StatCounter

View My Stats

01/09/17

122


PERPLEXIDADES

Manuel Joaquim
http://theparrotplace.co.nz/about/

IMBECIL pessoa que demonstra poucas capacidades intelectuais;

IGNORANTE – pessoa que não tem conhecimentos ou competência em determinada matéria; pessoa sem cultura, sem instrução;

REPUGNANTEque causa nojo, repulsa, asqueroso, que é oposto à razão.



(Do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea – A C Lisboa)



No artigo publicado no passado mês de Julho recordei o assassinato do Presidente dos EUA, JF Kennedy, em 22 de Novembro de 1963, num processo de golpe de estado. 

Este mês, tinha em mente escrever sobre o que neste momento se está a passar nos EUA, possivelmente uma nova tentativa de golpe de estado para afastar Trump da presidência e colocar lá o vice-presidente. Os mesmos poderes e interesses do golpe anterior trabalham afanosamente, com condimentos naturalmente diferentes. Mas algumas intervenções públicas que ouvi nestes últimos dias provocaram alteração nas minhas intenções. 

Ouvir na televisão sobre o piar de políticos, que, neste momento, ainda mandam, pios de quem está a piar mas que já não manda; ouvir dizer que a realidade acaba sempre por derrotar a ideologia, escamoteando os interesses e valores que sempre defendeu; sem rebuço defender um político que em três meses de poder gastou ao seu estado trinta mil euros em maquilhagem e, depois de dizer outros disparates, terminar falando da Venezuela como papagaio de serviço;

Ouvir na televisão uma candidata a uma Câmara defender a construção de vinte estações do Metro depois de ter estado no governo e ter defendido as privatizações dos transportes e a liquidação de bancos em reuniões de Conselhos de Ministros sem discussão e sem a sua presença, votando por mail, e não vendo nenhuma perturbação na cara da senhora, dá muito que pensar;

Ouvir tanta gente a falar da greve na Autoeuropa, tão preocupada, tão Chorosa com o futuro dos trabalhadores; ouvir a anterior ministra das Finanças a intervir sobre o assunto, também muito preocupada com a situação, esquecendo que tomou muitas decisões que contribuíram para o desemprego de milhares de trabalhadores e para o desespero e miséria de muita gente, fico perplexo.

Será que estamos a assistir a uma alteração das condições políticas que levam ao desespero de quem está a perder poder?

NATUREZA


Mário Faria

http://www.viajarentreviagens.pt/portugal/dicas-de-viagem-nos-passadicos-do-paiva/




No Verão, no mês de Setembro, fui durante alguns anos para Paradela de Trás-os-Montes. Era um calvário para mim. Muito calor e um ambiente demasiado rural. Comia-se sopa de abóbora e batatas cozidas regadas com azeite. O pão era cozido no forno e azedo. A fruta em abundância era a salvação. E os bons amigos que por lá fizemos, ajudaram a mitigar a precariedade das condições à nossa disposição. Emagrecíamos e a minha mãe decidiu acabar com as férias em Paradela. Por essa altura, o meu pai nas poucas palavras que deixava, disse: quando fores mais crescido vou levar-te á natureza, mais próxima e amiga. Não cumpriu. Em vez disso, levou-me ao Estádio das Antas e gostei muito do que vi. E fiquei seduzido para sempre. No início deste mês, com intenção de visitar os passadiços de Arouca, fui para essas bandas. Marquei hotel, no cu de Judas, lá para as bandas de Castelo de Paiva. A viagem teria decorrido melhor se a moça do GPS não estivesse afónica. No fecho, tivemos de ultrapassar uma estrada apertada e com um declínio que metia medo, com cerca de quilómetro e meio, quase toda de via única. Chegados, demos com um panorama deslumbrante: finalmente, tinha descoberto a natureza que me tinha sido prometida. Mas, a natureza não é perfeita. Um fogo de manhã e outro de tarde, combatidos com helicópteros e Canadairs, foram vencidos com sucesso. Mas a ameaça ficou. A recepcionista desvalorizou os nossos temores e disse: “é fogo posto, só pode; aqui não chega porque a humidade não deixa”. Lembrei-me de Angola e das intensas e belíssimas matas que constituíam um refúgio seguro em caso de incêndio, natural ou malicioso. Umas boas passeatas pelo rio Paiva deslumbraram-nos. Da parte da tarde, o sol e os mergulhos na piscina suavizavam o calor. O pessoal (apenas quatro operacionais) dava conta do recado com uma ligeireza e uma simpatia que nada ficava a dever ao encanto do lugar. Gostei muito, mas não sei se voltarei. A estrada não é amiga e os fogos são uma ameaça permanente. Alem disso, sou um inveterado citadino e desconfio da natureza, da sua desordem e das suas manifestações brutais. No empreendimento turístico onde o campo foi domesticado, colonizado e anexado à vida urbana, sinto-me mais confiante. Mas nunca se sabe: a natureza não é um estado idílico permanente. 


EU, DEMÓCRITO


Mário Martins



Democritus, Hendrick ter Brugghen, 1628




“Por definição há cor. Por definição há doce. Por definição há amargo. Mas na realidade há átomos e espaço.”

Demócrito

Porque não gozo - ó vã glória! da fama do meu contemporâneo Sócrates, ou de vindouros como Platão e Aristóteles, eu que “descobri” os átomos, com o meu mestre Leucipo, há cerca de 2.400 anos? E, no entanto, não havia ciência e muito menos aceleradores de partículas; a ciência como disciplina e método haveria de esperar mais de dois longos milénios até a cabeça de Newton oficialmente a inaugurar. É certo que tenho boa reputação nos meios científicos; ainda um destes dias, em dia de folga do Além, pude ouvir, não sem uma ponta de vaidade, num documentário de divulgação científica do canal História, que as minhas ideias sobre a física estavam fundamentalmente certas. Para o meu tipo de pensamento “fora da caixa” o cosmos, infinitamente grande e onde existiriam muitos outros mundos como o nosso, não era governado por Deus(es) mas sim pelo movimento imanente ou auto-criador. É pena não estar autorizado pelas regras absolutas do Além a divulgar se estas minhas concepções estavam certas ou erradas, mas compreendo que é melhor para a humanidade Religião e Razão continuarem a coexistir. Os pintores do Renascimento retrataram-me como “o filósofo que ri”; talvez o riso explique a minha longa vida de 90 revoluções celestes…

CUMES ARTIFICIAIS



António Mesquita



Arnold Schönberg (1874/1951)



"Os grandes artistas nunca foram aqueles que encarnavam o estilo mais puro e o mais perfeito, mas aqueles que, nas suas obras, utilizaram o estilo para se endurecerem eles próprios contra a expressão caótica do sofrimento como verdade negativa. O estilo das suas obras dava ao que eles exprimiam a força sem a qual a vida se vai sem ser compreendida. Mesmo as obras que se definem como clássicas, como a música de Mozart, contêm tendências objectivas que contrastam com o estilo que elas encarnam. Até a Schönberg e Picasso, os grandes artistas mantiveram a sua desconfiança a respeito do estilo e quando as questões decisivas estavam em causa, eles seguiam menos o estilo do que a lógica do objecto."

"La dialectique de la raison" (Max Horkheimer e Theodor Adorno)


"Os dadaístas e os expressionistas nas suas polémicas condenavam (o que diziam ser) a mentira do estilo."

O estilo é o mais exterior, sendo a marca mais pessoal. Uma vez criado e estabelecido pode ser imitado (é o tema de "Fake" de Orson Welles), aplicado como uma fórmula a qualquer tema.

Mesmo o criador demasiado consciente do seu estilo já não encontra o caos contra o qual forjou o seu estilo, mas a dureza que é a memória desse confronto.

A mentira do estilo é a mentira da palavra que se repete e cujo sentido é o de uma língua morta.

CARTAS DE SANTA MARIA


Fernão Vasques





http://mark.pleskac.org/1284


Borgarbyggð, 31 de Agosto

Ao procurar razões para ter parado nesta pequena cidade, não encontrei nenhum aspecto substancial. Creio que foi o cansaço. Não o físico, mas o anímico, essa sensação, que em certas ocasiões nos chega, de termos perdido tudo e para perder tudo, não é necessário que sejam muitas coisas, por vezes, basta uma só, seja um objecto, algo ou alguém que nos esteja próximo e cujo significado nos preencha a vida. Caminhei calma e despreocupadamente ao fim da tarde por uma rua sem saída. Tem o nome de Berugata, mas desconheço se é nome próprio ou se tem outro significado. São cento e cinquenta metros de via. Do lado interior, estão vivendas de arquitectura simples, com um piso. Do lado oposto ficam as águas do golfo, uma entrada profunda com quase vinte quilómetros e a cidade forma uma ínsua no seu interior. À esquerda aparece no horizonte uma travessia de mil e quinhentos metros e em frente o que me trouxe aqui por esta hora, um maciço de rocha erguendo-se na outra margem. Uma parede que se ergue e tapa o horizonte com elegância. As águas oceânicas quase não se movem e o céu aparece rasgado por fiapos delicados de nuvens que se desdobram em cinzas acastanhados. Sente-se uma placidez transbordante que parece extensiva a toda a ilha. Entrei na Islândia pelo sul, pela pequena cidade de Vík í Mýrdal com os seus 300 habitantes. Escolhi este lugar atraído pelas colónias dos fascinantes papa pufins e pelo glaciar Mýrdalsjökull no interior do qual repousa activo o vulcão Katia, há cerca de cem anos sem sinais de vida. Os pássaros retiveram-me em horas de contemplação. Não apenas pelas suas cores e o seu aspecto, mas também porque se percebe alguma ternura nestas aves. Da montanha onde repousa o gelo fica o pasmo das muralhas de neve secularmente solidificada e esse receio de que a todo o momento tudo aquilo se pode desmoronar em vagas de água imparável. Segui para norte, mas evitei a capital, pela concentração de pessoas, cerca de 50% da população do país. Quase tudo é novo, em cada lugar que se atravessa, desde os edifícios às estradas, como se só há pouco este território tivesse conhecido a presença humana, ou tivesse simplesmente pretendido esquecer o passado, pretérito esse que, no entanto, é longo com mil e duzentos anos. Foi um país sempre ocupado e os reinos da Noruega e da Dinamarca bem podem responder pela miséria, por vezes extrema, que atingiu os islandeses desde a Idade Média até ao século XX. Halldór Laxness, o Prémio Nobel islandês, retrata bem essa vivência em alguns dos seus romances. Com a independência, em 1944, os islandeses transformaram o seu país até o terem elevado a um dos lugares do planeta com mais qualidade de vida. Tudo é belo nesta ilha. A natureza deslumbra a cada instante, umas vezes pela grandeza, outras pelo pormenor. Sobretudo há uma sensação de serenidade, de descanso, de distensão. A solidão que se sente no exterior de cada localidade e nas grandes extensões que separa algumas, é compensada pelo ambiente que nos rodeia, como se dialogássemos com o espaço que nos envolve. É um país tranquilo, como me faz sentir neste fim de tarde e início de uma noite que tarda em chegar no Verão e não chega a escurecer o dia que quase nasce após ter acabado. São dias longos e temperaturas amenas se pensarmos na latitude em que nos encontramos. O círculo polar fica por aqui e faz-nos lembrar que este caminho que tenho percorrido se aproxima do fim, tal como estas palavras se esgotam, preferindo a meditação com o olhar pousado na cordilheira que se desenha altiva na outra margem.

02/08/17

121


ALGUÉM NÃO ANDA A CUMPRIR O SEU DEVER *



Mário Martins




https://www.google.pt/search?q=incendio+pedrogao+grande




Guardo ainda frescas na memória as imagens dantescas da cidade do Funchal a arder na televisão, no fundo da noite, a culminarem a onda avassaladora de incêndios do ano passado. Essas imagens causaram-me uma grande impressão e cheguei a temer o pior. Afinal, o pior estava para acontecer em Pedrógão. Um amigo oriundo da região, que havia dado uma volta por lá há pouco tempo, opinou que era previsível que uma desgraça acontecesse, dada a densidade da floresta com as aldeias no meio dela. Mas li no jornal que um professor de uma faculdade lembrou que há muito que está definida a necessidade de as aldeias da floresta terem um perímetro de segurança, um refúgio e formação da população. Portanto, há uma responsabilidade política traduzida numa demissão do papel do Estado de levar à prática as medidas de prevenção convenientes e de colocar o bem público acima dos interesses particulares. Assim como há uma responsabilidade política pela negra estatística de, ano após ano, Portugal ser o país da União Europeia com o maior número de incêndios florestais e uma área ardida à volta dos 50% da total europeia. Agora, a única maneira de honrar a memória dos mortos é aplicar as medidas de prevenção que não foram tomadas em décadas de laxismo e de aposta nos meios e acções de combate. Desta vez, só de pensar no que terão sido aqueles momentos infernais vividos pelas vítimas, fugi o mais que pude da televisão, tomado de pudor. Perante esta autêntica tragédia nacional, o furto de Tancos, grave em si mesmo, assume contornos de pura comédia. 

*do discurso de José Saramago na cerimónia de entrega do prémio Nobel (Dez1998)

01/08/17

CARTAS DE SANTA MARIA

Fernão Vasques


Tórshavn


Tórshavn, 31 de Julho



Esta cidade e o arquipélago, seduziram-me. Talvez seja a paisagem em geral, mas foram sobretudo as casas, as cores das habitações. Entre o nevoeiro, a neblina, a chuva, tudo o que possa baixar o céu e escurecer não consegue esconder as cores garridas, vibrantes, das paredes exteriores e dos telhados. Encantam-me os telhados cobertos de turfa, verdes como um prado de montanha. No Café Natúr, onde escrevo, há uma sensação de espaço portuário, o que de certa forma se ajusta tanto ao local onde se situa como à própria cidade. Tórshavn significa, Porto de Thor, mas os feroeses chamam-lhe apenas Havnin, ou seja, O Porto, o que me projecta o pensamento para o passado, lembranças guardadas, sonhos esquecidos. As Féroe eram um desejo de visita antigo, talvez pelo isolamento, pela geografia das suas ilhas, ou pelo local central como aparecem no atlas. As ilhas orientais possuem um aspecto majestático. Não existem aldeias de montanha, aparecem-nos todas junto ao mar como se pretendessem ficar protegidas por aquelas massas de pedra que se erguem na sua retaguarda. A Borðoy é uma cordilheira que se estende ao longo de 20 kms com altitudes a chegar aos 750 metros com uma espécie de braço de cada um dos lados da ilha. É um maciço de magma. Foi um risco, mas alcandorei-me em caminhada até um dos seus cumes. Adquirimos uma sensação de plenitude, de grandeza e, por outro lado, de imensa pequenez face ao que nos rodeia. Sentei-me e deixei-me ir. Estou em crer que em dias de horizonte limpo o olhar pode alcançar a costa norueguesa e islandesa. Ocorreu-me à memória uma dessas pessoas quase únicas que encontramos na vida. Um dia, numa reunião, trouxe um recorte de jornal que falava do infinitamente grande e do infinitamente pequeno, a física no seu esplendor. A dimensão de uma galáxia, que não podemos compreender, se não conhecermos a pequenez de um átomo. Os seres humanos, também guardam no seu interior, dois infinitos, que se revelam pela maldade e pela virtude. Percebi as horas a passar e não conseguia sair daquele abandono. Tentava imaginar a explosão vulcânica que projectou no espaço aquelas massas graníticas como um fogo-de-artifício em explosão crescente e, de seguida, cansadas, a escorrerem lentas, vermelhas e quentes em direcção ao oceano, solidificando erectas antes de se renderem. Ali estão, a proporcionar momentos de leveza na reflexão humana. Naquele espaço e perante aquelas formas compreende-se melhor o amor que nos segura a vida, e o porquê da nossa tão grande vontade de viver, de tanto amar a natureza que nos cerca e, perante tudo isto, a nossa incompreensão da morte, como se ela não fosse um elemento integrante da própria vida. Só morre o que nasce. Queremos viver e ao mesmo tempo não conseguimos parar o envelhecimento, com a sua perda de autonomia, de movimentos, de memória, como se nos fosse derrotando num processo lento e imparável. Que pena não podermos iludir este decaimento, quando a vida nos proporciona momentos de uma beleza inexprimível como aquele sentido no alto de Lokki no centro da Borðoy. Não sabia se escutava o silêncio ou se, eram sons que me chegavam em refluxos de memória. Ocorreram-me as palavras poemárias de António Borges Coelho quando lhe aprisionaram o corpo nas masmorras de Peniche, «Ouço o fragor da vaga/ do mar a bater no fundo». Sinto-me como uma ave de asas largas a planar sobre o sonho e visito a frase de uma exposição pensando numa dessas pessoas que nos marcam a alma para todo o sempre, «Elevas-me com o teu toque embora eu não consiga ver as tuas mãos». Não sei quando acordei daquele êxtase e iniciei a descida. Tórshavn é uma das mais antigas capitais europeias, na sua pequenez secular que só nos últimos cem anos a fez crescer ao nível de uma pequeníssima cidade nos seus cerca de doze mil habitantes. O seu centro histórico é simplesmente um espaço de encantar onde podemos caminhar entre mitos e duendes. Por estes dias celebra o Ólavsøka, o festival que homenageia São Olavo, o rei que foi da Noruega, na distante data do início do século XI. Comemorado nos finais de Julho transforma o dia 29 num dos feriados mais importantes do país, juntamente com o dia 25 de Abril, o Dia da Bandeira. A história do arquipélago ultrapassa os mil anos e é preenchida por uma história de ocupação, repartida entre a Noruega e a Dinamarca com uma breve ocupação inglesa durante a última Grande Guerra. Com uma taxa de fecundidade das mais elevadas da Europa, o conjunto destas ilhas, mostra que o que parece um grande isolamento não é necessariamente um mal a evitar. Koltur tem 2 habitantes, mas um fim de tarde na encosta sobranceira às casas, deixa-nos no limbo da melancolia e da eternidade. Há algo de profundo na contemplação da placidez das águas, na quietude das montanhas, nas suas encostas verdejantes, como um jardim acabado de tratar, na névoa que se estende esfarrapada no horizonte. É como se escutássemos uma música em tom baixo e longínquo. Sentimos um roçar da perfeição no que o olhar abarca. Apetece amar, essa expressão de emoções e sentimentos que nos proporciona a proximidade de alguém, um outro ser para uma repartição de gestos e olhares. Um pouco de mim vai ficar nestas ilhas.




A (EXTREMA) DIREITA

Mário Faria





A tragédia de Pedrogão deixou o país destroçado pela violência da catástrofe e pela incapacidade das autoridades em defender as pessoas e os bens. Acabado o luto, o governo foi atacado e responsabilizado pela falta de coordenação e capacidade para agir em momento de calamidade. Por iniciativa do PSD, uma equipa de sábios tomou a seu cargo o exame dos acontecimentos e da resposta das autoridades. A cabeça da ministra da Administração Interna foi exigida para lavar o sangue dos mártires. A demissão, numa hora difícil, seria uma covardia e a assunção de culpa, material e política. Tenho as mais sérias dúvidas da capacidade das forças de combate e dos seus dirigentes no ataque ao flagelo dos fogos. Dos bombeiros e dos outros. Mas, essa falta de confiança radica da brutalidade dos números que faz de Portugal o país que mais arde e tem comandos aparentemente pouco hábeis e insuficientemente rodados na intervenção no terreno. É muito importante que quem comande tenha essa experiência ou a tenha tido. Essa é uma condição que os comandados avaliam e muito influencia a acção do grupo. Mas, estas suspeições não têm qualquer fundamento e decorrem de uma certa facilidade como criticamos terceiros. Demais, tomar decisões no quadro catastrófico de Pedrogão foi seguramente complexo e deve ser medido em função do ritmo das ameaças e dos meios usados no combate. E se possível, concluir se houve falha humana. É bem provável que a cadeia de comando não tenha reagido com a mesma rapidez das chamas em fúria. Mas, a desvantagem foi evidente. E é muito fácil assumir, hoje, o que deveria ter sido feito. “Como prevenir e proteger sem destruir tudo? Não há nada pior do que os automatismos preventivos. A biopolítica das catástrofes é reactiva e funciona à medida do que acontece em tempos curtos. Não entende que no sistema ecológico os alarmes só disparam quando já é demasiado tarde. A grande catástrofe do fogo no centro do país suscitou imediatamente legítimas reclamações e todos os fantasmas de imunização, mas tais reacções ignoram as catástrofes lentas, o que aconteceu sem espectacularidade e de maneira mais serena.” 


A comunicação social tem feito uma recolha e um acompanhamento dos fogos florestais de forma esforçada. Porém, o tratamento das imagens foi aproveitado para criar um clima emocional que apela ao justicialismo e ao castigo. E ao terror. E como num filme de série tomou o titulou de “A estrada da Morte” e foi animado pela banda sonora de “Apocalypse Now”.Tudo lhes serviu para o efeito, encostando-se demasiado a noticiar factos sem recurso à investigação das fontes. Foi castigada por isso, e agora chora lágrimas de crocodilo e grita que querem acabar com a liberdade de imprensa. Mas a situação portuguesa tem as suas especificidades: sobre a ausência ou a rarefação de alguns géneros jornalísticos tradicionais, ergue-se a opinião e o comentário político, uma multidão de gente que transita da esfera política para o jornalismo e vice-versa, e começa o dia no jornal, passa à tarde pela rádio e está à noite na televisão. Este sistema conduz ao discurso histérico e à ausência de diversidade intelectual, muitas vezes confundido com a falta de pluralismo político, mas mais grave do que este porque está muito mais naturalizado e dissimulado. E é, além disso, responsável por uma esterilização de esfera pública mediática.”

O triste desempenho do PSD e do CDS sobre a publicação da lista dos mortos de Pedrogão, confirmou que estas forças políticas têm gente nos seus quadros e filiados, muita extrema-direita escondida com rabo de fora. Esta extrema-direita é superficialmente cosmopolita, mas não hesita em pegar no martelo e na moca para impor o seu ideário e os seus interesses. Ferro Rodrigues com aquele ar antipático que o caracteriza, deu conta desse evidência numa entrevista para a Antena 1. Fez bem. Lembrei-me dos tempos do PREC e das notícias que saiam todos os dias sobre o caos instalado no país e do sangue que corria pelas ruas de Lisboa. Por estes dias o alvo é diferente e o método menos musculado. A continuidade desta fórmula de governo é fundamental e, sendo assim, é imperioso que os actuais partidos que o sustentam se entendam entre si. O período eleitoral não favorece a prudência e os acordos a firmar e que constarão do próximo Orçamento, devem ser estabelecidos de forma sigilosa. A estratégia de os trazer para a rua como forma de pressão é uma ameaça: um tiro nos pés. Por favor sejam inteligentes e olhem menos para o umbigo.


Nota: os textos em bold são parte de um artigo de António Guerreiro no Público.



UM GOLPE DE ESTADO

Manuel Joaquim

Javier Garcia Sánchez



No passado mês de Março foi publicado pela Navona Editorial, de Barcelona, o livro do escritor espanhol Javier Garcia Sánchez, “Teoria de la Conspiración, Deconstruyendo um magnicidio: Dallas 22/11/63“, que,  inicialmente, em 2013, pretendia ser um ensaio sobre os cinquenta anos do  assassinato do Presidente dos Estados Unidos da América, John Fitzgerald Kennedy, mas que,  com a investigação profunda que efectuou, deparou com informações omitidas aquando da investigação do assassinato, com falsidades no processo de inquérito e em  ensaios publicados, tudo  no sentido de orientar conclusões,  se transformou num verdadeiro relatório sobre o acontecimento. 

A sua obra  identifica muitos dos intervenientes directos e indirectos, conclui que foi uma acção executiva com todas as regras, coordenada  e executada pela CIA,  com intervenção clara da máfia, em benefício dos homens do petróleo do Texas e  da indústria do armamento. Que nos quinze anos seguintes foram liquidados mais de cinquenta testemunhas e interventores para ocultação da verdade para que se mantivesse somente a oficial.

Sabe-se que JFK tinha aprovado em 11 de Outubro de 1963 a retirada escalonada do pessoal americano do Vietname. Em Dallas ia anunciar a aplicação de impostos sobre o petróleo. A extrema-direita combatia ferozmente a política liberal da presidência e a máfia e os exilados cubanos não perdoavam  a derrota da operação Mangusta (Baia dos Porcos) que tinha como objectivo matar Fidel de Castro e tomar Cuba.

O Vice-Presidente, Lyndon Johnson, em rota de colisão com JFK,  como era do domínio público, tinha interesses no petróleo e na industria do armamento. Passados dois dias do assassinato de JFK, tomou posse como Presidente e a primeira medida foi desencadear a guerra no Vietname.  Há quem não acredite, mas nos EUA também existem golpes de estado. E este teve consequências para todo o mundo.

Curiosamente na passada segunda-feira, dia 24, foram publicados cerca de quatro mil documentos pelos Arquivos Nacionais dos EUA,  em Washington, que estavam retidos ou censurados sobre o assassinato de JFK. Até final deste ano deve ser publicada toda a  documentação existente.

A obra de Javier Garcia Sánchez ultrapassou muito os cinquenta anos da data do assassinato de JFK, mas consegue presta-lhe homenagem  nos cem anos do seu nascimento que foi em 29 de Maio de 1917.

  

O TOM DISCORDANTE

António Mesquita



"O consenso é apenas um estado das discussões e não o seu fim. Este é mais propriamente a paralisia."

(Jean-François Lyotard, in "La condition post-moderne")


O tempo abre fissuras no mais feliz dos consensos. Todos conhecemos o efeito do cansaço nas discussões (quando as há) e como esse cansaço favorece um "consenso", que não resiste à luz do dia, mas que, rapidamente, se pode tornar "a melhor solução possível".

As discussões são virtualmente intermináveis porque é possível explorar indefinidamente os prós e os contra de qualquer posição, e é a vontade, finalmente, quem decide, ou o sono, o cansaço, o medo, e até...o bom senso.

O que nos leva ao aforismo que diz que "da discussão nasce a luz". Seria, talvez, mais apropriado sustentar que do concurso de vontades para levar a discussão à "paralisia" (ou ao não-problemático), pode resultar o esclarecimento da questão. Mas a discussão é muito mais do que isso. Basta pensar no que diz José Gil sobre a diferença entre discordância e discórdia e a incapacidade de discutir dos portugueses.

"Paradoxalmente (ou perversamente), porque o que se procura é precisamente a discordância (não a discórdia) e, antes de tudo, ouvir o som da sua própria voz,"

  ("Portugal, hoje - O medo de existir" de José Gil)

01/07/17

CARTAS DE SANTA MARIA


Fernão Vasques

http://www.medievalists.net/tag/orkney-islands/


Kirkwall, 30 de Junho

Durante toda a travessia, o mar apresentou-se agitado, ondulado, nebuloso, sem horizonte, arrastando esse mal-estar que nos arrefece e indispõe. Quatro ou cinco pessoas eram a totalidade dos passageiros do ferry. Na chegada a Burwick deixei que todos saíssem e vagarosamente estendi o olhar sobre o pequeno parque de estacionamento. Os dois automóveis que ali estavam, partiram e o navio ficou imobilizado no cais, aguardando novo horário. Olhei em redor e compreendi que estava só e apercebi-me da chegada, não do silêncio, mas dessa sensação de vazio, do nada. Comecei a caminhar sem vontade. A névoa persistia, o horizonte era curto e acreditei distinguir numa pequena colina afastada um grupo numeroso de animais no pasto. A primeira casa que me surgiu, duzentos metros percorridos, estava abandonada, apesar de ser constituída por diversos edifícios. É possível que um ou dois ainda tivessem proveito, pois as portas encerradas davam indícios de utilização. Na curva seguinte, à minha direita, avisto a velha igreja de St. Mary’s, também conhecida como South Kirk. Necessito desta paragem junto deste edifício, caminhar na sua adjacência, deixar-me ir. É uma construção em pedra, datada dos fins do século XVIII, mas foi uma restauração sobre uma outra mais antiga, acreditando-se que a original possa remontar ao século XI. No seu interior alberga uma pedra redonda com duas pegadas esculpidas. Deambulo pelo cemitério que rodeia a igreja com as lápides tão características deste Norte. Encontro uma com a data de 1554 e outra de 1684. É já no caminho para a saída que uma sepultura com configuração diferente me cativa o olhar. Aproximo-me, não por curiosidade, mas antes por uma espécie de sentimento. A pedra tem um nome e uma data que não consigo ler, mas é a dedicatória gravada que me alicia à leitura, «não estás longe, estás somente do outro lado do caminho». Deixei o olhar vadiar enquanto o pensamento se recompunha e procurava alcançar a grandeza daquela frase. Retornei à estrada. Esta estendia-se por um extenso planalto com ligeiras lombas e longas rectas. Não há árvores nem arbustos, apenas terras de pasto, os automóveis são raros e não se avistam pessoas. É só já muito próximo da pequena aldeia de St. Margaret’s Hope que o meu pensamento recupera do pasmo. A visita ao cemitério, deixou-me num deserto, num estado de atordoamento e só então reparo que a névoa desapareceu e um sol tímido se acomodou no céu. O olhar volta a recuperar a capacidade de visitar o que me rodeia e constato que apesar do rigor do clima há casas que possuem bonitos jardins, pelo desenho da construção e pelo colorido das flores. Para chegar à ilha de Mainland tenho de atravessar outras três pequenas ilhas, mas a tenacidade humana encontrou forma de as unir, não por pontes, mas por barreiras de pedras, sobre as quais passa a estrada. Atravesso a maior, Burray, a pequenina Glims Holm sem habitantes e quase de imediato, após vencer os 600 metros de barreira, alcanço a também pequena, Lamb Holm. O meu roteiro levava-me às Shetland, mas a lembrança de uma leitura com uns anos, que mão amiga me fez chegar na forma de livro, “A Capela no Fim do Mundo”, escrito por Kirsten McKenzie, fez-me mudar o trajecto trazendo-me até às Orkney. Enquanto caminhava ao longo da manhã tentei avivar a memória da história, mas tenho lapsos que já não consigo reconstruir. Em 1941, creio, uma unidade do exército italiano é aprisionada em combates junto à cidade de Bengasi na Líbia e os prisioneiros são levados pelos ingleses para o Cairo. Posteriormente são transferidos para a Europa de barco dando a volta pelo Cabo da Boa Esperança e são colocados num campo prisão, construído nesta ilha de Lamb Holm de um quilómetro por seiscentos metros. A história divide-se entre a vida destes soldados no ambiente meteorologicamente agreste das Orkades e dos seus familiares no Norte da Itália ocupada pelo exército alemão. Dois personagens adquirem relevo, Emílio e Rosa. Eram namorados quando Emílio foi para a guerra e aprisionado. Ele escreve e ela responde, mas a escrita dela vai perdendo fulgor amoroso, porque guarda um segredo. Colabora com a resistência anti-fascista e apaixona-se por um jovem resistente, o qual vem a morrer e acaba por facilitar o futuro. Emílio nunca o saberá e o livro inicia a história pelo fim, com a chegada a Lamb Holm dos antigos prisioneiros agora já sexagenários, para visitar o antigo campo e uma capela. Já na parte final da guerra, os italianos presos decidem aproveitar a estrutura de um armazém e com materiais retirados do mar, constroem uma capela. Emílio desenhava bem e faz os desenhos que embelezarão as paredes. A capela continua a existir e foi por ela que desviei a trajectória das Shetland para as Orkades. A capela é muito bonita e está muito bem conservada. Não consegui esclarecer o que é da construção primitiva e o que pode ter sido restaurado. A ilha é totalmente desabitada, existindo apenas o que ficou conhecido como a Capela Italiana. Sobretudo a imagem sobre o altar possui muita beleza, mas o tecto merece ser olhado. Prossigo para norte e não sei explicar o porquê de esta cidade de Kirkwall não me seduzir. Porventura não será o seu ambiente, mas antes o estado de alma em que me deixou a frase lapidar. Desisto de percorrer o arquipélago a norte. Algo me atrai para oeste no extremo de Mainland, na cidade de Stromness com os seus dois mil habitantes. Percorro a rua mais histórica na proximidade do mar sem deslumbre. Visito o museu onde sobressaem os aspectos da pesca à baleia e artefactos inuits, bem como, uma estatueta neolítica com cerca de 5000 anos. Regresso à capital, mas não consigo esquecer a frase que encontrei pouco depois de desembarcar no arquipélago, «não estás longe, estás somente do outro lado do caminho». Amanhã retomo a viagem, afastando-me das Orkades.   

HUMBOLDT


Mário Martins


Cerra os olhos, espeta as orelhas e, do mais suave som ao mais selvático barulho, do mais simples tom à mais elevada harmonia, do grito mais violento e apaixonado às mais gentis palavras da doce razão, é a Natureza que fala, revelando o seu ser, o seu poder, a sua vida e a sua afinidade (…)”
Goethe

Não sei o que é mais espantoso, se a história extraordinária deste grande cientista, se o seu completo esquecimento.

Alexander von Humboldt, filho de uma família aristocrática de Berlim, cuja longa vida atravessou dois séculos (1769-1859), foi o expoente máximo do cientista clássico, que se interessava por tudo e tudo media, antes de a especialização científica fazer o seu caminho. Foi essa abordagem interdisciplinar, que incluía a arte, a história, a poesia e a política, que o levou a elaborar o conceito de natureza como força global. A importância desta nova visão da natureza, entendida como uma rede em que tudo existe em conjunto, é comparável à da teoria da origem das espécies, publicada por Darwin no ano da morte de Humboldt, que tanto o inspirara.  

Humboldt era um poço de energia que usou em viagens épicas pelas Américas e pela Rússia. Não sem alguma ironia, Hans Magnus Enzensberger* fixa o seu modus operandi: “(…) Mede a declinação magnética, a altura do Sol, o teor de sal e o azul do céu. Desconfiados, os indígenas observam-no. Que gente estranha esta, que percorre o mundo em busca de plantas, para comparar o seu feno com outros fenos! Que razões vos levam a deixar-vos sugar por mosquitos para medir uma terra que não vos pertence? São estrangeiros, hereges e doidos. Mas, impassível como o padre espalhando o incenso, o viajante faz girar a sua garrafa de Leyden (…)”.

Humboldt foi admirado por vultos tão diferentes como Darwin, Goethe, Simón Bolívar ou o presidente dos Estados Unidos Thomas Jefferson. O primeiro centenário do seu nascimento foi comemorado em todo o mundo e o seu nome permanece por todo o lado, desde a Corrente de Humboldt que percorre o largo da costa do Chile e do Peru até ao Mare Humboldtianum na Lua.

Para a autora da biografia**, Andrea Wulf, “no início do século XX havia pouco espaço para um homem cujo conhecimento se estendera a um vasto leque de matérias. À medida que os cientistas se encolhiam dentro das suas estreitas áreas de especialidade, dividindo e depois subdividindo, perdiam de vista os métodos interdisciplinares de Humboldt e o seu conceito de natureza como força global (…) Outra das razões pela qual Humboldt se desvaneceu da nossa memória colectiva – pelo menos na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos - é o sentimento antigermânico que sobreveio com a Primeira Guerra Mundial (…) Ambas as guerras mundiais do século XX lançaram longas sombras e nem a Grã-Bretanha nem a América eram já lugares para o elogio de um grande espírito alemão.”

*In “Mausoléu” – A história do progresso em trinta e sete baladas, edição Cotovia.

**”A Invenção da Natureza” – As aventuras de Alexander von Humboldt, o herói esquecido da ciência – edição Temas e Debates – Círculo de Leitores

OS IDIOTAS

António Mesquita


A Ágora de Atenas


"Vivermos num mundo real e falarmos com os outros são fundamentalmente uma só e a mesma coisa, e para os gregos, a vida privada parecia "idiota" (*) porque lhe faltava a diversidade que decorre de falarmos sobre alguma coisa e, por isso, também a experiência do modo como as coisas realmente funcionam no mundo."

"A Promessa da Política" (Hannah Arendt)

(*) Em grego, idion significa privado, só para si, peculiar.

Uma das teses mais surpreendentes de Hannah Arendt é a afirmação anti-aristotélica de que o homem não é um animal político. Pelo que, muitas terão sido as sociedades na História em que a expressão do político esteve próxima do zero, e os regimes totalitários seriam o exemplo mais próximo do anti-político.

A política pressupõe, para Arendt, a liberdade e um espaço de palavra entre iguais. A consideração da política como um meio necessário à vida ou à segurança, coisas que as ditaduras podem, às vezes, assegurar, é a negação da política.

A tendência nas sociedades ocidentais para a privatização (idiotização, no sentido grego) de todas as actividades que não tenham a ver com a necessidade (ou a "alienação") corresponde mais do que a um desencanto com a política, tal como ela é feita, à perda do sentido das palavras e do seu poder de desencadearem a acção.

A inflação não é apenas um fenómeno de natureza económica. Toda a palavra é desvalorizada pela repetição e pela ampliação mediáticas.

UMA MANHÃ DE RAIVA


Mário Faria




Saí de madrugada (10h) para adquirir um comando de TV na Meo. Fui a pé: ando a queimar gorduras, a praia está próxima. Lá chegado, tirei a senha. Fui atendido muito rapidamente. Rebate falso: a menina que me atendeu explicou-me que para adquiri o comando tinha que me dirigir ao andar superior e pressionar a letra “I” para ser assistido. Assim fiz. Em baixo, o ambiente era do tipo SNS, em cima cheirava a Guerra das Estrelas. O público estava completamente absorto nas suas tarefas. Como invejo o ar sapiente daquela gente. 30 minutos depois, a moça-empregada chamou-me. Expliquei ao que vinha. Respondeu-me que não tinham comandos, de forma indiferente, a mascar chiclete. Fiquei zangado e à beira de uns quantos palavrões, quando me explicou que poderia, através de um qualquer Meo Go, aceder a todos os canais televisivos. Tirou-me do sério e deixei toda a revolta no texto que juntei no livro de reclamações que vai surtir o mesmo efeito que os emails do Francisco J na justiça. As grandes corporações estão acima da lei e dos bons costumes. Regressei a casa à peanha, depois de ter desistido de entrar nas filas chorudas dos transportes públicos. Cheguei cansado ao lar. O tapete novo comprado a preço de ouro continua a cheirar a loja dos chineses. Estava enjoado e voltei à rua. O casal que espio há muito tempo tomou o rumo do Jardim de Arca de Água. Ela à frente e o homem a um metro dela. No jardim aproximaram-se e caminharam lado a lado. De repente, dão um saltinho e soltam uma risada quando a rega os molhou. E falaram um com o outro. A aparente prova de silêncio tinha caído. O mistério adensa-se e não tenho respostas. Tenho de falar com o Chico Fininho. Tomei o autocarro, o 600, cheio a abarrotar. O barulho era ensurdecedor. Uma zaragata bem-disposta e em tom familiar, até que uma mulher com voz estridente e quase aos berros, perguntou: “é aqui a paragem de Vale Formoso?” ao que um homem respondeu,  com voz grossa e mau hálito: “não, é de Nova Iorque”. Os risos provocaram na mulher uma reacção intempestiva que continha tudo de melhor da língua portuguesa. Saiu, e acenou um adeus com o dedo médio, devidamente estendido e a sorrir de boca aberta e sem dentes. O povo gargalhou mas por pouco tempo. Duas amigas (?) pegaram-se: discordavam sobre as causas e o combate aos fogos. Uma dizia que os bombeiros eram gordos e incompetentes e a outra que eram uns heróis. O tom aqueceu e passou a insulto. O motorista parou a viatura e pediu compostura. Aproveitei para sair. A minha paciência tinha chegado ao limite. Voltei a casa. Tinham tentado arrombar os arrumos. A comandante da casa, tomou conta da ocorrência e gizou o plano de defesa. Havia um movimento inusitado com a contribuição dos vizinhos mais próximos. Perguntado se achava bem o plano gizado, sugeri que o melhor era comprar um cofre para defender os bens. Tornei a sair, sem ouvir a resposta. Encaminhei-me para a caixa multibanco mais próxima mas a máquina comeu-me o cartão e não me deu o dinheiro. Voltei a casa para o anular. O comité de crise já tinha chamado um serralheiro para blindar os “arrumos”. O processo de anulação do cartão foi um sucesso. Tornei a sair e fui ao banco para receber um novo cartão. Voltei ao 600 e a viagem foi um sossego. Finalmente um pouco de paz. 

RECORRÊNCIA


Manuel Joaquim
(Tvi24 - IOL)


Todos os dias a comunicação social bombardeia-nos com notícias sobre os incêndios, o Siresp, os bombeiros, a falta de coordenação dos serviços, exigências de demissões deste ou daquele ministro, de comandantes, etc, , e entrevistas com diversas personalidades. Falam muito sobre a calamidade, como se fossem acontecimentos novos, mas não dizem nada de importante. O Siresp, que dizem que falhou. Passam por cima das decisões políticas tomadas ao longo de anos que levaram à destruição de estruturas fundamentais para a gestão e protecção da floresta. Problemas que já foram debatidos diversas vezes na Assembleia da República, o Siresp com comissão de inquérito, mas sem grandes resultados. 

Alguns, destituídos de escrúpulos, à espera de dividendos políticos, dizem disparates sobre o suicídio de pessoas, defendem a manutenção de crassos erros sobre a arborização do território para a obtenção de resultados imediatos tendo em conta os ciclos políticos, evidenciando, não só má-fé mas sobretudo ignorância.

Existem muitos trabalhos publicados ao longo de muitos anos sobre os problemas da floresta, por pessoas altamente competentes.

O jornal Público, em 2006, publicou um artigo do Prof. Jorge Paiva, biólogo e investigador da Universidade de Coimbra e de outras universidades, que descreve a situação da floresta portuguesa e do erro da plantação do eucalipto pelas suas consequências. Refere nesse trabalho que “ a partir da segunda década do século XX, apesar dos alertas ambientalistas, efectuaram-se intensas, contínuas e desordenadas arborizações com eucalipto, tendo-se criado a maior área de eucaliptal contínuo da Europa “

Agostinho Lopes, deputado do PCP na Assembleia da República, interveio em plenário em 2002, caracterizando a situação da floresta e propondo medidas necessárias para salvar uma parte considerável da riqueza nacional. As propostas apresentadas foram para o saco roto.

Nos finais de Junho publicou o seguinte artigo que me parece ser importante divulgar para melhor esclarecimento das pessoas.


07/06/17

119


O BELGA


Mário Martins



Eu gosto do Porto. (…) Gosto de um Porto cá muito meu (…). Entro então nele a tiritar de frio, atravesso-o molhado de nevoeiro, arranjo quarto, e deito-me no aconchego dessa velha e casta paixão que nos une. (…) De vez em quando perco a cabeça, estrago os horários, (…) meto-me num eléctrico e dou a volta ao mundo, a descer à Foz pela Marginal e a subir pela Boavista. (…)”

Miguel Torga, 1956


Está de regresso o Belga, após 21 anos de clausura no museu e 88 anos depois de ter sido importado da Bélgica, todo janota no seu fato amarelo torrado, à linha 1, a mãe de todas as linhas: “A linha era inconfundível. Andavam nela os carros maiores que havia na Carris: os Belgas, que pareciam frigoríficos americanos muito matulões (…)”* Num destes dias em que o vi, sinal dos tempos, era guardado, quer dizer, guiado por uma mulher, a mão no freio do matulão, de ancas avantajadas, as do eléctrico. Na Lapa onde cresci, andava, em miúdo, de “guna”, quer dizer, de borla, nos estribos, de onde se saltava, sem noção do perigo, em andamento, nos 7s para o Amial, S. Mamede ou Ponte da Pedra, ou no 8 para o Campo Lindo. Mas voltemos à linha 1: “Além dos apertos (…), da mistura de cheiros, variável do odor a sovaco (…) ao chulé, do cheiro a peixe dos operários do frigorífico de Massarelos ao pivete a bacalhau encasquetado dos operários do frigorífico do Bicalho, e ao cheiro a peixe fresco das peixeiras da Afurada que entravam no Ouro, do cheiro a óleo, a ferro e a carvão dos operários da «remise», da central eléctrica e das fundições, ao cheiro a colas, madeiras e resinas dos operários dos estaleiros de Lordelo (…). O condutor (…), quer dizer, o antigo cobrador, vulgo o «Pica», ao anunciar Monchique, Massarelos, Bicalho, Gás, etc., ia provocando coros de resposta, do género ic, ic, ic, elos, elos, elos e, quanto ao Bicalho, estão a ver a gangada a gritar, alto e bom som, diante de crianças, a rima correspondente (…). Do segundo género eram os comentários sobre o aspecto de quem entrava: das pernas e mamas aqui, das «vamps» do Infante, dos cus assim e assado das pandorcas de Miragaia, dos fatos de macaco e «chega-te pra lá, ó macaco do fato de Massarelos», etc. (…). O máximo, nestes dislates verbais, era atingido nas disputas entre os da boa-vai-ela e as peixeiras, que rematavam ao mais alto nível de insultos a toda a família e ameaças de «ainda levas com uma pescada nas trombas, ó filho da curta, ó roto!», etc.. Da Senhora da Luz ao Molhe, ao Castelo do Queijo e à Praia Internacional, ia o 1 descarregando a humanidade. (…).”* Agora termina a viagem, ingloriamente, no Passeio Alegre onde se adivinha, em Maio, maduro Maio, o verde a explodir nos quintais que restam da velha Foz.

*Excertos, em itálico, com a devida vénia, do bem saboroso texto de Helder Pacheco, na excelente publicação “O carro eléctrico no Porto”, editada em 1995 pela Sociedade de Transportes Colectivos do Porto.

CARTAS DE SANTA MARIA


(Urqhart castle)

Inverness, 31 de Mai



A Foz do Ness é o nome desta cidade onde cheguei. Sim, este é o Ness que vem do lago onde alguns procuram afanosamente um monstro que não se deixa ver. É uma pena e uma perda de tempo procurá-lo quando os verdadeiros monstros são bem visíveis e infernizam-nos a vida real. Na verdade o Ness desagua num imenso estuário e só doze quilómetros além entra vagarosamente no Mar do Norte. Vim de Sul para Norte e atravessei as Altas Montanhas. É uma sucessão de lagos e fios de água. A neve ainda resistia no cume das cordilheiras que rodeiam o Lago Lochy. Em Fort Augustus abandonei a A82, por onde todos seguem. Rodeei o Ness pela margem direita através da B862. Voltei a subir as montanhas até ao Lago Tarff.  A 500 mts de altura a paisagem é soberba. Os 35 kms do Ness ficam sob o nosso olhar. São momentos de paralisia, de reflexão. Sentimos a nossa pequenez perante a imensidão da paisagem. Num minuto apercebemo-nos do significado do verbo amar, a vida, as pessoas, os lugares. É quando nos deixam assim, na fronteira do inacreditável, do inenarrável, do que não pode ser fotografado, apenas vivido nesses instantes em que a roda do tempo se detém para nos podermos aperceber de quem somos, do que fazemos e para onde vamos. O tempo que perdemos em futilidades quando a vida é como a paisagem, só a podemos viver uma vez, porque muda a cada instante, pela luminosidade, a intensidade das cores, a temperatura ou a hora do dia. Baixei para Foyers para alcançar a margem do lago e poder olhar as ruínas de Urquhart Castle do lado oposto. As ruínas do que já foi grande. Num espaço cuidado, bem conservadas, deixam-nos a ideia de uma Escócia soberana, independente, uma nação com alma. Propositadamente quis vê-las à distância, como quem interroga o passado sem o perturbar. O meu caminho prosseguiu pela margem direita ao longo da B862. Foi neste percurso estreito, rodeado de verde entre árvores e arbustos que a memória me trouxe um tempo em que a música que escutava variava com as estradas que percorria. Não a escolhia nem a procurava, chegava com os espaços que atravessava. Não a trazia na memória, surgia do interior da alma. Quando viajava na N347 a caminho de Montemor nesse instante em  que a quietude do fim de tarde visita o nosso cansaço por entre as árvores que marginam a estrada antes de alcançarmos os campos do Mondego, chegava-me a Elegia do José Afonso, “O vento desfolha a tarde/ como a dor desfolha o peito”; na N226 a caminho de Lamego quando a luz do dia nos anuncia a visita do crepúsculo, deixava-me embalar pela doçura das curvas e aparecia-me a Canção de Embalar“Trovas e cantigas muito belas/ afina a garganta meu cantor/ quando a luz se apaga nas janelas/perde a estrela d’alva o seu fulgor”; porém quando o meu caminho era a N222, nesse traçado esplêndido entre a Régua e o Pinhão, surgiam-me os sons alegres de Maria Faia e era como se o automóvel adquirisse asas e planasse sobre a margem do Douro,  “Eu não sei como te chamas ó Maria Faia/ nem que nome te hei-de eu pôr/ ó Maria Faia, ó Faia Maria”. Havia uma música que me chegava em qualquer estrada nesses momentos em que as escarpas da vida me traziam as maldades do mundo, a violência dos senhores, dos “mordomos do universo todo” e a alma explodia como uma galáxia em expansão ao som do Dies Irae do Mozart, como se me erguesse nas mãos de todos os deserdados num voo de justiça e furor como quem acredita serpossível humanizar a humanidade. Entrei no sul da Inglaterra pela Cornualha e ao caminhar pela B3301 ao admirar as ondas em vagas sucessivas de encontro ao sopé da falésia foi a vez de escutar Carmina Burana Ó Fortunanesses cinco minutos iniciais de autêntica fantasia que nos faz sentir marinheiros descobridores enfrentando adamastores. Ao lembrar-me de todos estes momentos interrogo-me porque razão naquele momento em que me aproximava de Inverness, no sossego de uma estrada bela e aprazível a música que escuto provinda da alma é a Balada de Outono“Águas passadas do rio/meu sono vazio/não vão acordar/Águas das fontes calai/ó ribeiras chorai/ que eu não volto a cantar”. Para  da cidade, no fim do estuário, há uma praia extensa ao longo de uma ínsua. Uma jovem passeia um cão que vai correndo no vai e vem das ondas. Ao longe um cargueiro rasga o horizonte, a sua grandeza diminuída pela distância. O resto é silêncio, o que vejo e sinto e o que a alma me traz nos sons que a criação de Beethoven fez chegar até aos nossos dias. É o silêncio que vejo a norte para onde se encaminha o meu destino. 

Fernão Vasques*



* Por favor, não me confundam com o corajoso alfaiate que em 1371 ousou desafiar, em nome do povo, O Formoso e a futura rainha. Sou apenas um sonhador, digo eu, dos finais do século XX com endereço em Santa Maria das Júnias. São duas ruínas que se amparam, as minhas e as do mosteiro.

View My Stats