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02/11/17

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NO CORRER DOS DIAS

Marques da Silva




Quando as imagens nos alcançam deixam-nos naquela estupefacção de não conseguirmos compreender o que os nossos olhos vêem. Num primeiro instante, pareciam desenhos animados, uma cena de ásterix, de bonecos ou desenhos atirados ao ar, personagens puxadas pelos cabelos e vergastadas por todo o lado. Só quando a luz incide com mais clareza compreendemos que havias aberto o teu canil privativo e soltado os teus perritos sem açaime, com o grito «vamos a eles». A violência gratuita foi sempre o símbolo dos covardes, daqueles que utilizam o autoritarismo do poder para desencadear a imposição das suas ideias, das suas verdades, dos seus ódios, das suas desigualdades. No fim do dia lá apareceste tu, marianito, a falar de democracia com aquela cara de imbecil a que nos habituaste. Falavas de democracia e a memória trazia-me as palavras poéticas de violeta parra, “miren como nos hablan de libertad/ cuando de ella nos privan en realidad”. E na tua infinita estupidez falavas do teu país azul, de que são todos azuis, daqueles que só queriam perturbar a convivência entre todos os azuis, que essa nação azul nunca se vai fragmentar, injuriavas o nacionalismo dos azuis-escuros, enquanto exaltavas o nacionalismo dos azuis-claros, dizias que o país azul é uma nação onde vivem todos os azuis e eu sentia como a tua parvoíce ia aumentando na mesma dimensão da tua ignorância. Marianito, porventura, sabes o que é uma nação? Sabes que o teu país azul pode ser um Estado, um país, mas não é uma nação? Não sabes, nem necessitas de o saber, afinal o teu Partido Podre não precisa de explicar nada, as suas acções são demasiado esclarecedoras. A ordem e a constituição, bolçavas tu, marianito, como algo intangível e sagrado. Compreendo. O teu Partido Podre foi uma invenção do fraguita, onde se puderam acolher todos os criminosos, assassinos e torturadores que tiveram uma vida farta, à sombra do excremento ferrolano. Foi assim, com pactos de silêncio, é «melhor esquecer o passado, pois mexer-lhe é como abrir uma ferida que não mais vai curar», que cobriram, taparam com um manto vergonhoso os seus crimes, que ao longo de 40 anos, o regime violento e torturador que o vermezito sedicioso implantou sobre um milhão de mortos, passeados, fuzilados, torturados e explorados. É esse o teu país azul, marianito, que herdaste e prolongas, com as tuas audiências nacionais, essa tua justiça, a tua moderna inquisição, enquanto vais tirando do armário os esqueletos que a ditadura acumulou e foi guardando. Afinal, o teu país azul arrasta às costas um dos maiores genocídios da história. Resolves a política com a justiça, a mesma que mandou fuzilar e condenar o que produzia a tortura carcerária. Não, nada está esquecido e a prová-lo vem aquele senhor casado do teu Partido Podre dizer que se necessário voltam a fuzilar os azuis rebeldes. É este o teu país onde queres que sejam todos azuis, tu depois te encarregarás de separar os azuis-claros dos azuis mais escuros. Tu, marianito, falas da constituição, mas qual? A que vós derrubastes num golpe violento e criminoso, até hoje impune, ou a que, há 40 anos, cobriu com o tal manto de silêncio, os crimes amontoados? E falas de democracia num regime monárquico constitucional? Os teus azuis, são súbditos ou cidadãos? Uma democracia com um rei é uma democracia castrada, não passa disso. O teu reizinho quando fala para os azuis, fala em nome de quem? Quem lhe concedeu o direito de falar em nome de todos os azuis, pese embora sejam eles a pagar-lhe todas as extravagâncias, a ele e à sua mulherzinha de plástico? Era bom que usasses a cabeça de quando em vez, para variares um pouco a imbecilidade, mas tu não a usas. Tu, marianito és um desses seres perfeitos que vai morrer sem chegar a estreá-la. Sim, é certo, com a ajuda dos obreritos – são sempre tão úteis nestes momentos – vais vencer de novo, mas não te iludas, marianito, a questão vai continuar a germinar, e numa outra primavera quando pensares que já está tudo aquietado, a bolha vai rebentar-te de novo, em cheio nas ventas, pois ao contrário de ti, os povos têm dignidade e não nasceram para ser servos.

Era um país de florestas verdes, de montanhas e vales pouco extensos. Aqui e ali, uma pequena cordilheira, muitas árvores, aldeias penduradas nas encostas ou quase perdidas em extensas planícies. Três ou quatro rios dilatados em água e extensão, de antigas e novas estradas, com restos de comboios que ainda iam passando, paisagens que deslumbravam e seduziam e outras encantadoras. Havia também o oceano, esse infinito de azul que nos enchia de ternura nas tardes de primavera e de melancolia nas de Outono. E havia as gentes, simples, indisciplinadas, quase sempre tristes mas sem desânimo, no trabalho, nas epopeias, no construir de uma história tão singular. Havia também os abutres. Eram uma minoria, mas dizimavam tudo à sua passagem, numa ganância e vaidade obscenas. Esse país, bonito, era o meu país, onde nasci, cresci e vivi ao longo de uma vida. Esse país ardeu, num verão de terra seca por ausência de água e no meio de intensas e ventosas chamas, perante a cobiça e a negligência dos abutres. O esplendor do fogo tudo levou. Agora, esse país que era o meu, jaz em escombros de terra e cinza, deserto de vida e com muitas promessas dos… abutres.


Não sei se foi contigo que aprendi a viajar. Se não foi, depois de te conhecer as minhas viagens alcançaram outra dimensão, a da literatura, a da poesia, a do encanto, a de aprender a ver com o olhar, de sentir com alma, a deixar correr como um rio vagaroso os sentimentos que em nós penetram quando extasiados apreciamos o que é infinitamente grande ou pequeno, a encontrar a beleza na extensão mágica de lugares que não conseguimos definir e no contacto com as gentes tão diferentes e ao mesmo tempo tão humanas mesmo que apenas na extensão da sua pobreza tão explorada. Procuro imaginar-te percorrendo as terras da Pérsia, do Afeganistão, nesse tempo que nos parece de medo e receio que nos mostras tão límpido, tão simples e tão generoso e a guerra que explodia ao longe parecia não perturbar a serenidade dos dias onde a sobrevivência era o quotidiano dessas gentes que encontravas e te ofereciam o pouco que tinham. Quando muito mais tarde, o meu olhar se avizinhou dessas montanhas, ainda não te conhecia, mas agora sei que já via conforme me ensinaste a ver, só não consigo bordar de beleza as palavras como tu tão bem fazias. Não resisto a deixar um pouco de ti, Annemarie, neste curto e tão parco texto, usando as palavras que a tua alma escrevia: “quando vim ao Hindu Kush pela primeira vez, chegando pelo norte da planície tórrida do Turquestão, depois de transpor as suas gargantas históricas e grandiosas, senti-me tentada a escrever um hino e nada mais. Um hino ao seu nome, porque os nomes são mais do que designações geográficas, são música e cor, sonho e recordação, são o mistério e a magia – e longe de ser uma experiência decepcionante, é antes uma coisa maravilhosa redescobri-los um dia, carregados de esplendor, de sombra e de fogo, e da cinza fria da realidade. (…). Quando chegava a noite, na obscuridade sempre como que impregnada da cor leitosa de astros longínquos, voltava-me por vezes para sul, em busca de um reconforto e encontrava a mesma cadeia de montanhas azuis que me era já familiar.” Também cheguei pelo norte, pelas terras de calor abrasador e o pássaro de asas largas que me levava parou em pleno espaço aberto nessa altitude que nos pode fazer cair desamparados, e fiquei por ali, a contemplar essas montanhas azuis que viste. Creio que ainda lá estou. Aguardava pelas tuas palavras para traduzir as cores que os olhos viam, lembrando-me o que me ensinaste, que, “não podemos amar deveras aquilo que nem vimos com os nossos próprios olhos nem apertamos nos nossos braços”, pois, “até mesmo a nostalgia não é mais do que uma forma de solidão que se exala e se esvazia da sua substância”.     

“Todos os Caminhos estão Abertos”, Annemarie Schwarzenbach, Relógio de Água, Outubro de 2016)

Apenas eu te olho e pergunto porque te escondes atrás dessas lentes escuras, como se perante ti, estivesse uma luz agressiva, quando na verdade somos alcançados por esse sol dolente na tranquilidade de uma tarde que vai declinando. No teu rosto inexpressivo, nasce por fim um sorriso, com essa ternura com que acolhemos alguma mensagem que nos chega. Primeiro a tua mão leva o objecto até ao ouvido. De seguida percebes que as palavras são escritas e não faladas. O teu sorriso abre-se um pouco quando lês e ainda mais quando respondes. Passeias o sorriso e o olhar pela carruagem até ao exterior. Continuas sem me ver. Por fim, voltas a serenar e colocas de novo a escuridão das lentes sobre os olhos, deixando um rosto dividido entre o claro e o escuro. Mas nesse momento, quanto tudo já parece terminado, sou eu que vou em voo alado, soltei o pensamento e a memória, larguei as velas de um veleiro sem leme, remei para além das tuas negras lentes, os meus olhos já te despiram, já te amaram em noites sem nome e madrugadas sem fim, assaltaram a fortaleza imperial onde te abrigas, os meus olhos querem desposar-te como na poesia de Pessanha, erguer-te no limbo perfeito da imaginação que voa livre no interior da minha alma.

  

UMA ENORME TRISTEZA

Mário Faria




17 Outubro 


Não tenho dúvidas que foram cometidos erros graves na gestão da floresta, na prevenção e combate aos incêndios e de que os partidos do arco da governação são os primeiros responsáveis. Mas, deixar toda a responsabilidade à actual ministra da AI, parece-me absolutamente inadequado. Se o PR já veio a terreiro a pedir contas, não pode ficar o governo por um ralhete e mandar às urtigas apenas a responsável pelo MAI. E não pode chegar, se as culpas são tão claras e caem sobre todo o governo. Depois de Pedrogão os fogos passaram a ser um problema nuclear da governança e do Estado e, por isso, do primeiro-ministro. E falta ainda saber se não serão deduzidas responsabilidades criminais a alguns responsáveis. Por outro lado, temos agora uma “bíblia” que mostra os pecados, distribuindo culpas com generosidade e o que tem de se fazer para que nunca mais tenhamos de assistir a este tipo de acontecimentos.  Não acredito em tanta bondade e certeza. O governo colou-se ao documento como tábua de salvação. Agora é que nada vai ser como dantes, promete Costa, como se fosse fácil implementar novas competências, impor outros procedimentos, arquivar os antigos costumes e selecionar uma novas equipa, esperando de todos os parceiros a máxima lealdade e saber. É possível, o “Novo Livro” tem tudo, basta seguir o guião. Os portugueses são uns tipos porreiros mas pouco amigos da coisa pública e pouco activos na intervenção cívica. Pela minha parte, não acredito em milagres e vamos continuar a sofrer. As receitas vindas do conhecimento, ainda que cumpridas, vão ser operadas e monitorizadas pelas estruturas em funções e sujeitas a todas as ocorrências adversas que acontecem quase sempre em situações limite, sempre muito difíceis de combater e muito fáceis de avaliar e decifrar depois dos acontecimentos, quase sempre sem ligar aos constrangimentos próprios de quem tem de tomar decisões no terreno, sem tempo a perder e sem direito a segunda avaliação. Pode ser que a próxima estrutura integre quadros independentes e com poder para escolher os seus colaboradores em áreas estratégicas. Pelo que ouço na TV, seria canja para muitos. O “Alcaide espanhol denunciou “como terrorista a onda de incêndios ocorridos na Galiza. Percebo que não se dê relevo à notícia em Portugal, que poderia ser aplicável ao caso português, não fosse desviar o enfoque no tema principal: enfrentar, estudar e atacar todas as causas que produziram efeitos tão brutais. Tenho ouvido sábios comentadores e todos parecem saber o que fazer e como fazer. Na noite de ontem, numa mesa redonda, assisti a uma grande convergência de ilustres comentadores da SIC. Louçã fazia parte do grupo e antecipou o que hoje li de Mariana Mortágua e não fui capaz de travar um pensamento perverso e lembrei-me dos “cartilheiros” do futebol pátrio. O que sinto: um enorme desalento e muita tristeza. E muita dúvida. Na dúvida só sei duvidar. Espero que as diferentes autoridades sejam capazes de mitigar os efeitos da tragédia, honrar os mortos e tratar dos vivos.


18 Outubro

A direita raramente perde. E quando isso acontece veste a roupagem que está mais a jeito: adapta-se e preparar-se para um novo assalto. E vai ganhar o poder, muito brevemente. Até a natureza lhe presta serviço: se fosse um golpe tramado para fazer voltar a direita e as suas políticas, se conseguiria melhor. E com o processo Sócrates a empurrar a banda, o declínio do PS fica mais próximo dos congéneres europeus. Por outro lado, a destruição foi tal que os próximos anos prometem alguma calmaria. Há menos territórios para arder. O futuro promete alguma recuperação, até porque vai ocorrer um investimento generoso (e justo) a todos os lesados dos fogos. E provavelmente, um pequeno impulso na económico local, até que se apaguem os impulsos da generosidade. E que poderá produzirá alguns efeitos sobre algumas reformas negociadas e previstas no OE e negociadas no âmbito do acordo com os parceiros do PS. O presidente já avisou: atenção aos efeitos de algumas medidas que vão cair em cheio em 19, ano de eleições. Acho muito adequada a apresentação da moção de censura por parte do CDS. E o que vão fazer e dizer os partidos de esquerda? Será que este governo está ferido de morte e vai ser trucidado? Como compatibilizar as críticas duras com um voto favorável? O debate na AR foi mais do mesmo. O PSD assumiu a oposição trauliteira e Assunção Cristas foi implacável, mas com um registo de primeira-dama: menos Marie Le Pen e mais Margaret Thatcher. O PS demonstrou a enorme fragilidade que grassa no partido. O PCP disse que as políticas são quem mais ordena e o Bloco disse o mesmo que Louçã no dia anterior e lhe valeu de Miguel Sousa Tavares o reparo de que a sua proposta era velha e vinha do tempo do arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles. Desliguei-me dos fogos. As notícias das demissões caíam sem surpresa. Estava muito cansado, e virei-me para a música.

26 Outubro

O governo colocou Cabrita na AI, mudou de gente na P.Civil, definiu o roteiro, as entidades e as gentes que passariam a ficar comprometidas no combate e prevenção dos fogos. Tudo direitinho, conforme as NEP´s (normas de exercício permanente). A moção de censura não passou e o Presidente aceitou o voto de confiança e deixou muitos avisos ameaçadores ao governo. Entretanto, vai-se sabendo que há um relatório da P.Civil que rebate algumas verdades da “Bíblia”, usando o inalienável direito ao contraditório, ao mesmo tempo que se vão conhecendo alguns reparos que vão saindo, em voz baixa, do governo relativamente ao presidente e ao que lhe fora já previamente informado sobre o plano de contingência, nomeadamente das demissões já em curso. O presidente feriu de morte o governo e só não o demitiu porque Passos se pirou e o PSD está órfão. O homem tem uma qualidade indiscutível e sincera na forma como se apresenta no terreno e dialoga com as gentes. E cumpriu essa missão de forma brilhante. Mas, não há bela sem senão. E como provavelmente não esqueceu a sua apetência de “fazedor de factos” e porque continua a ser um homem de centro-direita muito ligado à Igreja e um animal político habituado às lutas pelo poder, temo que vá continuar a fritar em lume brando o actual governo para o entregar à direita, de mão beijada, no momento certo: nas próximas eleições. Tem demasiado poder para meu gosto. A florestação não vai ser cumprida: não há gente, nem condições, nem a mobilidade do trabalho aponta para que se cumpra esse desígnio. Os ditames da UE e o próprio “conceito de globalização que, assente no favorecimento dos sectores mais competitivos, afasta as pessoas dos sectores menos competitivos”. Uma tragédia nunca vem só. Temo que os danos causados pelos fogos causem graves prejuízos políticos. Vamos ver. A porta que se abriu pode fechar-se com e por obra de Marcelo Rebelo de Sousa: os seus recados passarão a ser virais. Certo é que os beijos e abraços vão continuar, a bem da Nação. Estou muito desiludido com o governo: não esteve à altura para tomar decisões assertivas, depois não foi capaz de se preparar para diminuir riscos futuros e de se defender com substância. E os aliados só desajudaram: fugiram todos não fossem ser prejudicados e ficar mal na fotografia. Um contorcionismo permanente. E vamos perder o que tanto custou a ganhar.




A designação de Bíblia ou Novo Livro no texto são formas de enfatizar a suprema qualidade e o auto de fé que gerou o Relatório da Comissão Técnica Independente.

O MOMENTO DO QUEIJO

António Mesquita


http://www.batashoemuseum.ca


“Há um muito belo texto de Platão, num diálogo com Sócrates, em que Sócrates diz: é curioso o que se passa, há assuntos sobre os quais ninguém ousa falar, a menos que seja competente. Por exemplo, sobre o fabrico do calçado, ou sobre a metalurgia. E depois há uma quantidade de assuntos sobre os quais toda a gente se crê capaz de ter uma opinião. (…) De tal maneira que a filosofia é a matéria em que toda a gente tem uma opinião. Saber se Deus existe? Disso, pode-se sempre falar no momento do queijo. Saber se Deus existe. Cada um tem uma opinião sobre uma questão como essa, cada um tem o seu esquema para dizer. Em contrapartida sobre o fabrico de sapatos?”


“Les Cours de Gilles Deleuze”


Nem o Rei-Sol se atrevia a decidir uma questão técnica. Tinha que confiar na opinião do seu arquitecto ou do seu marceneiro. E sabemos de como era crédulo em relação ao seu médico, apesar da arte deste se prestar tanto à discussão.

Platão escarnece, evidentemente, da facilidade da filosofia popular, sem recorrer ao “momento do queijo”.

Embora quase ninguém se reconheça filósofo, todos, duma maneira ou doutra, amam o saber que julgam ter, o que não é muito diferente, no fundo, da filosofia.

Se pusermos o calçado e os outros problemas práticos de lado, há todo o imenso continente do que não se sabe ao certo que, nalguns casos, não deixa de ser urgente, como, por exemplo, conhecer o semelhante com quem temos uma disputa ou com quem temos de fazer um contrato.

Em vez disso, Platão acena-nos com a “verdadeira” filosofia. Só que não podemos tomar a consistência das ideias pela marca da verdade.

Platão, o menos sistemático dos filósofos, nem por isso deixa de apelar ao nosso sentimento estético e à nossa crença ( a crença no ideal, antes de tudo ).

O QUE VAI ACONTECER?

Manuel Joaquim



A comunicação social tem estado a massacrar-nos sobre os incêndios, sobre o orçamento, sobre a falta de água, sobre os afectos do Presidente da República e o esfriamento das suas relações com o Primeiro-ministro. Os comentadores de serviço alimentam todos estes assuntos na esperança de contribuírem para a queda do governo e para o regresso da direita. Falam e escrevem sobre o que se passa na Catalunha, numa perspectiva redutora da complexidade da situação, manifestando as grandes preocupações da classe dominante.

Escamoteiam o discurso que o presidente da EU fez em 13 de Setembro, no Parlamento Europeu, sobre o “Estado da União” e os comentários que tem efectuado, bem como os projectos políticos que a EU pretende desenvolver e das suas consequências.

Escamoteiam que a senhora que apresentou na Assembleia da República a moção de censura ao Governo, com vista à sua queda, foi a ministra da Agricultura do governo PSD/CDS, que foi a responsável pela legislação que escancarou a plantação de eucaliptos, extinguiu postos de sapadores florestais, reduzindo capacidades de vigilância e de protecção civil. Santa mulher que perdeu a vergonha pelo seu comportamento.

Limitam-se a dar notícia sobre a publicação de documentos sobre o assassínio de Kennedy, com a indicação de que Trump não permitiu a publicação de alguns para serem analisados pelos serviços secretos, reproduzindo comentários ressequidos sobre quem foi o assassino. São assuntos não muito convenientes pois, para já, pelos documentos agora publicados, sabe-se que a liquidação de Fidel Castro esteve a ser trabalhada. Mas também pelo que já se sabe, a execução de Kennedy foi decidida pelas mais altas instâncias do poder americano de então, com características de um verdadeiro golpe de estado. Aquilo que os EUA gostam de aplicar nos países que não seguem as suas orientações.

Estão nos nossos olhos o que aconteceu e acontece no Iraque e na Líbia, quando pretendiam deixar de negociar o petróleo em dólares. Tentativas muito recentes na Venezuela, pela mesma questão.

China, Rússia, Irão, Venezuela e outros passaram a negociar o petróleo em moedas que não o dólar. Se até agora tínhamos os petrodólares, vamos passar a ter petroyuans.

O que vai acontecer?

VISÕES

Mário Martins





As recentes tendências da moda política mundial, inspiradas pelo novo governo americano, que estão a tornar o mundo tão incerto como perigoso, levaram-me a regressar às “Visões” de Michio Kaku, livro publicado há 20 anos, com base em cerca de 150 entrevistas a cientistas, incluindo um grande número de Prémios Nobel, de várias disciplinas.

O sub-título da obra “Como a ciência irá revolucionar o século XXI” dá ao leitor a expectativa de “saber” como e quando o factor objectivo irá moldar o subjectivo, quer dizer, como e quando o imparável desenvolvimento científico-tecnológico irá influenciar decisivamente o voluntarismo político.

Para o autor, professor de física teórica no City College de Nova Iorque, co-criador da teoria das cordas e conhecido divulgador de ciência, a revolução da informação está a construir e a forjar uma cultura planetária comum baseada em milhares de pequenas culturas; e em finais deste século o verdadeiro poder das três revoluções científicas (quântica, informática e biomolecular) forçará as nações a cooperarem numa escala nunca vista na história; mau-grado prognosticar que a marcha para uma civilização planetária será lenta, aos arrancos, indubitavelmente repleta de reviravoltas e contratempos e que, na sombra, paira permanentemente a ameaça de uma guerra nuclear, de um surto de pandemia mortífera ou de colapso do ambiente.

Bem pode dizer-se que este último prognóstico assenta que nem uma luva à situação actual: vivemos um movimento centrífugo das nações, da fase da dissuasão nuclear passamos à da agressividade nuclear, as bactérias e os vírus tornam-se cada vez mais ameaçadores, e o ambiente não promete nada de bom.

Apesar disso, acompanho o autor na crença de que, salvo destruição com origem humana ou natural, estamos a caminho de alcançar uma civilização planetária. Só é pena que a previsão aponte para o final deste século…


02/10/17

CARTAS DE SANTA MARIA

Fernão Vasques





Bolungarvik, 30 de Setembro



Inicialmente, parei em Ísafjörður, fiorde do gelo, em tradução simples destas palavras islandesas nem sempre de fácil pronúncia. Vinha do sul e como a estrada passava um longo túnel, segui por caminho de montanha e essa opção permitiu-me visionar o fiorde como uma imagem aérea e tive de imediato essa sensação do que é irrepetível e sumptuoso. Acreditei que era o lugar que procurava nesta viagem. O braço de mar refugia-se, como se procurasse um porto de abrigo, entre duas paredes de serrania. A descida fi-la nesse pasmo do que alicia e seduz. A cidade tem cerca de três mil habitantes e a actividade principal é a pesca, com o turismo em crescimento. Apesar da distância à capital a sua vida cultural não é pequena. No Museu da Marinha aparecem-nos as casas mais antigas da Islândia, de meados do século XVIII. Após alguns dias de estadia caminhei alguns quilómetros para norte, ao longo da costa até à pequena aldeia de Hnífsdalur e foi aqui que tudo mudou. Ao caminhar um pouco mais, encontrei Bolungarvik. Atraído por um pequeno farol de cor laranja, surge-me então perante o olhar, uma baía aberta, uma praia de areia escurecida e uma aldeia alargada com os seus quase mil habitantes, aconchegada no sopé de uma falésia com mais de seiscentos metros de altitude. Para além da pesca, que tem sido, ao longo de séculos, a actividade dos que aqui vivem, procurei o Museu de História Natural com a maior colecção de aves do país, uma espécie de urso polar e rochas e minerais, e o Museu Ósvör no qual aparece representado um antigo porto de pesca. Um caminho apenas utilizável no Verão leva-nos ao outro extremo do vale, de novo ao encontro do oceano. A meio podemos desviar em direcção a Bolafjall, até à estação de radar, e a quase seiscentos e cinquenta metros de altitude, o nosso olhar estremece face à grandiosidade da paisagem. A natureza envolvente arrebata-nos para sentimentos contraditórios sobre o comportamento humano, tantas vezes, tão pequeno, tão acanhado, quando em redor de nós tudo se conjuga para gerar beleza infinita. Já não regressei a Ísafjörður. Compreendi que tinha chegado ao destino e ao fim da minha viagem. Para norte e a quatrocentos quilómetros de distância, estende-se o litoral das terras da Gronelândia, mais para norte, a imensidão do Árctico e por fim o Pólo. Não há mais caminho no meu horizonte. Chove, com a naturalidade de tantas coisas que por aqui vou encontrando. A temperatura varia entre os cinco e os sete graus célsius. Na Islândia só encontramos árvores nas cidades e aldeias, as montanhas são em pedra nua, cobrem-se de grandes nevões no Inverno e imenso musgo na Primavera. Mas há o silêncio, um longo silêncio. O silêncio de Beethoven chegou até mim na serra do Açor num dia de despedida. Outro silêncio é o que nos envolve quando o entardecer nos encontra no interior de uma cordilheira. É um silêncio de ternura, acariciador. Há também o silêncio que em tantas ocasiões nos abarca no meio de tanta gente. Há ainda o silêncio da serenidade do pôr-do-sol quando a estrela nos deixa numa girândola de cores. E há o silêncio dos pólos, o silêncio da neve, o do horizonte sem limites, um silêncio sem som, embriagador e de solidão, como este que em breve vai ocupar aqui todo o espaço em terra e no mar, com aquelas neves que ainda restam, em frente e ao longe, na reserva natural de Horustrandir. Para trás, ficou o meu caminho, o que percorri, empurrado pela vida, mas quase sempre pela bússola do meu pensamento e das ideias que colectivamente em mim se desenvolveram. Os fiapos da memória, mostram-me tantos momentos de beleza, desde o tempo do nosso tamanho minúsculo no interior de uma cidade que ainda não perdera totalmente uma face ruralizada, o crescimento, o alvorecer das ideias, a resistência às malfeitorias do poder, o salto através de um mundo imenso, as cores deliciosas dos fins de tarde de ruas antigas que espreitavam o mar, com essa tranquilidade que nos adormece a alma, que nos apazigua, connosco e com os outros, os telhados vermelhos sobre paredes de cores ocres, as calçadas, as ruas cheias de gente, o rio caudaloso na sua pressa. A vida é assim, um rio, cujo caudal podemos acelerar ou diminuir o ritmo, mas não podemos deter a marcha. Quanta tristeza, quanta alegria, por vezes tudo junto como naquela revolução para a liberdade, os amores que chegaram e os que partiram, a travessia da Eurásia no deslumbramento do inacreditável e no fim, quando a estrada termina, chegam as palavras de Violeta Parra, «gracias à la vida…». Daqui vejo o mar como no país que fica longe e vou fechando as recordações no recanto da memória. A mulher do meu futuro não chegou, pese embora os meus apelos. Ficou retida no silêncio da sua ausência. Para ela as palavras de Sophia que viajaram comigo, “Num deserto sem água/ numa noite sem lua/ num país sem nome/ ou numa terra nua// Por maior que seja o desespero/ nenhuma ausência é mais funda do que a tua.” Nesta pequena aldeia, os sons esvaíram-se, esconderam-se ou guardaram-se, é apenas o silêncio, talvez aquele com Vassili Grossman, terminou o seu “Vida e Destino”, «Mas no frio florestal a primavera sentia-se com mais intensidade do que na planície iluminada pelo sol. Neste silêncio florestal a tristeza era maior do que no silêncio de Outono. O brado dos mortos e uma furiosa alegria de viver ouviam-se na sua mudez…» Aguardo sempre a chegada dos barcos de pesca. Aproximam-se sem ruído, com a proa fendendo as águas e enquanto não chegam a terra, o meu pensamento voa. Lembro ainda o romance “Vida e Destino” naquele instante quase final, quando os blindados fecham numa tenaz a horda nazi, a pressa do ditador em festejar a vitória, leva-o a empurrar esses blindados para oeste, sem paragens e descanso, numa marcha contínua. Assim está o meu pensamento, a voar com esses blindados pelo tempo fora, de vitória em vitória, de alegria em alegria, por tudo que «gracias à la vida…» me foi permitido viver. Amanhã continuo aqui. 


A OUTRA FACE DE ROMA




Um súbito e decerto nostálgico desejo de, passados tantos anos, voltar a Roma, não me levou ainda a revisitar a antiga “capital do mundo”, mas, para já, a reler o volume “Das origens de Roma à formação do Império”, da História Universal de Carl Grimberg e Ragnar Svanström, publicada no já longínquo ano 40 do século passado.

A grandeza de Roma é justificada pelo apego à agricultura: “Inúmeras populações, diz Mommsen, venceram outras e conquistaram os seus territórios, como fizeram os Romanos, mas nenhuma nação, como os Romanos, fez sua a terra anexada, fecundando-a com o seu suor, nenhuma adquiriu pela charrua o que já tinha conquistado pela lança”. Concluem os autores queEste respeito que os Romanos votavam aos trabalhos pacíficos explica, tanto como o seu forte sentimento nacional, o poder que eles alcançaram na Itália e, em seguida, no mundo inteiro.

Embora o objecto da pesquisa histórica seja a Roma antiga, nem por isso os autores deixam de fazer uma prevenção sobre a civilização grega que tanto influenciou aquela: “Sabemos agora que numerosos defeitos, numerosos erros, retiram à vida grega a sua auréola. Basta, por exemplo, pensar na escravatura e na situação social da mulher.”

Ora, se o admirável legado artístico e filosófico grego está gravemente manchado pela escravatura e pela menorização da mulher, o que se poderá então dizer da antiga Roma, famosa pelas suas conquistas e feitos de engenharia, quando à escravatura juntava, por exemplo, o poder discricionário do pater famílias?: “O pai de família romano dispunha de um enorme poder. Tinha o direito ilimitado de impor penas corporais quando as julgasse necessárias. Podia vender a mulher e os filhos como escravos e mesmo matá-los sem ter de prestar contas dos seus actos à justiça secular. Por essas acções só era responsável perante os deuses.”

Jérôme Carcopino, na sua obra “A Vida Quotidiana em Roma no Apogeu do Império”, de 1938, sustenta, no entanto, que “No século II da nossa era as duas feições essenciais da pátria potestas, a autoridade absoluta do pai sobre os filhos e do marido sobre a mulher (…) desvaneceram-se gradualmente (…) (embora possua) ainda a faculdade horrível, que só lhe há-de ser retirada por influência do Cristianismo em 374 da nossa era, de expor os recém-nascidos (principalmente os seus bastardos e as suas filhas) nos depósitos públicos onde perecem de fome e de frio a não ser que a piedade de um passante (…) os venha recolher e salvar a tempo.”

Apesar de este historiador achar, no prefácio da obra, que “Nada muda tão depressa como os hábitos dos homens”, estas descrições significam que o poder absoluto do pater famílias se exerceu durante mais de 700 anos de vida romana, atravessando o período monárquico inicial e cinco séculos de regime republicano, curiosamente só perdendo força sob o domínio dos imperadores; enquanto a escravatura só viria a ser oficialmente abolida no decurso dos séculos XVIII e XIX.

A história do mundo greco-romano mostra que o progresso humano é um processo longo e doloroso, que está para lá da grandeza das nações e dos impérios.

PARA ONDE FOI O AUTOR?

António Mesquita

Escher: "Drawing Hands"


"O sucesso de um autor não está garantido por nenhuma capacidade, nenhum saber, nenhum privilégio social, mas também não o está por qualquer autenticidade em relação ao real, ao profano, ao verdadeiro. O autor está entregue à lógica da economia cultural, perante ela está completamente desmunido."
"Du Nouveau" (Boris Groys)

E o contrário não será também verdadeiro?

Por mais incapaz e ignorante, por mais inautêntico em relação ao real, ao profano, ao verdadeiro, nenhum autor está, à partida, excluído do sucesso.

Neste caso, dificilmente poderíamos até falar de um autor. Seria a cultura de massas a simular uma autoria. A perfeita circularidade, como a mão de Escher desenhando-se a si própria.

Mas, para Derrida, "o novo é sempre um efeito da busca impossível de uma identidade entre o significante e o significado, de uma supressão da diferença que teria por efeito a clausura (clôture) do Outro da cultura." (ibidem)

01/09/17

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PERPLEXIDADES

Manuel Joaquim
http://theparrotplace.co.nz/about/

IMBECIL pessoa que demonstra poucas capacidades intelectuais;

IGNORANTE – pessoa que não tem conhecimentos ou competência em determinada matéria; pessoa sem cultura, sem instrução;

REPUGNANTEque causa nojo, repulsa, asqueroso, que é oposto à razão.



(Do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea – A C Lisboa)



No artigo publicado no passado mês de Julho recordei o assassinato do Presidente dos EUA, JF Kennedy, em 22 de Novembro de 1963, num processo de golpe de estado. 

Este mês, tinha em mente escrever sobre o que neste momento se está a passar nos EUA, possivelmente uma nova tentativa de golpe de estado para afastar Trump da presidência e colocar lá o vice-presidente. Os mesmos poderes e interesses do golpe anterior trabalham afanosamente, com condimentos naturalmente diferentes. Mas algumas intervenções públicas que ouvi nestes últimos dias provocaram alteração nas minhas intenções. 

Ouvir na televisão sobre o piar de políticos, que, neste momento, ainda mandam, pios de quem está a piar mas que já não manda; ouvir dizer que a realidade acaba sempre por derrotar a ideologia, escamoteando os interesses e valores que sempre defendeu; sem rebuço defender um político que em três meses de poder gastou ao seu estado trinta mil euros em maquilhagem e, depois de dizer outros disparates, terminar falando da Venezuela como papagaio de serviço;

Ouvir na televisão uma candidata a uma Câmara defender a construção de vinte estações do Metro depois de ter estado no governo e ter defendido as privatizações dos transportes e a liquidação de bancos em reuniões de Conselhos de Ministros sem discussão e sem a sua presença, votando por mail, e não vendo nenhuma perturbação na cara da senhora, dá muito que pensar;

Ouvir tanta gente a falar da greve na Autoeuropa, tão preocupada, tão Chorosa com o futuro dos trabalhadores; ouvir a anterior ministra das Finanças a intervir sobre o assunto, também muito preocupada com a situação, esquecendo que tomou muitas decisões que contribuíram para o desemprego de milhares de trabalhadores e para o desespero e miséria de muita gente, fico perplexo.

Será que estamos a assistir a uma alteração das condições políticas que levam ao desespero de quem está a perder poder?

NATUREZA


Mário Faria

http://www.viajarentreviagens.pt/portugal/dicas-de-viagem-nos-passadicos-do-paiva/




No Verão, no mês de Setembro, fui durante alguns anos para Paradela de Trás-os-Montes. Era um calvário para mim. Muito calor e um ambiente demasiado rural. Comia-se sopa de abóbora e batatas cozidas regadas com azeite. O pão era cozido no forno e azedo. A fruta em abundância era a salvação. E os bons amigos que por lá fizemos, ajudaram a mitigar a precariedade das condições à nossa disposição. Emagrecíamos e a minha mãe decidiu acabar com as férias em Paradela. Por essa altura, o meu pai nas poucas palavras que deixava, disse: quando fores mais crescido vou levar-te á natureza, mais próxima e amiga. Não cumpriu. Em vez disso, levou-me ao Estádio das Antas e gostei muito do que vi. E fiquei seduzido para sempre. No início deste mês, com intenção de visitar os passadiços de Arouca, fui para essas bandas. Marquei hotel, no cu de Judas, lá para as bandas de Castelo de Paiva. A viagem teria decorrido melhor se a moça do GPS não estivesse afónica. No fecho, tivemos de ultrapassar uma estrada apertada e com um declínio que metia medo, com cerca de quilómetro e meio, quase toda de via única. Chegados, demos com um panorama deslumbrante: finalmente, tinha descoberto a natureza que me tinha sido prometida. Mas, a natureza não é perfeita. Um fogo de manhã e outro de tarde, combatidos com helicópteros e Canadairs, foram vencidos com sucesso. Mas a ameaça ficou. A recepcionista desvalorizou os nossos temores e disse: “é fogo posto, só pode; aqui não chega porque a humidade não deixa”. Lembrei-me de Angola e das intensas e belíssimas matas que constituíam um refúgio seguro em caso de incêndio, natural ou malicioso. Umas boas passeatas pelo rio Paiva deslumbraram-nos. Da parte da tarde, o sol e os mergulhos na piscina suavizavam o calor. O pessoal (apenas quatro operacionais) dava conta do recado com uma ligeireza e uma simpatia que nada ficava a dever ao encanto do lugar. Gostei muito, mas não sei se voltarei. A estrada não é amiga e os fogos são uma ameaça permanente. Alem disso, sou um inveterado citadino e desconfio da natureza, da sua desordem e das suas manifestações brutais. No empreendimento turístico onde o campo foi domesticado, colonizado e anexado à vida urbana, sinto-me mais confiante. Mas nunca se sabe: a natureza não é um estado idílico permanente. 


EU, DEMÓCRITO


Mário Martins



Democritus, Hendrick ter Brugghen, 1628




“Por definição há cor. Por definição há doce. Por definição há amargo. Mas na realidade há átomos e espaço.”

Demócrito

Porque não gozo - ó vã glória! da fama do meu contemporâneo Sócrates, ou de vindouros como Platão e Aristóteles, eu que “descobri” os átomos, com o meu mestre Leucipo, há cerca de 2.400 anos? E, no entanto, não havia ciência e muito menos aceleradores de partículas; a ciência como disciplina e método haveria de esperar mais de dois longos milénios até a cabeça de Newton oficialmente a inaugurar. É certo que tenho boa reputação nos meios científicos; ainda um destes dias, em dia de folga do Além, pude ouvir, não sem uma ponta de vaidade, num documentário de divulgação científica do canal História, que as minhas ideias sobre a física estavam fundamentalmente certas. Para o meu tipo de pensamento “fora da caixa” o cosmos, infinitamente grande e onde existiriam muitos outros mundos como o nosso, não era governado por Deus(es) mas sim pelo movimento imanente ou auto-criador. É pena não estar autorizado pelas regras absolutas do Além a divulgar se estas minhas concepções estavam certas ou erradas, mas compreendo que é melhor para a humanidade Religião e Razão continuarem a coexistir. Os pintores do Renascimento retrataram-me como “o filósofo que ri”; talvez o riso explique a minha longa vida de 90 revoluções celestes…

CUMES ARTIFICIAIS



António Mesquita



Arnold Schönberg (1874/1951)



"Os grandes artistas nunca foram aqueles que encarnavam o estilo mais puro e o mais perfeito, mas aqueles que, nas suas obras, utilizaram o estilo para se endurecerem eles próprios contra a expressão caótica do sofrimento como verdade negativa. O estilo das suas obras dava ao que eles exprimiam a força sem a qual a vida se vai sem ser compreendida. Mesmo as obras que se definem como clássicas, como a música de Mozart, contêm tendências objectivas que contrastam com o estilo que elas encarnam. Até a Schönberg e Picasso, os grandes artistas mantiveram a sua desconfiança a respeito do estilo e quando as questões decisivas estavam em causa, eles seguiam menos o estilo do que a lógica do objecto."

"La dialectique de la raison" (Max Horkheimer e Theodor Adorno)


"Os dadaístas e os expressionistas nas suas polémicas condenavam (o que diziam ser) a mentira do estilo."

O estilo é o mais exterior, sendo a marca mais pessoal. Uma vez criado e estabelecido pode ser imitado (é o tema de "Fake" de Orson Welles), aplicado como uma fórmula a qualquer tema.

Mesmo o criador demasiado consciente do seu estilo já não encontra o caos contra o qual forjou o seu estilo, mas a dureza que é a memória desse confronto.

A mentira do estilo é a mentira da palavra que se repete e cujo sentido é o de uma língua morta.

CARTAS DE SANTA MARIA


Fernão Vasques





http://mark.pleskac.org/1284


Borgarbyggð, 31 de Agosto

Ao procurar razões para ter parado nesta pequena cidade, não encontrei nenhum aspecto substancial. Creio que foi o cansaço. Não o físico, mas o anímico, essa sensação, que em certas ocasiões nos chega, de termos perdido tudo e para perder tudo, não é necessário que sejam muitas coisas, por vezes, basta uma só, seja um objecto, algo ou alguém que nos esteja próximo e cujo significado nos preencha a vida. Caminhei calma e despreocupadamente ao fim da tarde por uma rua sem saída. Tem o nome de Berugata, mas desconheço se é nome próprio ou se tem outro significado. São cento e cinquenta metros de via. Do lado interior, estão vivendas de arquitectura simples, com um piso. Do lado oposto ficam as águas do golfo, uma entrada profunda com quase vinte quilómetros e a cidade forma uma ínsua no seu interior. À esquerda aparece no horizonte uma travessia de mil e quinhentos metros e em frente o que me trouxe aqui por esta hora, um maciço de rocha erguendo-se na outra margem. Uma parede que se ergue e tapa o horizonte com elegância. As águas oceânicas quase não se movem e o céu aparece rasgado por fiapos delicados de nuvens que se desdobram em cinzas acastanhados. Sente-se uma placidez transbordante que parece extensiva a toda a ilha. Entrei na Islândia pelo sul, pela pequena cidade de Vík í Mýrdal com os seus 300 habitantes. Escolhi este lugar atraído pelas colónias dos fascinantes papa pufins e pelo glaciar Mýrdalsjökull no interior do qual repousa activo o vulcão Katia, há cerca de cem anos sem sinais de vida. Os pássaros retiveram-me em horas de contemplação. Não apenas pelas suas cores e o seu aspecto, mas também porque se percebe alguma ternura nestas aves. Da montanha onde repousa o gelo fica o pasmo das muralhas de neve secularmente solidificada e esse receio de que a todo o momento tudo aquilo se pode desmoronar em vagas de água imparável. Segui para norte, mas evitei a capital, pela concentração de pessoas, cerca de 50% da população do país. Quase tudo é novo, em cada lugar que se atravessa, desde os edifícios às estradas, como se só há pouco este território tivesse conhecido a presença humana, ou tivesse simplesmente pretendido esquecer o passado, pretérito esse que, no entanto, é longo com mil e duzentos anos. Foi um país sempre ocupado e os reinos da Noruega e da Dinamarca bem podem responder pela miséria, por vezes extrema, que atingiu os islandeses desde a Idade Média até ao século XX. Halldór Laxness, o Prémio Nobel islandês, retrata bem essa vivência em alguns dos seus romances. Com a independência, em 1944, os islandeses transformaram o seu país até o terem elevado a um dos lugares do planeta com mais qualidade de vida. Tudo é belo nesta ilha. A natureza deslumbra a cada instante, umas vezes pela grandeza, outras pelo pormenor. Sobretudo há uma sensação de serenidade, de descanso, de distensão. A solidão que se sente no exterior de cada localidade e nas grandes extensões que separa algumas, é compensada pelo ambiente que nos rodeia, como se dialogássemos com o espaço que nos envolve. É um país tranquilo, como me faz sentir neste fim de tarde e início de uma noite que tarda em chegar no Verão e não chega a escurecer o dia que quase nasce após ter acabado. São dias longos e temperaturas amenas se pensarmos na latitude em que nos encontramos. O círculo polar fica por aqui e faz-nos lembrar que este caminho que tenho percorrido se aproxima do fim, tal como estas palavras se esgotam, preferindo a meditação com o olhar pousado na cordilheira que se desenha altiva na outra margem.

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