mais tímido, mais guetizado. Na óptica de cada crente, o seu Deus sobrepõe-se a todos os restantes, pela verdade que assume, pela prática que aponta, pela razão dos seres humanos que o seguem. Mas a grande questão é que qualquer um destes Deuses fala com os seus cordeiros por interposta pessoa, através daqueles que se dizem intérpretes das suas vontades e desejos e aí temos o início de uma saga que nos vem conduzindo a estradas sem saída. No contexto português, o Deus cristão sobrepôs-se aos restantes e literalmente varreu-os do território e aos que teimaram em desobedecer, em permanecer na terra que os viu nascer e crescer ao longo de gerações, imolou-os em girândolas de fogo. Nunca tremeu a mão aos torturadores inquisitoriais no seu trabalho de açaimar os relapsos. Hoje atravessa-nos o horizonte o que chamamos de «fundamentalismo islâmico». De novo e em nome de Deus as cabeças rolam decapitadas do Sael ao Iraque. Para nosso descanso, o democratíssimo clã Saud, uma casta que se apodera, em proveito próprio, das riquezas da península arábica, distribui o seu tempo entre a vergasta e a decepação dos que não se acolhem debaixo do seu mundo protector. Os seguidores do outro Deus destas terras de paisagem árida e quase estéril, não se detêm na sua euforia salvífica e na sua intolerância e inclemência semearam a Palestina de pequenos Auschwitzs, mais lentos, menos gasosos mas suficientemente mortíferos, enquanto dolentemente abanam a cabeça junto ao Muro. Vivo entre o canto dos monges que a Norte acordam a solidão ao amanhecer e a luminosidade do Sul que arrasta o canto que chama à oração. Na perseguição da perfeição, os seres humanos na sua versão masculina criaram Deuses para um melhor acolhimento dos valores, da ética e da moral que entenderam como justas e correctas para a Humanidade. Seguiram-se-lhe os intérpretes e Deus ficou cada vez mais longe, mais alto, impossibilitado de escutar as maldades daqueles, praticadas em seu nome. Por onde passaram, sempre levaram, a espada e o Livro, e o registo que deixaram, nas Américas e em África, cabe no conceito de genocídio. Hoje, levam bombas e democracia, mas a intolerância e a mortandade é a mesma e no que chamam a grande nação democrática, escolhe-se em breve entre os tambores da guerra e os tambores da loucura. E a nossa passividade segue este cortejo fúnebre da História. Quando me é possível olhar em redor, facilmente encontro a Beleza da Vida e ocorre-me de imediato a frase chave de Duby, «Deus é luz». O escritor Victor Serge numa das suas obras (1), oferece-nos a imagem de Deus na versão simples de um diálogo entre dois proletários da revolução russa: «- És crente, Maria? (…). – Não acredito em beatices, Kostia, tenta entenderme. Acredito em tudo o que é. Olha à nossa volta, olha! O seu rosto de lábios bem recortados voltou-se impulsivamente para ele, para lhe mostrar o Universo: aquele céu simples, as planícies, o rio invisível sob os juncos, a amplidão. – Não sei dizer em que é que eu acredito, Kostia, mas acredito. Talvez acredite apenas na realidade. Tens de me entender. (…). – Tens razão, Maria, sou crente como tu, vejo… A terra, o céu e a própria noite, onde as trevas não existem, uniram-nos inexprimivelmente, testa com testa, misturando-lhes os cabelos, olhos nos olhos, boca contra boca, os dentes entrechocando-se levemente. – Maria, amo-te…». À minha volta o dia apagou-se, do horizonte restam apenas as luzes, as que rompem pelas janelas das casas e as que dão um ar de magia às ruas da pequena cidade. Ao longe, num traço minúsculo, a ponte que amanhã me leva para Leste. Deus está em toda a parte, mas os fanáticos, não o vêem, permanecem cegos numa estrada estreita onde apenas vislumbram o seu endeusado Eu.

Fernão Vasques* 

As guerras são tapetes.

Por debaixo deles se ocultam
as imundícies dos poderosos. 

Mia Couto 
(1) O Caso do Camarada Tulaev, Letras Errantes, Lda., Silveira, Junho de 2016.


* Por favor, não me confundam com o corajoso alfaiate que em 1371 ousou desafiar, em nome do povo, O Formoso e a futura rainha. Sou apenas um sonhador, digo eu, dos finais do século XX com endereço em Santa Maria das Júnias. São duas ruínas que se amparam, as minhas e as do mosteiro.

01/10/16

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CAMPANHA ECOLÓGICA NO ALGARVE

Manuel Joaquim

(Tavira)


Esta semana estive em Tavira a participar,  com o Grupo Coral da AGEAS, na inauguração da  exposição de fotografia , “Azul, Tesouros Islâmicos do Uzbequistão”, de  Luís Reina, no museu Islâmico,  e no “Concerto de Outono”, na Igreja da Misericórdia, que teve, também, a participação do Grupo Coral de Tavira e do Grupo Coral de Quarteira.

Passeando pela cidade, vi em quase todos os estabelecimentos comerciais, restaurantes e instituições culturais e recreativas, uma campanha muito forte contra a exploração de petróleo e gás em Portugal, com recolha de assinaturas.

Ao procurar informações sobre essa campanha, vi que muitas pessoas manifestavam grande preocupação com o eventual desenvolvimento desse processo.  A campanha está em curso em todo o Algarve e tem o apoio de muitas associações e movimentos.

E são contra a exploração de petróleo e gás em Portugal pelo seguinte:

“Pelo risco de contaminação dos aceanos e solos:
Nas explorações offshore existe um enorme prejuízo para a biodiversidade marinha, devido às perdas regulares de hidrocarbonetos, com reflexos evidentes nas pescas. Em explorações terrestres, não convencionais, como o fracking, existem fortes possibilidades de contaminação dos solos e lençóis freáticos.

Contra a destruição e empobrecimento da paisagem:
Pela sua natureza natural, e enorme diversidade ambiental, o nosso país, nomeadamente o Algarve, é procurado por visitantes nacionais e estrangeiros. Não podemos dar-nos ao luxo de o estragarmos.

Pelo empobrecimento que trará:
Portugal depende muito do Turismo. Os impactos esperados condicionarão fortemente esta indústria. Por outro lado, as baixíssimas rendas de exploração, bem como as ridículas percentagens dos lucros negociados nos contratos, não geram verdadeira riqueza.

Pelo risco sísmico:
Muitas das zonas sujeitas a perfurações são de elevada sismicidade. A injecção de águas residuais e salgada no subsolo pode, por si só, originar sismos suficientemente grandes para serem sentidos e causar danos.

Pelo potencial renovável:

Portugal é um dos países da Europa com maior disponibilidade de radiação solar. Temos também um grande potencial eólico e uma consolidada capacidade tecnológica. Pura e simplesmente, não precisamos deste tipo de “recursos” nocivos.

Contra o aumento das emissões poluentes: 
A combustão de hidrocarbonetos emite gases com efeito de estufa. Apenas o consumo das reservas convencionais de combustíveis fósseis já conhecidas no subsolo faria aumentar em mais de 2 graus a temperatura média do planeta. Isto já nos colocará numa trajectória de elevados impactos climáticos com consequências ambientais, sociais e económicas bastante elevadas. Para quê ir procurar mais reservas e explorá-las?

Terá o Estado Português consciência daquilo com que se comprometeu ao assinar o acordo COP21 em Dezembro de 2015? (http;//www.futurolimpo.org/; http://asmaa-algarve.org Facebook Futuro Limpo”)
Enviaram mensagens para os Presidentes das Câmaras e para os líderes parlamentares portugueses e europeus.
É uma campanha muito forte mas que não tem ecos na comunicação social dominante. 

No artigo do mês passado “ Ibéria” está um erro que importa corrigir.

A Espanha não é o segundo maior país da EU, conforme está referido. É, de facto,  o segundo maior país do sul da EU. 
De acordo com a informação que um Amigo leitor (GM) me fez chegar, que muito agradeço, os maiores países da EU são os seguintes:

Alemanha: 80 milhões; 
França: 65 milhões; 
Itália: 59 milhões; 
Inglaterra: 53 milhões. 




CARTAS DE SANTA MARIA


(Miróbriga)

Santiago do Cacém, 30 de Setembro 

Sinto-me cansado, pelo que esta será uma carta breve. De tanto verem, os olhos já não conseguem exprimir-se em palavras. Atravessei o Alentejo sob um calor tórrido, o que me fez lembrar Juan Rulfo no conto sobre Pedro Páramo quando o almocreve Abundio diz ao narrador que em Comala o calor é tão abrasador que os que ali morrem e vão para o inferno levam um agasalho para se protegerem. Escolhi sempre o fim da tarde e a madrugada para caminhar. Evitava as labaredas do sol e espantava-me com a luz da paisagem, com as cores do silêncio e a suavidade dos sons. Cheguei a percorrer a estrada de noite para ver esse esplendor de estrelas desenhando galáxias, mundos infinitos, enchendo o céu e os nossos olhos. A fantasia transformada em êxtase. Santiago não me entusiasma, mas vim à procura de Miróbriga. Todos os dias percorro o quilómetro que me leva até às ruínas e deixo-me vadiar a aguardar pelo crepúsculo. Reflicto sobre o Império, sobre os impérios. A grandeza a desmoronar-se no fim do ciclo. Roma surge do quase nada, mas o espaço evolutivo onde cresce, dá-lhe dimensão como quem ganha asas. Criou instituições, organizou o que podemos chamar uma forma de Estado e militarizou a defesa. Em redor, os povos estavam retidos pelo tempo e esse tornou-se o factor decisivo. Quinhentos anos depois o Império sucumbia às mãos das tribos bárbaras. Não, Roma não foi conquistada, simplesmente caiu por si própria, desintegrou-se por esgotamento do sistema de poder, económico e político. Nos últimos cem anos, tudo se desagregava, desde as instituições, o sistema de valores, a ordem social. Ruiu com o estrondo de um iceberg no fim da Primavera. Com a sua queda, arrastou o mundo mediterrânico a norte e a sul. Tombaram os homens, mas as estruturas, aguentaram-se. Os povos que chegaram, compreenderam que do reaproveitamento, resultaria o seu próprio enriquecimento. Miróbriga, como tantas outras ruínas imperiais, ajudam a compreender os saltos civilizacionais que ocorrem em certos espaços, repetindo-se noutros. Procuro a sombra dos cedros e deixo que a memória vá com o olhar na procura do passado. A História, permite-nos essa viagem analítica através do tempo. As pedras testemunham a vivência humana, pois o estudo da história é sempre a vida dos seres humanos. Fazem parte e constroem a história. Como tantas vezes ocorre, espreitar o passado, seja o mais longínquo ou o mais próximo, torna-se num auxiliar precioso para a compreensão dos gestos, das atitudes, das acções humanas. Olhando os tempos pretéritos, interrogo-me se, como expressou Pessoa, evoluímos ou apenas viajámos. Roma moribunda parece repetir-se no presente, com a pretensa civilização branca, assediada pela servidão periférica, com as instituições estremecendo, a estrutura económica imobilizada, os exércitos desvairados, o sistema de valores em mutação profunda e os avanços da ciência e da tecnologia, ao mesmo tempo que nos prolongam a vida, fazem-nos aproximar da possibilidade da extinção. Ao contrário de Roma, podemos prolongar-nos no espaço, mas se o Império pôde sobreviver ainda mil anos a oriente, creio que já não teremos a nossa Constantinopla. Há seis meses que não me aproximava do mar. Está a escassos onze quilómetros em linha recta, mas amanha regresso ao interior.

*Fernão Vasques


* Por favor, não me confundam com o corajoso alfaiate que em 1371 ousou desafiar, em nome do povo, O Formoso e a futura rainha. Sou apenas um sonhador, digo eu, dos finais do século XX com endereço em Santa Maria das Júnias. São duas ruínas que se amparam, as minhas e as do mosteiro.

O CORTESÃO

 António Mesquita

(Versaillesblog.blogspot.com)

A Durão Barroso e ao seu novo emprego podia aplicar-se o que Tony Judt dizia de Tony Blair: "Blair transmite um ar de profunda convicção, mas ninguém sabe bem no quê. Ele não é tanto sincero como Sincero." 

Também o ex-presidente da Comissão Europeia, depois da sua espectacular 'mudança de casaca', enfiando-se a pés juntos pelas fauces adentro do capitalismo, resplandece de convicção e ungido por um amor indefectível à causa da liberdade de escolha.

Conseguirá resistir à onda de reprovação que provocou entre os seus antigos aliados?

Como diz ainda Judt: "Não há qualquer calculismo na não-autenticidade de Tony Blair. Ele adquiriu-a honestamente, digamos assim." Talvez Barroso, tal como Blair, simplesmente, goste de ricos." (presunção de Charles Moore, do 'Daily Telegraph' sobre o ex-primeiro ministro britânico)

Tudo se passou, como naquelas drásticas mudanças de partido, 'com armas e bagagens' e declarações pomposas a que a veia sarcástica de Eça nos habituou, em pérolas como o 'Fradique Mendes'. E nós que, pelo menos indirectamente, chegámos a sentir algum orgulho por um compatriota ter ocupado um posto de tanto prestígio, só podemos deixar esvaziar o balão.

Mas não é preciso procurar de lanterna as convicções sinceras e fundadas. Só não podem seguir a carreira de cortesão.


ENCONTRO PESSOANO


Mário Martins

https://www.google.pt/search?q=fernando+pessoa+heteronimos


Estava Eme, num destes fins de tarde, no Martinho da Arcada, concentrada – o leitor não estranhe, Eme, para minha própria surpresa, é uma personagem do género feminino – em desvendar se é provocatória ou verdadeira, em qualquer caso de fino recorte, a afirmação pessoana de que “…nada tem, cientificamente falando, existência ‘real’. As coisas são sensações nossas, sem objectividade determinável, e eu, sensação também para mim mesmo, não posso crer que tenha mais realidade que as outras coisas…”, quando a sua atenção foi atraída por um diálogo na mesa ao lado que a deixou estupefacta: “Então por onde tem andado o meu ilustre amigo Álvaro de Campos? Bem, por aí, no mesmo universo literário que você frequenta, ainda que em diferente galáxia, meu caro Ricardo Reis. Calculo que o Álvaro tenha saudades do seu mestre Alberto Caeiro, ele que já morreu há uns bons anos. Sim, sim, em 1915, de tuberculose, tinha apenas 26 anos. Você já viu, Ricardo, que aquele “louco sonhador” do Fernando Pessoa - “…Sem a loucura que é o homem/Mais que a besta sadia/Cadáver adiado que procria?”; “Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida” – considerou Caeiro, que igualmente reconhecia como seu Mestre, nascido em 1887, ou seja, um ano antes dele próprio vir ao mundo? Como Você sabe, para mim, Fernando Pessoa “…não existe, propriamente falando”, sensação que ele próprio não desmente na sua tábua bibliográfica: “Se estas três individualidades (Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos) são mais ou menos reais que o próprio Fernando Pessoa – é problema metafísico, que este, ausente do segredo dos Deuses, e ignorando portanto o que seja realidade, nunca poderá resolver”. Saramago bem tentou matar-me, a mim, Ricardo Reis, mas a morte que o nosso Prémio Nobel situou em 1936, não representa mais do que a farsa da morte de Fernando Pessoa, inventada pelo próprio em 1907, para saber que opinião tinham dele os seus colegas e professores de escola na África do Sul: “[Estou a escrever-lhe a respeito do] falecido Fernando António Nogueira Pessoa, que se pensa ter cometido suicídio; pelo menos fez explodir uma casa de campo onde se encontrava, tendo morrido ele e várias outras pessoas…”. De resto, na poesia de Pessoa “A morte é a curva da estrada/Morrer é só não ser visto”. Não sabemos como a conversa prosseguiu e acabou, e mesmo se acabou, porque, de repente, Eme sentiu a necessidade imperiosa de molhar os pés no Tejo, pelo que saiu do café quase a correr…
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