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01/07/17

CARTAS DE SANTA MARIA


Fernão Vasques

http://www.medievalists.net/tag/orkney-islands/


Kirkwall, 30 de Junho

Durante toda a travessia, o mar apresentou-se agitado, ondulado, nebuloso, sem horizonte, arrastando esse mal-estar que nos arrefece e indispõe. Quatro ou cinco pessoas eram a totalidade dos passageiros do ferry. Na chegada a Burwick deixei que todos saíssem e vagarosamente estendi o olhar sobre o pequeno parque de estacionamento. Os dois automóveis que ali estavam, partiram e o navio ficou imobilizado no cais, aguardando novo horário. Olhei em redor e compreendi que estava só e apercebi-me da chegada, não do silêncio, mas dessa sensação de vazio, do nada. Comecei a caminhar sem vontade. A névoa persistia, o horizonte era curto e acreditei distinguir numa pequena colina afastada um grupo numeroso de animais no pasto. A primeira casa que me surgiu, duzentos metros percorridos, estava abandonada, apesar de ser constituída por diversos edifícios. É possível que um ou dois ainda tivessem proveito, pois as portas encerradas davam indícios de utilização. Na curva seguinte, à minha direita, avisto a velha igreja de St. Mary’s, também conhecida como South Kirk. Necessito desta paragem junto deste edifício, caminhar na sua adjacência, deixar-me ir. É uma construção em pedra, datada dos fins do século XVIII, mas foi uma restauração sobre uma outra mais antiga, acreditando-se que a original possa remontar ao século XI. No seu interior alberga uma pedra redonda com duas pegadas esculpidas. Deambulo pelo cemitério que rodeia a igreja com as lápides tão características deste Norte. Encontro uma com a data de 1554 e outra de 1684. É já no caminho para a saída que uma sepultura com configuração diferente me cativa o olhar. Aproximo-me, não por curiosidade, mas antes por uma espécie de sentimento. A pedra tem um nome e uma data que não consigo ler, mas é a dedicatória gravada que me alicia à leitura, «não estás longe, estás somente do outro lado do caminho». Deixei o olhar vadiar enquanto o pensamento se recompunha e procurava alcançar a grandeza daquela frase. Retornei à estrada. Esta estendia-se por um extenso planalto com ligeiras lombas e longas rectas. Não há árvores nem arbustos, apenas terras de pasto, os automóveis são raros e não se avistam pessoas. É só já muito próximo da pequena aldeia de St. Margaret’s Hope que o meu pensamento recupera do pasmo. A visita ao cemitério, deixou-me num deserto, num estado de atordoamento e só então reparo que a névoa desapareceu e um sol tímido se acomodou no céu. O olhar volta a recuperar a capacidade de visitar o que me rodeia e constato que apesar do rigor do clima há casas que possuem bonitos jardins, pelo desenho da construção e pelo colorido das flores. Para chegar à ilha de Mainland tenho de atravessar outras três pequenas ilhas, mas a tenacidade humana encontrou forma de as unir, não por pontes, mas por barreiras de pedras, sobre as quais passa a estrada. Atravesso a maior, Burray, a pequenina Glims Holm sem habitantes e quase de imediato, após vencer os 600 metros de barreira, alcanço a também pequena, Lamb Holm. O meu roteiro levava-me às Shetland, mas a lembrança de uma leitura com uns anos, que mão amiga me fez chegar na forma de livro, “A Capela no Fim do Mundo”, escrito por Kirsten McKenzie, fez-me mudar o trajecto trazendo-me até às Orkney. Enquanto caminhava ao longo da manhã tentei avivar a memória da história, mas tenho lapsos que já não consigo reconstruir. Em 1941, creio, uma unidade do exército italiano é aprisionada em combates junto à cidade de Bengasi na Líbia e os prisioneiros são levados pelos ingleses para o Cairo. Posteriormente são transferidos para a Europa de barco dando a volta pelo Cabo da Boa Esperança e são colocados num campo prisão, construído nesta ilha de Lamb Holm de um quilómetro por seiscentos metros. A história divide-se entre a vida destes soldados no ambiente meteorologicamente agreste das Orkades e dos seus familiares no Norte da Itália ocupada pelo exército alemão. Dois personagens adquirem relevo, Emílio e Rosa. Eram namorados quando Emílio foi para a guerra e aprisionado. Ele escreve e ela responde, mas a escrita dela vai perdendo fulgor amoroso, porque guarda um segredo. Colabora com a resistência anti-fascista e apaixona-se por um jovem resistente, o qual vem a morrer e acaba por facilitar o futuro. Emílio nunca o saberá e o livro inicia a história pelo fim, com a chegada a Lamb Holm dos antigos prisioneiros agora já sexagenários, para visitar o antigo campo e uma capela. Já na parte final da guerra, os italianos presos decidem aproveitar a estrutura de um armazém e com materiais retirados do mar, constroem uma capela. Emílio desenhava bem e faz os desenhos que embelezarão as paredes. A capela continua a existir e foi por ela que desviei a trajectória das Shetland para as Orkades. A capela é muito bonita e está muito bem conservada. Não consegui esclarecer o que é da construção primitiva e o que pode ter sido restaurado. A ilha é totalmente desabitada, existindo apenas o que ficou conhecido como a Capela Italiana. Sobretudo a imagem sobre o altar possui muita beleza, mas o tecto merece ser olhado. Prossigo para norte e não sei explicar o porquê de esta cidade de Kirkwall não me seduzir. Porventura não será o seu ambiente, mas antes o estado de alma em que me deixou a frase lapidar. Desisto de percorrer o arquipélago a norte. Algo me atrai para oeste no extremo de Mainland, na cidade de Stromness com os seus dois mil habitantes. Percorro a rua mais histórica na proximidade do mar sem deslumbre. Visito o museu onde sobressaem os aspectos da pesca à baleia e artefactos inuits, bem como, uma estatueta neolítica com cerca de 5000 anos. Regresso à capital, mas não consigo esquecer a frase que encontrei pouco depois de desembarcar no arquipélago, «não estás longe, estás somente do outro lado do caminho». Amanhã retomo a viagem, afastando-me das Orkades.   

HUMBOLDT


Mário Martins


Cerra os olhos, espeta as orelhas e, do mais suave som ao mais selvático barulho, do mais simples tom à mais elevada harmonia, do grito mais violento e apaixonado às mais gentis palavras da doce razão, é a Natureza que fala, revelando o seu ser, o seu poder, a sua vida e a sua afinidade (…)”
Goethe

Não sei o que é mais espantoso, se a história extraordinária deste grande cientista, se o seu completo esquecimento.

Alexander von Humboldt, filho de uma família aristocrática de Berlim, cuja longa vida atravessou dois séculos (1769-1859), foi o expoente máximo do cientista clássico, que se interessava por tudo e tudo media, antes de a especialização científica fazer o seu caminho. Foi essa abordagem interdisciplinar, que incluía a arte, a história, a poesia e a política, que o levou a elaborar o conceito de natureza como força global. A importância desta nova visão da natureza, entendida como uma rede em que tudo existe em conjunto, é comparável à da teoria da origem das espécies, publicada por Darwin no ano da morte de Humboldt, que tanto o inspirara.  

Humboldt era um poço de energia que usou em viagens épicas pelas Américas e pela Rússia. Não sem alguma ironia, Hans Magnus Enzensberger* fixa o seu modus operandi: “(…) Mede a declinação magnética, a altura do Sol, o teor de sal e o azul do céu. Desconfiados, os indígenas observam-no. Que gente estranha esta, que percorre o mundo em busca de plantas, para comparar o seu feno com outros fenos! Que razões vos levam a deixar-vos sugar por mosquitos para medir uma terra que não vos pertence? São estrangeiros, hereges e doidos. Mas, impassível como o padre espalhando o incenso, o viajante faz girar a sua garrafa de Leyden (…)”.

Humboldt foi admirado por vultos tão diferentes como Darwin, Goethe, Simón Bolívar ou o presidente dos Estados Unidos Thomas Jefferson. O primeiro centenário do seu nascimento foi comemorado em todo o mundo e o seu nome permanece por todo o lado, desde a Corrente de Humboldt que percorre o largo da costa do Chile e do Peru até ao Mare Humboldtianum na Lua.

Para a autora da biografia**, Andrea Wulf, “no início do século XX havia pouco espaço para um homem cujo conhecimento se estendera a um vasto leque de matérias. À medida que os cientistas se encolhiam dentro das suas estreitas áreas de especialidade, dividindo e depois subdividindo, perdiam de vista os métodos interdisciplinares de Humboldt e o seu conceito de natureza como força global (…) Outra das razões pela qual Humboldt se desvaneceu da nossa memória colectiva – pelo menos na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos - é o sentimento antigermânico que sobreveio com a Primeira Guerra Mundial (…) Ambas as guerras mundiais do século XX lançaram longas sombras e nem a Grã-Bretanha nem a América eram já lugares para o elogio de um grande espírito alemão.”

*In “Mausoléu” – A história do progresso em trinta e sete baladas, edição Cotovia.

**”A Invenção da Natureza” – As aventuras de Alexander von Humboldt, o herói esquecido da ciência – edição Temas e Debates – Círculo de Leitores

OS IDIOTAS

António Mesquita


A Ágora de Atenas


"Vivermos num mundo real e falarmos com os outros são fundamentalmente uma só e a mesma coisa, e para os gregos, a vida privada parecia "idiota" (*) porque lhe faltava a diversidade que decorre de falarmos sobre alguma coisa e, por isso, também a experiência do modo como as coisas realmente funcionam no mundo."

"A Promessa da Política" (Hannah Arendt)

(*) Em grego, idion significa privado, só para si, peculiar.

Uma das teses mais surpreendentes de Hannah Arendt é a afirmação anti-aristotélica de que o homem não é um animal político. Pelo que, muitas terão sido as sociedades na História em que a expressão do político esteve próxima do zero, e os regimes totalitários seriam o exemplo mais próximo do anti-político.

A política pressupõe, para Arendt, a liberdade e um espaço de palavra entre iguais. A consideração da política como um meio necessário à vida ou à segurança, coisas que as ditaduras podem, às vezes, assegurar, é a negação da política.

A tendência nas sociedades ocidentais para a privatização (idiotização, no sentido grego) de todas as actividades que não tenham a ver com a necessidade (ou a "alienação") corresponde mais do que a um desencanto com a política, tal como ela é feita, à perda do sentido das palavras e do seu poder de desencadearem a acção.

A inflação não é apenas um fenómeno de natureza económica. Toda a palavra é desvalorizada pela repetição e pela ampliação mediáticas.

UMA MANHÃ DE RAIVA


Mário Faria




Saí de madrugada (10h) para adquirir um comando de TV na Meo. Fui a pé: ando a queimar gorduras, a praia está próxima. Lá chegado, tirei a senha. Fui atendido muito rapidamente. Rebate falso: a menina que me atendeu explicou-me que para adquiri o comando tinha que me dirigir ao andar superior e pressionar a letra “I” para ser assistido. Assim fiz. Em baixo, o ambiente era do tipo SNS, em cima cheirava a Guerra das Estrelas. O público estava completamente absorto nas suas tarefas. Como invejo o ar sapiente daquela gente. 30 minutos depois, a moça-empregada chamou-me. Expliquei ao que vinha. Respondeu-me que não tinham comandos, de forma indiferente, a mascar chiclete. Fiquei zangado e à beira de uns quantos palavrões, quando me explicou que poderia, através de um qualquer Meo Go, aceder a todos os canais televisivos. Tirou-me do sério e deixei toda a revolta no texto que juntei no livro de reclamações que vai surtir o mesmo efeito que os emails do Francisco J na justiça. As grandes corporações estão acima da lei e dos bons costumes. Regressei a casa à peanha, depois de ter desistido de entrar nas filas chorudas dos transportes públicos. Cheguei cansado ao lar. O tapete novo comprado a preço de ouro continua a cheirar a loja dos chineses. Estava enjoado e voltei à rua. O casal que espio há muito tempo tomou o rumo do Jardim de Arca de Água. Ela à frente e o homem a um metro dela. No jardim aproximaram-se e caminharam lado a lado. De repente, dão um saltinho e soltam uma risada quando a rega os molhou. E falaram um com o outro. A aparente prova de silêncio tinha caído. O mistério adensa-se e não tenho respostas. Tenho de falar com o Chico Fininho. Tomei o autocarro, o 600, cheio a abarrotar. O barulho era ensurdecedor. Uma zaragata bem-disposta e em tom familiar, até que uma mulher com voz estridente e quase aos berros, perguntou: “é aqui a paragem de Vale Formoso?” ao que um homem respondeu,  com voz grossa e mau hálito: “não, é de Nova Iorque”. Os risos provocaram na mulher uma reacção intempestiva que continha tudo de melhor da língua portuguesa. Saiu, e acenou um adeus com o dedo médio, devidamente estendido e a sorrir de boca aberta e sem dentes. O povo gargalhou mas por pouco tempo. Duas amigas (?) pegaram-se: discordavam sobre as causas e o combate aos fogos. Uma dizia que os bombeiros eram gordos e incompetentes e a outra que eram uns heróis. O tom aqueceu e passou a insulto. O motorista parou a viatura e pediu compostura. Aproveitei para sair. A minha paciência tinha chegado ao limite. Voltei a casa. Tinham tentado arrombar os arrumos. A comandante da casa, tomou conta da ocorrência e gizou o plano de defesa. Havia um movimento inusitado com a contribuição dos vizinhos mais próximos. Perguntado se achava bem o plano gizado, sugeri que o melhor era comprar um cofre para defender os bens. Tornei a sair, sem ouvir a resposta. Encaminhei-me para a caixa multibanco mais próxima mas a máquina comeu-me o cartão e não me deu o dinheiro. Voltei a casa para o anular. O comité de crise já tinha chamado um serralheiro para blindar os “arrumos”. O processo de anulação do cartão foi um sucesso. Tornei a sair e fui ao banco para receber um novo cartão. Voltei ao 600 e a viagem foi um sossego. Finalmente um pouco de paz. 

RECORRÊNCIA


Manuel Joaquim
(Tvi24 - IOL)


Todos os dias a comunicação social bombardeia-nos com notícias sobre os incêndios, o Siresp, os bombeiros, a falta de coordenação dos serviços, exigências de demissões deste ou daquele ministro, de comandantes, etc, , e entrevistas com diversas personalidades. Falam muito sobre a calamidade, como se fossem acontecimentos novos, mas não dizem nada de importante. O Siresp, que dizem que falhou. Passam por cima das decisões políticas tomadas ao longo de anos que levaram à destruição de estruturas fundamentais para a gestão e protecção da floresta. Problemas que já foram debatidos diversas vezes na Assembleia da República, o Siresp com comissão de inquérito, mas sem grandes resultados. 

Alguns, destituídos de escrúpulos, à espera de dividendos políticos, dizem disparates sobre o suicídio de pessoas, defendem a manutenção de crassos erros sobre a arborização do território para a obtenção de resultados imediatos tendo em conta os ciclos políticos, evidenciando, não só má-fé mas sobretudo ignorância.

Existem muitos trabalhos publicados ao longo de muitos anos sobre os problemas da floresta, por pessoas altamente competentes.

O jornal Público, em 2006, publicou um artigo do Prof. Jorge Paiva, biólogo e investigador da Universidade de Coimbra e de outras universidades, que descreve a situação da floresta portuguesa e do erro da plantação do eucalipto pelas suas consequências. Refere nesse trabalho que “ a partir da segunda década do século XX, apesar dos alertas ambientalistas, efectuaram-se intensas, contínuas e desordenadas arborizações com eucalipto, tendo-se criado a maior área de eucaliptal contínuo da Europa “

Agostinho Lopes, deputado do PCP na Assembleia da República, interveio em plenário em 2002, caracterizando a situação da floresta e propondo medidas necessárias para salvar uma parte considerável da riqueza nacional. As propostas apresentadas foram para o saco roto.

Nos finais de Junho publicou o seguinte artigo que me parece ser importante divulgar para melhor esclarecimento das pessoas.


07/06/17

119


O BELGA


Mário Martins



Eu gosto do Porto. (…) Gosto de um Porto cá muito meu (…). Entro então nele a tiritar de frio, atravesso-o molhado de nevoeiro, arranjo quarto, e deito-me no aconchego dessa velha e casta paixão que nos une. (…) De vez em quando perco a cabeça, estrago os horários, (…) meto-me num eléctrico e dou a volta ao mundo, a descer à Foz pela Marginal e a subir pela Boavista. (…)”

Miguel Torga, 1956


Está de regresso o Belga, após 21 anos de clausura no museu e 88 anos depois de ter sido importado da Bélgica, todo janota no seu fato amarelo torrado, à linha 1, a mãe de todas as linhas: “A linha era inconfundível. Andavam nela os carros maiores que havia na Carris: os Belgas, que pareciam frigoríficos americanos muito matulões (…)”* Num destes dias em que o vi, sinal dos tempos, era guardado, quer dizer, guiado por uma mulher, a mão no freio do matulão, de ancas avantajadas, as do eléctrico. Na Lapa onde cresci, andava, em miúdo, de “guna”, quer dizer, de borla, nos estribos, de onde se saltava, sem noção do perigo, em andamento, nos 7s para o Amial, S. Mamede ou Ponte da Pedra, ou no 8 para o Campo Lindo. Mas voltemos à linha 1: “Além dos apertos (…), da mistura de cheiros, variável do odor a sovaco (…) ao chulé, do cheiro a peixe dos operários do frigorífico de Massarelos ao pivete a bacalhau encasquetado dos operários do frigorífico do Bicalho, e ao cheiro a peixe fresco das peixeiras da Afurada que entravam no Ouro, do cheiro a óleo, a ferro e a carvão dos operários da «remise», da central eléctrica e das fundições, ao cheiro a colas, madeiras e resinas dos operários dos estaleiros de Lordelo (…). O condutor (…), quer dizer, o antigo cobrador, vulgo o «Pica», ao anunciar Monchique, Massarelos, Bicalho, Gás, etc., ia provocando coros de resposta, do género ic, ic, ic, elos, elos, elos e, quanto ao Bicalho, estão a ver a gangada a gritar, alto e bom som, diante de crianças, a rima correspondente (…). Do segundo género eram os comentários sobre o aspecto de quem entrava: das pernas e mamas aqui, das «vamps» do Infante, dos cus assim e assado das pandorcas de Miragaia, dos fatos de macaco e «chega-te pra lá, ó macaco do fato de Massarelos», etc. (…). O máximo, nestes dislates verbais, era atingido nas disputas entre os da boa-vai-ela e as peixeiras, que rematavam ao mais alto nível de insultos a toda a família e ameaças de «ainda levas com uma pescada nas trombas, ó filho da curta, ó roto!», etc.. Da Senhora da Luz ao Molhe, ao Castelo do Queijo e à Praia Internacional, ia o 1 descarregando a humanidade. (…).”* Agora termina a viagem, ingloriamente, no Passeio Alegre onde se adivinha, em Maio, maduro Maio, o verde a explodir nos quintais que restam da velha Foz.

*Excertos, em itálico, com a devida vénia, do bem saboroso texto de Helder Pacheco, na excelente publicação “O carro eléctrico no Porto”, editada em 1995 pela Sociedade de Transportes Colectivos do Porto.

CARTAS DE SANTA MARIA


(Urqhart castle)

Inverness, 31 de Mai



A Foz do Ness é o nome desta cidade onde cheguei. Sim, este é o Ness que vem do lago onde alguns procuram afanosamente um monstro que não se deixa ver. É uma pena e uma perda de tempo procurá-lo quando os verdadeiros monstros são bem visíveis e infernizam-nos a vida real. Na verdade o Ness desagua num imenso estuário e só doze quilómetros além entra vagarosamente no Mar do Norte. Vim de Sul para Norte e atravessei as Altas Montanhas. É uma sucessão de lagos e fios de água. A neve ainda resistia no cume das cordilheiras que rodeiam o Lago Lochy. Em Fort Augustus abandonei a A82, por onde todos seguem. Rodeei o Ness pela margem direita através da B862. Voltei a subir as montanhas até ao Lago Tarff.  A 500 mts de altura a paisagem é soberba. Os 35 kms do Ness ficam sob o nosso olhar. São momentos de paralisia, de reflexão. Sentimos a nossa pequenez perante a imensidão da paisagem. Num minuto apercebemo-nos do significado do verbo amar, a vida, as pessoas, os lugares. É quando nos deixam assim, na fronteira do inacreditável, do inenarrável, do que não pode ser fotografado, apenas vivido nesses instantes em que a roda do tempo se detém para nos podermos aperceber de quem somos, do que fazemos e para onde vamos. O tempo que perdemos em futilidades quando a vida é como a paisagem, só a podemos viver uma vez, porque muda a cada instante, pela luminosidade, a intensidade das cores, a temperatura ou a hora do dia. Baixei para Foyers para alcançar a margem do lago e poder olhar as ruínas de Urquhart Castle do lado oposto. As ruínas do que já foi grande. Num espaço cuidado, bem conservadas, deixam-nos a ideia de uma Escócia soberana, independente, uma nação com alma. Propositadamente quis vê-las à distância, como quem interroga o passado sem o perturbar. O meu caminho prosseguiu pela margem direita ao longo da B862. Foi neste percurso estreito, rodeado de verde entre árvores e arbustos que a memória me trouxe um tempo em que a música que escutava variava com as estradas que percorria. Não a escolhia nem a procurava, chegava com os espaços que atravessava. Não a trazia na memória, surgia do interior da alma. Quando viajava na N347 a caminho de Montemor nesse instante em  que a quietude do fim de tarde visita o nosso cansaço por entre as árvores que marginam a estrada antes de alcançarmos os campos do Mondego, chegava-me a Elegia do José Afonso, “O vento desfolha a tarde/ como a dor desfolha o peito”; na N226 a caminho de Lamego quando a luz do dia nos anuncia a visita do crepúsculo, deixava-me embalar pela doçura das curvas e aparecia-me a Canção de Embalar“Trovas e cantigas muito belas/ afina a garganta meu cantor/ quando a luz se apaga nas janelas/perde a estrela d’alva o seu fulgor”; porém quando o meu caminho era a N222, nesse traçado esplêndido entre a Régua e o Pinhão, surgiam-me os sons alegres de Maria Faia e era como se o automóvel adquirisse asas e planasse sobre a margem do Douro,  “Eu não sei como te chamas ó Maria Faia/ nem que nome te hei-de eu pôr/ ó Maria Faia, ó Faia Maria”. Havia uma música que me chegava em qualquer estrada nesses momentos em que as escarpas da vida me traziam as maldades do mundo, a violência dos senhores, dos “mordomos do universo todo” e a alma explodia como uma galáxia em expansão ao som do Dies Irae do Mozart, como se me erguesse nas mãos de todos os deserdados num voo de justiça e furor como quem acredita serpossível humanizar a humanidade. Entrei no sul da Inglaterra pela Cornualha e ao caminhar pela B3301 ao admirar as ondas em vagas sucessivas de encontro ao sopé da falésia foi a vez de escutar Carmina Burana Ó Fortunanesses cinco minutos iniciais de autêntica fantasia que nos faz sentir marinheiros descobridores enfrentando adamastores. Ao lembrar-me de todos estes momentos interrogo-me porque razão naquele momento em que me aproximava de Inverness, no sossego de uma estrada bela e aprazível a música que escuto provinda da alma é a Balada de Outono“Águas passadas do rio/meu sono vazio/não vão acordar/Águas das fontes calai/ó ribeiras chorai/ que eu não volto a cantar”. Para  da cidade, no fim do estuário, há uma praia extensa ao longo de uma ínsua. Uma jovem passeia um cão que vai correndo no vai e vem das ondas. Ao longe um cargueiro rasga o horizonte, a sua grandeza diminuída pela distância. O resto é silêncio, o que vejo e sinto e o que a alma me traz nos sons que a criação de Beethoven fez chegar até aos nossos dias. É o silêncio que vejo a norte para onde se encaminha o meu destino. 

Fernão Vasques*



* Por favor, não me confundam com o corajoso alfaiate que em 1371 ousou desafiar, em nome do povo, O Formoso e a futura rainha. Sou apenas um sonhador, digo eu, dos finais do século XX com endereço em Santa Maria das Júnias. São duas ruínas que se amparam, as minhas e as do mosteiro.

MIGUEL URBANO RODRIGUES

Manuel Joaquim







Há mais de 50 anos que ouvi falar de Miguel Urbano Rodrigues. Mais tarde, por volta de 1966, 1967, lia recortes do jornal “Estado S.Paulo” e da revista brasileira “Visão”, de artigos que Miguel publicava, muitos sobre a situação política portuguesa. Chegavam-me à mão por intermédio de Alexandre de Almeida, meu colega de trabalho, que os obtinha pelo intercâmbio de recortes e notícias que promovia por intermédio de outras pessoas ou por sua própria iniciativa através de correspondência com alguns portugueses refugiados no Brasil.

Tive a oportunidade de o conhecer pessoalmente após o 25 de Abril e de conversarmos muitas vezes sobre acontecimentos que só ele sabia contar. Brasil, Colômbia, Cuba e toda a América Latina, estavam sempre presentes.

Uma vez, jantamos juntos, em Vila Nova de Gaia. Falamos sobre um livro que tinha acabado de publicar, escrito em conjunto com a sua companheira, Catarina. A parte final do livro é sobre a visita que efectuaram ao Irão, país que tinha visitado pela primeira vez. A sua descrição, distante mas respeitável, impressionou-me verdadeiramente.

Tenho presentes os debates na TV com Franco Nogueira que causaram sensação. As suas entrevistas nas televisões e dos comentários de respeito e de admiração que provocavam nos comentadores. E recordo-me das palavras elogiosas que teceu, certa vez, à jornalista Ana Lourenço, no fim de uma entrevista.

A obra publicada é vasta e de leitura imprescindível para se conhecer um Homem de tão grande cultura e saber que até ao fim da vida lutou e manteve a confiança num futuro melhor para a Humanidade.

Natural de Moura, 2 de Agosto de 1925 – 27 de Maio de 2017



O SILÊNCIO

António Mesquita




"O Silêncio" (1963-Ingmar Bergman)



"A interioridade do mental, é isso talvez originalmente, essa falta de audácia em afirmar-se no ser e na sua pele. Não o ser-no-mundo, mas o ser-em-questão."

"Entre nous" (Emmanuel Lévinas)

É a queixa de Anna (Gunnel Lindlom) a sua irmã Esther (Ingrid Thulin), no filme de Bergman, "O Silêncio".

Por que é que ela se obstina, desde a morte do pai, a procurar um sentido para a vida? Porquê essa má consciência que se alimenta, precisamente, da sua vida interior, quando bastava entregar-se aos instintos do corpo saudável e simplesmente ser?

Mas é o que também se torna impossível a Anna, para quem a libertinagem e a perseguição do prazer são uma espécie de desforra perante o ascendente intelectual da irmã e, de facto, uma auto-tortura.

Este duelo sororal poderia ser um belo comentário à teoria do Rosto do Outro (Lévinas) e da responsabilidade que faz nascer em nós, anterior a qualquer experiência ou juízo.

01/05/17

118


DAS BOAS CAUSAS

Mário Martins


http://fontmeme.com/run-like-hell-font/

Sente a bílis a emergir/Do teu passado culposo/Com os teus nervos desfeitos/Como bocados de concha/E o bater dos martelos/A deitar abaixo a tua porta/É melhor correres!/É melhor correres todo o dia/E correres toda a noite/E guardar os teus sentimentos sujos bem dentro de ti/(…)/Vão mandar-te de volta para a tua Mãe/Numa caixa de cartão/É melhor correreres!

Pink Floyd
Run like hell/The Wall
1979

Corre! As boas causas querem-te matar. No mundo da política ou da religião, quem te quer dominar, perseguir, torturar, ou mesmo matar é sempre em nome de uma boa causa. Foi isso o que o século XX ensinou. Perseguiu-se, torturou-se e matou-se em grande escala, em nome das boas causas do homem socialmente novo ou racialmente puro. Corre! Apesar de as boas causas serem concorrenciais ou inimigas entre si, se não fores um adepto – e que sejas, se te matarem serás um dano co-lateral -, a tua soberania pessoal ou sequer o facto de seres, como os seus militantes ou governantes, um ser humano, não interessam nada. Corre! Afinal o século XXI, que - bêbados de tecnologia - imaginava-mos miraculoso, está-se a revelar muito pior do que a encomenda. Querem que tu ames um líder ou adores um deus, reverencies um regime ou advogues um imperialismo, cultives um interesse pátrio ou a grandeza de um povo. Sobretudo que desprezes a liberdade e a declaração universal dos direitos do Homem. O que tu e os estranhos à tribo pensam não interessa nada para quem, escudados numa boa causa, acham que têm o direito de dispor da vida dos outros. Por isso corre! O mais que puderes…

CARTAS DE SANTA MARIA





Lampaul, 30 de Abril 

A lembrança dos dias luminosos de Abril encontrou-me em pleno Loire. Cruzei o rio através da bonita ponte de Langeais. Ao longo dos 300 metros da travessia, permiti-me olhar a França, ou talvez seja mais apropriado dizer, pensei a França com o olhar estendendo-se imaginariamente para os corredores dos palácios do poder. Se procurarmos o pormenor percebe-se o ruir lento e desagregador das estruturas sobre um chão pantanoso que a qualquer momento pode-se tornar volátil. Distantes estão os dias dos comunardes, do assalto à Bastilha. Na aparência é o regresso de uma França colonial com a sua agressividade sobre a Síria e o Norte de África, mas na realidade, o seu poderio militar está suportado em poderes que se diluem numa sociedade esfarrapada, à deriva, sem líderes. Os estropiadores financeiros já dispensam os seus empregados políticos e recorrem aos seus serviçais directos. Dispensam a oratória, chega-lhes o verbo, oco e vazio, fruta podre pintada de fresco. E a França arrasta-se atrás desta comitiva. José Régio ainda sabia por onde não ir mas esta França vai à bolina, consoante o vento e chega a acreditar no inacreditável. Invade-me uma intensa tristeza na manhã fria em que contemplo o Loire. Até o rio parece arrastar-se sem pressa em alcançar o oceano. Entro na Bretanha pela costa norte e forço-me a um desvio para alcançar o Monte Saint-Michel. Necessito de um banho de Idade Média. Reflectir sobre a França actual suja-nos a alma e o pensamento. Há uma certa leveza quando percorremos este antigo território beneditino. Tudo parece seduzir-nos, atrair-nos, inspirando-nos na forma de pensarmos e olharmos o mundo, o que vemos e o que desejaríamos encontrar. Deambulei várias horas e deixei que o entardecer me encontrasse em sereno deleite da vida no interior da abadia. A costa norte da Bretanha, refúgio de pintores pela luminosidade que faz realçar as cores é também uma espécie de abertura da Mancha ao Atlântico. Suponho as águas frias, alterosas vejo-as eu. Percorro as suas reentrâncias, as suas falésias, as pequenas aldeias, e os faróis que se agigantam perante a grandeza do mar. En Le Conquet enquanto aguardo, o navio que me levará até Port du Stiff, e tendo como horizonte o farol de Kermorvan, escrevo de novo à mulher do meu futuro. Que não tarde como lhe pedi em Juromenha, que apresse a sua vinda antes que chegue ao meu destino que apazigúe a falta que faz enquanto não navega no rio da minha vida. Lampaul parece conduzir-nos à infância, pelo encanto. Nas pequenas ruas e nas suas casas de pedra parece reinar um tempo mágico. Escolhi esta ilha de Ouessant para me despedir do continente. Na verdade vim à procura do Museu dos Faróis e Balizas albergado pelo farol do Creac’h. Os faróis transmitem-nos a ideia de grande isolamento, de enorme solidão. Silêncio não. O mar produz os seus próprios sons, os seus ruídos, o estertor das suas águas crepitando contra a penedia, o alvoroço da espuma em desintegração. Fazem-nos sentir abandonados e únicos, como que perdidos, receosos de voltar a caminhar. Quando passeamos pelo museu em observação é um pouco desse aroma marítimo que nos visita, nos atrai. Sentimo-nos singulares e protegidos. Para lá desta costa estende-se a longitude infinita do oceano. Sinto-me pequeno face à imaginação da sua grandeza. A ilha de Ouessant resiste há séculos há fúria do mar e do vento. Amanhã afasto-me para Norte.     
    Fernão Vasques*

* Por favor, não me confundam com o corajoso alfaiate que em 1371 ousou desafiar, em nome do povo, O Formoso e a futura rainha. Sou apenas um sonhador, digo eu, dos finais do século XX com endereço em Santa Maria das Júnias. São duas ruínas que se amparam, as minhas e as do mosteiro.

O MAL MENOR

Mário Faria





As eleições em França demonstram bem como vai a desordem político-partidária e como as suas estruturas são postas em causa por organizações emergentes, fruto da fractura social que decorre da intromissão das novas tecnologias no mundo do trabalho, da prevalência das redes sociais na formação da opinião, do efeito da globalização e das políticas neoliberais. O terrorismo e a xenofobia intrometem-se e o medo instalou-se: os muros e o fecho das fronteiras estão na agenda. A UE juntou muitos países com intenções diferentes, cada um jurando ser capaz de se ajustar ao modelo colectivo que se ia desenhando, mas sempre mais vocacionados para valorizar aquilo que mais os poderia beneficiar. O seu projcto aberto, civilizado e defensor do “estado social”, juntou povos com culturas muito diversas e com um potencial económico muito diferenciado. A coisa ia correndo normalmente e sem rupturas, até que o mundo entrou em colapso com a crise do subprime, a falência dos bancos e as dívidas soberanas. A partir daí, a UE nunca mais foi como dantes. E passou a ser uma saudade de uma coisa que se calhar nunca foi.

As eleições em França e na Alemanha prometem muito falatório. Serão o termómetro da UE e marcarão o seu futuro: a uma, duas ou três velocidades. Ou o seu descalabro. Na França já correu a primeira volta e Macron e Marie vão à luta para decidir quem vai ser Presidente. Em Portugal tem-se seguido o processo eleitoral de forma apaixonada. A queda brutal dos partidos tradicionais do sistema gera muita polémica, sobre o presente e o futuro. E o que devem fazer as esquerdas nestas circunstâncias. A profissão aconselhou-me, no quadro de decisões que integravam uma série de propostas bem diferenciadas, a definir ab-initio a que me parecia mais adequada e porquê, anotando cuidadosamente os princípios das minhas opções. Tive isso sempre em consideração em todas as discussões ou debates. Raramente vencia, mas dei sempre luta. No quadro das eleições francesas, confesso que o primeiro impulso foi que, se fosse francês ( e de esquerda como sou ), na segunda volta votaria Macron  que me parece um rapaz desempoeirado, jovem, de mangas arregaçadas, amigo da Europa e adverso à xenofobia e ao nacionalismo exacerbado de Marie. Ultimamente, a nossa elite política de centro direita tem desancado forte e feio em Mélenchon porque este não deu indicações de voto para a segunda volta e entendeu o facto como uma forma de favorecimento à extrema-direita, seja pelo voto ou pela abstenção. Sobre este propósito, Tavares tem defendido algo muito semelhante, em nome do cosmopolitismo que Macron garante: repúdio a qualquer tipo de discriminação nacional, étnica, sexual e religiosa; pela defesa da globalização democrática e pela erradicação da pobreza. Tenho dúvidas e fico com urticária quando insistem neste tipo de loas, mas insisto: se me fosse dado o direito de participar nesta eleição continuaria a votar em Macron porque a Frente Nacional é uma ameaça muito séria, mas perfeitamente consciente dos “riscos” de sair enganado e não o faria com um espírito de missão e de confiança como quando votei em Mário Soares, também numa segunda volta. 

E perceberia e respeitaria muito bem a abstenção.  


MUROS



Manuel Joaquim



(Papo de Homem-37 muros que separam o mundo)

Notícias muito recentes dizem que o muro que os EUA estão a construir na fronteira com o México já não vai ser finalizado, não só por falta de dinheiro, mas também pelas crescentes contestações internas e externas e por alteração das posições do presidente Trump, que hoje já não é novidade. De facto o presidente, com cem dias de mandato, tem dito e feito o contrário do que prometeu no decurso da campanha eleitoral.

Reclamou a existência de duas Chinas, a China continental e Taiwan, mas passou a reconhecer uma só China, depois das palavras públicas desta. Pretendeu revogar os acordos de livre comércio, mas já declarou que são para manter. Tentou revogar o serviço de saúde criado por Obama, o ObamaCare, depois de derrotado internamente, vai mantê-lo. Pretendeu revogar os acordos de comércio com o México, mas já desistiu da ideia. Disse que tomava a iniciativa de resolver sozinho o problema da República Popular Democrática da Coreia. Fez deslocar para as suas costas, para a Coreia do Sul, para o Japão e outros países da região, uma quantidade enorme de material de guerra, incluindo três porta-aviões, mas até agora, aparentemente, não aconteceu nada. Ou, por outra, aconteceram “conselhos” da China e da Rússia, para não se meter em alhadas. Muito recentemente a China aconselhou a RPDC a não fazer mais testes nucleares para não dar pretextos e aconselhou os EUA a suspender simultaneamente os exercícios militares que estão a realizar com a Coreia do Sul e Japão para não serem considerados uma provocação. Se as partes em conflito aceitarem esta proposta, poderá resultar a Paz. Se não, é a guerra com consequências imprevisíveis para toda a humanidade.

São assuntos que se discutem superficialmente na comunicação social, acrescentados com as palavras polémicas de um ilustre dirigente da EU, com o terrorismo e com as eleições francesas, neste caso distorcendo a realidade social e política da França com o objectivo de servirem determinado candidato. 

Falou-se no referendo na Turquia, não dizendo claramente o que estava em causa e os resultados foram notícia de momento. Não se falou nem se fala nas dezenas de milhares de turcos que estão nas cadeias, sem julgamento, no encerramento de dezenas de jornais, revistas e outros, nos saneamentos nas forças militares, nas escolas, na função pública, etc. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Santos Silva, veio dizer que com o referendo estava em causa a adesão da Turquia à EU. Palavras tristes, esquecendo que Portugal fascista aderiu à Nato e à EFTA. 

Deixou-se de falar nos refugiados, no cemitério que é o mar Mediterrâneo. Omite-se quanto dinheiro recebe a Turquia da EU para bloquear a passagem de refugiados e emigrantes para a Europa. 

Nada se diz sobre quanto recebe Marrocos pela prisão de refugiados e emigrantes que tentam passar e o destino que dá a essas pessoas. Marrocos é aqui à nossa porta e muito pouco sabemos. Marrocos mantém a última colónia de África que é o Sahara Ocidental. Este território foi abandonado pela Espanha em 1976. Três anos antes a população fundou um partido político, a Frente Polisário, para obter a independência da Espanha. Mas Marrocos e Mauritânia repartiram o território entre si. A Frente Polisário foi para a guerra. Dezenas de milhar de pessoas exilaram-se e criaram acampamentos junto à fronteira com a Argélia. O rei de Marrocos iniciou a construção de um muro que tem 2.700 quilómetros de comprimento, com postos militares na sua extensão e todo o terreno armadilhado, pelo lado saharaui, dizem 7 milhões de minas. Milhares de presos políticos torturados e assassinados. Homens, mulheres e crianças. Em 1991 a Frente Polísário e Marrocos efectuaram um acordo de Paz com o apoio da ONU e um compromisso para organizarem um referendo de autodeterminação. Mas nunca foi cumprido e a comunidade internacional foi-se esquecendo. O muro continuou. É o chamado “Muro da vergonha”. Depois da muralha da China é o maior. Tanto barulho foi feito por um muro que não tinha 20 quilómetros de comprimento mas que certamente, na altura, evitou uma terceira guerra mundial. Tanto barulho tem dado o muro do Trump iniciado por anteriores presidentes. Sobre o “muro da vergonha” ninguém sabe. As grandes riquezas existentes, designadamente fosfatos, pesca, leva a muitos esquecimentos. António Guterres tem este processo para resolver.


PRESCRIÇÃO DE DIAGNÓSTICO

António Mesquita


A Greek physician at work (490 BC)



A identificação da doença permite ao médico "ler" alguns sintomas e antecipar outros, interpretando, sempre no mesmo sentido, indícios que podem parecer não ter qualquer relação com o mal.

Esta "crítica" não é possível no caso duma doença ainda desconhecida, ou quando os sinais são demasiado ambíguos.

Antes da filosofia hegeliana ter engendrado a sua prole no domínio da teoria política, a crítica tinha de cingir-se aos aspectos pontuais e às lições do senso comum. Denunciava-se a injustiça em pessoas e actuações  concretas, mas era inconcebível a ideia de que a sociedade pudesse ser injusta no seu todo, sistematicamente.

A filosofia alemã criou a crítica sistemática. Tal como no caso do médico que já sabe o nome da doença, tudo pode ser interpretado como sintoma e manifestação do sistema.

Infelizmente, a política deixou de poder recorrer à farmácia do século XIX. E os que continuam a diagnosticar o sistema já não têm os meios da cura.

A pior consequência disto é que se perde assim o sentido natural da justiça e só o que corresponde à doença sistemática é valorizado.

01/04/17

30 ANOS DEPOIS


Mário Martins



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“Eu nunca desmenti o PREC; o sempre assumido PREC.”

29 de Janeiro de 1983
Coliseu dos Recreios – Lisboa
José Afonso

Trinta anos depois da morte de José Afonso, o que posso dizer é que cresci politicamente ao som do seu canto. Em finais de 1973, na oposição semi-clandestina levada a cabo por uma Comissão de Freguesia do MDP-CDE, trauteávamos a recente “Venham mais cinco”. E poucos dias depois do 25 de Abril tive a sorte de assistir ao I Encontro Livre da Canção Popular, no Palácio de Cristal, no Porto, onde proferiu a frase premonitória: “Agora vão surgir outros vampiros”.

É realmente justo dizer que o grande compositor e poeta da canção popular é, ou foi, o rosto da utopia, tanto nos fins como nos meios. Combateu política e, sobretudo, culturalmente, a ditadura e o capitalismo amparado pelo regime; sempre defendeu uma sociedade livre e igualitária; e avesso a comandos partidários - disse um dia que “o meu comité central sou eu” – privilegiava a participação e a organização política de base.

Três décadas volvidas sobre a sua morte, o socialismo partidariamente dirigido deu no que deu e a alternativa do “poder popular” nunca foi experimentada nem é fácil vislumbrá-la num futuro previsivelmente dominado pela aceleração do novo PREC (processo revolucionário de automatização e robotização em curso), que constitui uma ameaça sem precedentes ao valor do trabalho, enquanto base das condições materiais de existência e aglutinador social.

Para lá do seu incontornável exemplo e da inegável valia do seu legado artístico, ficou a utopia que, por definição, é o que não pertence a nenhum lugar mas que, segundo a escritora Joanna Russ, “representa a parte de sonho indispensável a quem quer autenticamente construir o real”.

CARTAS DE SANTA MARIA





Aigues-Mortes,  31 de Março

Atravessei Carcassone como uma lança atravessa um corpo, de um só golpe e de um grito apenas. A cidade antiga impressiona. O Château Comtal, a Porte Narbonnaise, aparecem como símbolos de um passado de glória. Mas não parei, pois uma dor imensa afogava-me o pensamento. Quando as sombras da noite me envolvem chega uma música, serena, magoada, soando a eternidade e ocorre-me pensar nos tempos negros dos cátaros nos corredores sombrios das masmorras inquisitoriais vogando ao sabor dos humores de figuras sinistras. Sei que é a música de Jordi Savall que me visita, que toca no interior da minha memória no concerto célebre da Abadia de Fontfroid em Narbona dedicado À Tragédia Cátara. Agora estou sentado na Place Saint-Louis desta pequena cidade mediterrânica. Caminhei longo tempo em volta da praça. Alimento sempre a ideia utópica de que vou encontrar o Café certo para escrever. Sei que não encontro, mas nunca desisto de procurar. Por fim, acabei nas cadeiras cor-de-rosa do L’ Express. Esta mistura do branco total com o vermelho vibrante, arrepia-me, é uma cor deslavada, é como se não me conseguisse sentar bem, mas pareceu-me o melhor lugar. Pergunto-me o que faço aqui, porque me desviei da rota que levava. É uma história antiga de uma outra ocasião que por aqui passei, num desses dias em que tudo nos acontece. Tinha madrugado e aos primeiros alvores despedi-me da pessoa que me recebera na véspera e com quem havia tentado durante minutos encontrar palavras para nos entendermos até descobrirmos que falávamos a mesma língua. Quando as primeiras imagens do sol rastejavam pelo chão, seguia pelas ruas estreitas de Narbona em perseguição de um aroma de pão fresco. No fim da manhã tudo se começou a complicar. Levava um programa daqueles em que acreditámos poder ver tudo, sabendo de antemão que são sempre preferíveis as escolhas por mais dolorosas que sejam, pois ver tudo, simplifica o olhar, ver o exterior e não chegar a conhecer o suficiente. Foi em Montpllier que durante duas horas procurei quem não queria ser encontrado. É muito difícil encontrar quem nos foge continuadamente, é uma espécie de utopia, quando chegamos, saiu um pouco antes. Levava um sonho comigo que me seguia desde a adolescência, visitar a Camargue. Tinha sido numa das primeiras edições do Reader’s que visionara os cavalos selvagens a percorrer os terrenos alagados do delta do Ródano. Mas aquele atraso, complicou tudo e foi desta forma, em velocidade que na estrada vi a placa a indicar Aigues-Mortes. Não podia parar, mas compreendi que estava a perder de visitar um espaço medieval e gravei no pensamento o nome, mas traduzindo. Sabemos como a pressa não ajuda a uma leitura correcta do que vemos e interiorizei, Águias Mortas. Aguçou ainda mais o desejo da visita. Porquê um lugar com esta toponímia. O atraso devia-me ter levado a refazer o objectivo, como não o fiz, o resto do dia foi feito a vencer quilómetros de estrada com uma única paragem em plena Camargue para seguir o tropel dos cavalos que arrastava na memória ao longo dos anos. Há um ano atrás quando iniciei esta caminhada com destino ao nada incluí as Águias-Mortas no roteiro e só então reparei que o nome tinha origem na língua occitana e é mais precisamente, Águas-Mortas, as águas estagnadas, sujas, do pântano, os restos do delta do Ródano que aqui chegam. No século XIII, o mar estava aqui junto a esta fortaleza imponente e daqui partiram as cruzadas, ao assalto da terra Palestina, ao massacre de Jerusalém. Mas o Homem conquista espaço, ao mar também e o Mediterrâneo que outrora bordejava a cidade está agora a 5 kms de distância. As águas sujas, afastaram-se, espalharam-se pelo mundo e em qualquer lugar em que os nossos olhos se levantem, o que vemos são pântanos, lamaçais, águas sujas, nojentas e obscenas por vezes. Sente-se a podridão a rodear-nos, nos gestos, nas acções, nas intenções e nos actos malignos. O poder é encantatório, sedutor, malicioso e o ser humano que se divide entre a virtude e a maldade, deixa-se arrastar, insidiosamente, quantas vezes pelo único prazer do exercício de mandar, de um poder, sempre temporal, mas esmagador. O nosso pensamento procura o futuro e só encontra o passado. Evoluímos, afirmamos nós, em frente ao espelho para convencimento próprio, no mesmo instante que traçamos projectos que vão sepultar alguém pelo caminho. Os que procuram não se sujar neste lamaçal onde caminha a humanidade, são uns românticos, idealistas a quem dizem, com ar de conselho, que não sabem observar a realidade. Vagabundear por Aigues-Mortes tem servido para isso, deixar o pensamento solto a percorrer a humanidade. Abandonamos a história que nos falava de guerras e reis, descemos ao quotidiano e o que encontramos é o mesmo, em escala microscópica, o universo no seu todo, o ínfimo e o infinito. Foi num desses instantes que me chegou a poesia da Sophia, «há mulheres que trazem o mar nos olhos, não pela cor, mas pela vastidão da alma». Mar esse que, quantas vezes nos abraça, nos enlaça, nos protege e outras tantas nos afoga, nos desencaminha. Sinto-me cansado. A Primavera aproxima-se e a temperatura ameniza. Amanhã regresso ao rumo para norte, para o destino que procuro. 



Fernão Vasques*


* Por favor, não me confundam com o corajoso alfaiate que em 1371 ousou desafiar, em nome do povo, O Formoso e a futura rainha. Sou apenas um sonhador, digo eu, dos finais do século XX com endereço em Santa Maria das Júnias. São duas ruínas que se amparam, as minhas e as do mosteiro.

A CRISE EUROPEIA


Manuel Joaquim



(Bertrams, Het Parool (Amesterdão): Europa a duas velocidades ...)

Quem leu o jornal Público do passado dia 29, ficou a saber, que, a partir deste mês de Abril, vai iniciar-se uma grande campanha de comunicação, paga pela Comissão Europeia, para influenciar a opinião pública contra o eurocepticismo, que vai envolver empresários, académicos, autarcas, jornalistas e empresas especializadas, que vai decorrer até Março do próximo ano. Não vai faltar dinheiro para tantos papagaios, na rádio, nas televisões, nos jornais, nos outdoors que vão inundar muitos locais.

No mês de Março foram feitas comemorações ao 60º aniversário do Tratado de Roma. Muito se falou sobre o assunto, contrabalançando notícias sobre o início das negociações do Reino Unido para sair da União Europeia, o chamado Brexit. O Presidente da República, sobre isto, disse que seria "o momento para um novo começo”, não se sabendo muito bem a que começo se estava a referir.

Também em Março, Cavaco Silva deu uma entrevista ao jornal Público, onde referiu que “só se Portugal enlouquecesse é saía da zona do euro”. Isto, no seguimento de uma declaração sua, escrita, efectuada em Fevereiro, que teria “consequências dramáticas de uma ruptura da união monetária”. Preocupações que estão à flor da pele de alguém que tenta negar o rumo dos acontecimentos e o mais que provável desastre que se aproxima em termos económicos, sociais e políticos.

Os aprendizes de feiticeiro, continuam a governar a sua vidinha, defendendo já, sem vergonha, a Europa a várias velocidades, a destruírem os bancos nacionais, provocando a aceleração da concentração e centralização do grande capital transnacional, tendo como bandeira o chamado federalismo, com a ilusão de que com saltos em frente resolverão os problemas (deles).

Entretanto, aumentam as vozes críticas sobre a situação e o rumo da União Europeia, independentemente das suas posições políticas.

Curiosamente, a campanha que a EU vai fazer para influenciar a opinião das pessoas, coincide com o prazo da campanha de esclarecimento que o PCP vai fazer sobre o Euro, a Divida, Banca, defendendo uma política para “romper com os constrangimentos, desenvolver o País” para a qual acabou de publicar um livro, que mereceu elogios de Clara Ferreira Alves, no programa Eixo do Mal.

João Ferreira do Amaral, professor catedrático do ISE, da área da economia e das matemáticas, que publicou já em 2013 o livro “ Porque devemos sair do euro, o divórcio necessário para tirar Portugal da crise”, além de outros publicados anteriormente sobre o tema, e que sempre se manifestou contrário à integração de Portugal, fundamentando cientificamente as suas posições, publicou em 24 de Março passado, um artigo intitulado “Sessenta anos depois – A reserva de soberania e o futuro de Portugal, denunciando que “a União Europeia não é um mero prosseguimento da CEE sob outro nome. A União é algo de novo e o seu estabelecimento, em 1992, com a ratificação do tratado de Maastricht, representou um corte em relação ao que tinha sido até aí a evolução da integração europeia ocidental pós-II Guerra Mundial. Por isso, mais do que a comemoração dos 60 anos da CEE, o que deveríamos estar a assinalar (não a comemorar) são os 25 anos do Tratado de Maastricht”.

Depois de descrever de forma muito clara todo o processo e as suas consequências, diz: “A pertença ao euro – um dos maiores desastres da nossa história – tem de ser revertida como primeiro passo fundamental para repor a reserva de soberania. Por isso, é urgente que a nova união defina um conjunto de procedimentos para a saída de um país da zona euro” …”A questão da reserva de soberania é nos tempos actuais a mais importante que o País tem de enfrentar. Nela se joga a possibilidade de Portugal continuar a existir”.

Quem leu o discurso do Papa, aquando da recepção no Vaticano aos representantes da EU, nas comemorações dos ditos 60 anos? Muito poucas pessoas. A comunicação social desvalorizou-a completamente. É que o Papa manifestou o seu grande pessimismo com a continuação da EU.

Neste momento, já quase que não há notícias sobre imigrantes e refugiados, ou sobre os pormenores da guerra em Mosul, no Iraque, como houve sobre Allepo, na Síria.

É preciso avisar toda a gente, como dizia o Cantor, que os jornais não dizem o que sabem.


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